Caderno de Sábado

O ensaio da convivência

Jornalista Flávia Lima Moreira constrói impressões sobre "The Infamous Ramírez Hoffman", espetáculo apresentado dia 3 de abril em Porto Alegre

Espetáculo "The Infamous Ramirez Hoffmann” com o violinista Andrej Bielow, a pianista Anastasya Terenkova, o bandoneonista Fabrizio Colombo e o ator John Malkovich, foi apresentado no dia 3, no Teatro Simões Lopes Neto
Espetáculo "The Infamous Ramirez Hoffmann” com o violinista Andrej Bielow, a pianista Anastasya Terenkova, o bandoneonista Fabrizio Colombo e o ator John Malkovich, foi apresentado no dia 3, no Teatro Simões Lopes Neto Foto : Isadora Quintana / Divulgação / CP

Fui atravessada pelo espetáculo "The Infamous Ramírez Hoffman". Não no sentido leve da emoção que passa, mas naquele mais raro – e mais perturbador – em que algo se desloca por dentro e permanece. Saí do Multipalco Eva Sopher após a peça com uma pergunta que não se resolve, mas insiste: seria possível imaginar, hoje, um encontro entre Donald Trump, Vladimir Putin, Volodymyr Zelensky e Javier Milei em que não houvesse disputa de protagonismo, cálculo, encenação estratégica? Um encontro em que cada um pudesse existir sem anular o outro? Em que houvesse espaço para a escuta real? Para a presença? Para a coexistência?

A pergunta, formulada no campo da política, soa ingênua – ou simplesmente impossível. A geopolítica contemporânea não opera na lógica da convivência, mas da imposição. Não se organiza pelo reconhecimento mútuo, mas pela disputa de narrativa, de território, de poder. O outro, ali, não é interlocutor: é obstáculo.

No entanto aquilo que parece inalcançável no mundo concreto se materializa, com uma naturalidade desconcertante, no espaço simbólico da arte.

Arte como encontro e coexistência

No palco do Teatro Simões Lopes Neto, quatro artistas de origens atravessadas por tensões históricas – uma pianista russa – Anastasya Tarenkova –, um violinista ucraniano – Andrej Bielow –, um bandoneonista argentino – Fabrizio Colombo –, e um ator norte-americano – John Malkovich –, não apenas coexistem: eles constroem algo juntos. Não há hierarquia visível, não há competição por centralidade. Há escuta. Há tempo. Há composição.

Interpretando um texto de Roberto Bolaño, escritor chileno, produzem o que a política, hoje, parece incapaz de produzir: encontro.

Mas não se trata de harmonia ingênua. O que acontece ali não é a negação do conflito, mas sua elaboração. A arte não elimina tensões – ela as organiza em linguagem. E é justamente isso que permite que aquilo que, no mundo, explode como ruptura, no palco se manifeste como experiência compartilhada.

A potência do espetáculo não está apenas na excelência técnica, embora ela seja evidente, mas na capacidade de deslocar o espectador de uma posição passiva para um estado de presença. Há algo ali que interrompe o fluxo automático da percepção. Algo que suspende, ainda que por instantes, as certezas.

É nesse intervalo que a arte opera.

A dimensão sensível da arte

A arte chega onde a racionalidade instrumental não alcança. Não porque seja superior, mas porque trabalha em outra dimensão. Enquanto a política se ancora na gestão de interesses, a arte lida com a experiência sensível. E é nesse campo que ela consegue produzir aquilo que falta ao nosso tempo: reconhecimento.

Não reconhecimento como validação superficial, mas como percepção da existência do outro em sua complexidade.

Clarice Lispector, ucraniana de nascimento e brasileira de existência, escreveu "liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome". Talvez seja disso que estamos falando: de uma forma de estar no mundo que ainda não conseguimos nomear, mas que, intuitivamente, reconhecemos quando a experimentamos.

Uma forma de coexistência que não se estrutura pela anulação.

Arte, antecipação e memória

A arte, nesse sentido, não é apenas expressão – é antecipação. Ela projeta possibilidades que ainda não se realizaram no campo social. Ela ensaia formas de convivência que a política ainda não conseguiu formular. E, ao fazer isso, cria memória.

Não uma memória factual, mas afetiva. Aquela que se instala de maneira silenciosa e que, mais tarde, reaparece – em uma conversa, em uma discordância, em uma escolha. A experiência estética não se esgota quando acontece. Ela continua operando.

Esse talvez seja o seu maior poder. E, ao mesmo tempo, a sua maior responsabilidade. Porque se a arte é capaz de abrir essas frestas, o que significa tratá-la como acessório? O que significa relegá-la a um lugar periférico nas prioridades sociais e políticas?

A arte como política pública

Significa, em última instância, aceitar que experiências de deslocamento, de encontro e de reflexão sejam raras. Esporádicas. Privilegiadas. E há algo de profundamente equivocado nisso.

Se a arte é um dos poucos espaços onde conseguimos experimentar formas não violentas de coexistência, então ela não pode ser exceção. Ela precisa ser estrutura. Ela precisa ser política pública. Ela precisa ser acesso.

Liberdade e o enfrentamento do medo

Não como instrumento de doutrinação – o que seria uma contradição em si –, mas como campo de liberdade. Sem medo.

Nina Simone dizia que "liberdade é não ter medo". A frase, simples na forma, é radical na implicação. Porque, se criar exige liberdade, e liberdade exige ausência de medo, então toda produção artística é, em alguma medida, um ato de enfrentamento.

Talvez seja isso que torna a arte tão necessária em tempos de endurecimento, de sombras, de escuridão. Ela não resolve conflitos. Não substitui a política. Não reorganiza a geopolítica. Mas ela faz algo que, hoje, parece ainda mais urgente: ela nos lembra que outras formas de existência são possíveis.

Não posso deixar de reconhecer o imenso talento e a entrega de cada artista que faz de "The Infamous Ramírez Hoffman" essa força atravessadora. Há ali uma intensidade rara, sustentada por técnica e por alma, que se inscreve em cada palavra, em cada nota, em cada segundo, como se o tempo, por instantes, fosse moldado pela presença de quem está em cena.

E, às vezes, lembrar disso já é um começo.