No trabalho atual de Heloísa Crocco, em exposição na Ocre Galeria desde o último dia 8 de agosto, a artista, sempre sensível aos materiais rejeitados da natureza, teve sua atenção despertada pelas cercas presentes no pampa. Definidoras das fronteiras entre propriedades, elas são constituídas por matéria bruta: madeiras resistentes, sem tratamento, cortadas no formato de moirões, perfuradas para deixar passar os arames farpados. Quando substituídas, os fragmentos dos descartes permanecem no campo, à mercê da ação do tempo e das intempéries. Heloísa passou a recolher este material, dando, com ele, seguimento à pesquisa artística Topomorfose, que desenvolve há muitos anos.
Topos significa lugar, e morfos quer dizer forma; ambos termos vêm do grego e, juntos, constituem o lugar da forma. Esse lugar, para a artista, se encontra no mundo natural; por isso, desenvolve o seu trabalho com descartes da ação humana na natureza. Ela trabalha há muitos anos com restos de madeira, que recupera, retrabalha e, por conseguinte, valoriza, lhes dando novo destino.
Primeiras experimentações
Inicialmente, a artista trabalhou com aparas de madeiras recém cortadas, descartadas na realização de estruturas, móveis, objetos. De modo geral, nada é previsto para o seu resgate e utilização. O que a motivou a atentar para a potência desses elementos desperdiçados foi uma viagem à Amazônia, na qual se viu confrontada simultaneamente à beleza e imponência da floresta e ao drama da sua devastação. Ela decidiu investigar as inúmeras possibilidades do material e iniciou com a realização de pequenos módulos retangulares, nos quais o topo da madeira destaca os anéis de crescimento da árvore.
Paulatinamente, a artista os agrupou criando objetos quadrangulares, com os anéis dispostos em diferentes direções, em jogos de combinatórias. Heloísa experimentou, também, a aplicação de jatos de areia, que penetravam nas partes mais tenras dos topos e salientavam os anéis saturados de resina, que não se desgastam. A irregularidade das superfícies criava relevos sempre diferentes. Abria-se, ainda, outra possibilidade: com seus sulcos e linhas proeminentes, os relevos funcionavam como carimbos, permitindo sua utilização sobre superfícies variadas, como papéis, tecidos, porcelanas, e em objetos utilitários, correspondendo à dupla formação da artista, também designer.
Evolução da técnica
Antes desta pesquisa, Heloísa havia realizado tapeçarias, criando relevos, depressões, nós, aberturas, chegando a objetos tridimensionais, sustentados por estruturas de madeira. Ao começar a realizar obras com este novo material, ela resgatou o saber anterior, elaborando texturas com fortes efeitos visuais.
Com o tempo, a artista começou a explorar módulos triangulares, acrescentando cores e aproximando as obras da pintura. Com as texturas e volumetrias criadas pelos módulos, ela realizou jogos tridimensionais; por exemplo, de determinado ângulo veríamos um trabalho laranja; a obra se tornaria azul, vista de frente; talvez fosse vermelha, quando atingíssemos sua outra lateral. A textura e o cromatismo transformam, então, o painel bidimensional em algo surpreendente, variável e dinâmico.
Todas essas experiências foram resgatadas por Heloísa no trabalho atual, mas as diferenças em relação às fases anteriores são tão significativas quanto as semelhanças: a matéria que dá origem aos trabalhos mudou, de fragmentos novos, intactos, informes, para madeiras desgastadas pelo tempo e pelos elementos naturais, como o sol, o vento, as chuvas. A artista escolheu respeitar esses sinais de obsolescência do material; encantada com sua força evocadora e seu aspecto primitivo, iniciou a realização de novos painéis, nos quais sua intervenção diminuiu, limitando-se a ordenar os fragmentos, a aparar ou não suas pontas, a agenciá-los em determinadas posições. Nesses trabalhos, o tempo revela sua passagem, com os sinais que deixa em seu rastro. Matéria bruta, mas profundamente evocadora, que Heloísa se contenta em agrupar, permitindo que ela conte sua própria história. Nos trabalhos finalizados, o pensamento plástico refinado da artista se faz visível pelos agenciamentos que realiza, fazendo a matéria transcender sua condição inicial para tornar-se arte.
SERVIÇO
O Quê. Conversa com a artista Heloisa Crocco e a curadora Icleia Cattani
Onde: Ocre Galeria | Av. Polônia, 495, São Geraldo, Porto Alegre/RS
Quando: Sábado, 22 de agosto de 2026, às 11h
Quanto: Entrada franca
Recomendação etária: Livre