Ao entrar na recepção, tão logo era possível escutar o ruído do gerador. Ao olhar para as paredes da reserva técnica, a marca deixada pela água ainda é perceptível. O cheiro característico de mofo não saiu por completo. Após seis meses e seis dias que as águas da enchente entraram pelos portões do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – Margs, as marcas deixadas pela catástrofe climática ainda estão presentes em um dos principais museus do Estado que ainda está de portas fechadas.
Na tarde do dia 3 de maio, centenas de peças e itens do museu foram movimentados manualmente para os andares superiores no momento de evacuação. A água, porém, invadiu todo o subsolo, atingindo até os dois metros. O prédio ficou inundado por cerca de três semanas. De acordo com diagnóstico divulgado pela própria instituição vinculada à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), cerca de 4 mil itens, de mais de 700 artistas, foram afetados de algum modo pela inundação – seja por conta da quantidade de água, seja por meio do contato prolongado com a umidade. Documentações administrativas e do acervo, estoque de publicações e catálogos também foram atingidos.
Desde então, o Museu está com os esforços totalmente voltados para a recuperação do espaço, com ações que envolveram e envolvem o resgate e o salvamento de obras, do patrimônio e de documentos afetados pela água e pela umidade, além do restabelecimento das redes elétrica, hidráulica e do sistema de climatização. Em junho, o Margs foi contemplado na fatia de R$ 25 milhões que o Governo e Banrisul anunciaram de investimento para o setor cultural afetado pela enchente – foi cerca de R$ 5,6 milhões. Houve, também, um investimento do fundo da Defesa Civil da União, de cerca de R$ 1 milhão e 600 mil, totalizando R$ 7 milhões para o Museu, soma Benhur Bortolotto, secretário-adjunto da Sedac.
Entre os demais apoios recebidos, o Margs contou com a Rede de Apoio para Recuperação de Acervos do Rio Grande do Sul, o Arquivo Público do Estado do RS, o Arquivo Nacional, a Associação para a Preservação do Patrimônio das Américas (APOYOnline), o Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (ICCROM) e a Câmara Técnica de Preservação de Documentos. Professores e alunos do curso de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) também auxiliaram nos trabalhos de recuperação.
Após a recuperação da subestação de energia elétrica, localizada no térreo, e o retorno da energia concluído nos últimos dias pela CEEE Equatorial, agora a maior parte da força-tarefa está concentrada no condicionamento das obras, seguida da reforma planejada para o espaço, conta o diretor-curador do Margs, Francisco Dalcol. Entre as maiores preocupações, está a transição térmica dentro do prédio com a aproximação do verão. Nas salas onde as obras estão acondicionadas, retiradas da reserva técnica com as ações preventivas antes da enchente, ventiladores e umidificadores buscavam regular a temperatura e umidade. Há, também, prioridade na recuperação de itens que são fundamentais para o funcionamento do prédio, como o elevador, a rede de telefonia e internet, o sistema de alarme de incêndio e de câmeras, parte do sistema de climatização, entre outras frentes.
Dalcol revela que uma das principais ações dentro do Museu será a criação da nova reserva técnica do acervo. "Nós fizemos todo um estudo de viabilidade para ele não ficar obsoleto lá embaixo, e estamos direcionando e movimentando aquelas máquinas para abastecer essa nova área de reserva técnica e assegurar as condições de controle de temperatura e umidade", explica. A transferência será feita para o andar superior, com a criação de uma nova reserva para armazenagem e conservação das obras de arte do acervo. "A ideia é que seja uma reserva técnica visível, que integre o circuito de visitação do museu", explica o diretor. Para Dalcol, essa ação de visibilidade será importante para ajudar a aprofundar o tema da educação patrimonial. “Ele se chama museu porque tem um acervo”, diz. Será realocada, também, a reserva técnica do cofre do museu, possivelmente para os andares superiores.
Dalcol detalha que as obras foram secas, limpas e agora estão em um sistema de quarentena para desinfestação com químicos, com o objetivo de matar microrganismos que podem gerar fungos. Algumas obras também passaram por processo de congelamento para preservação. Parte da documentação administrativa de papel ficou congelada no Instituto Estadual do Livro (IEL) por alguns meses, lembra Benhur.
O plano de recuperação de danos de obras está sendo coordenado pela conservadora e restauradora do Departamento de Conservação e Memória do Patrimônio Cultural do Complexo do Palácio Piratini, Isis Fófano Gama, e supervisionado pela restauradora e conservadora Naida Corrêa. A equipe também é formada por funcionários do Museu, do Palácio Piratini, de colaboradores da Sedac, entre outros auxiliares externos.
Pelo menos seis empresas diferentes estão envolvidas nos trabalhos de reparo, que envolvem a subestação energia elétrica no térreo inundado, o conserto e reforma do sistema de climatização, os reparos e adequações do Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios (PPCI), o restabelecimento do sistema e da central situados no térreo, a transferência e criação de uma nova reserva para armazenagem e conservação das obras e o ajuste do sistema de câmeras e rede de internet e wi-fi.
Recuperar o museu significa restabelecer uma série de coisas, mas também melhorar. Apesar do trágico fato e tudo que aconteceu, a gente quer que o Margs saia ainda melhor dessa situação
– Francisco Dalcol
De acordo com Benhur, a Sedac está trabalhando em um plano de contingência para todas as instituições afetadas para evitar novos impactos caso um novo desastre aconteça. "Esse plano de contingência prevê desde o planejamento de evacuação das obras, caso alague, até como elas podem ficar condicionadas de maneira mais segura. É todo um trabalho de planejamento que pode resultar, inclusive, na necessidade de fazermos mais investimentos em outras instituições", diz.
Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) improvisa reservas técnicas para seu acervo após enchente
Reabertura com exposição
Em maio, o Margs precisou interromper a exposição que estava em cartaz “Margs 70: Percursos de um acervo”, em comemoração aos seus 70 anos. Em julho, a programação comemorativa foi retomada com a abertura da exposição “Iberê e o Margs: trajetórias e encontros”, porém na Fundação Iberê Camargo, abordando a longeva relação entre o artista e o Museu. “A gente trabalhou com duas instituições colaborando. Foi bem importante porque marcou o nosso reencontro com o público no momento em que a gente ainda estava em situação de emergência aqui dentro do Museu e não podíamos receber o público”, lembra o diretor. Agora, o plano é que a reabertura do museu, estimada ainda para dezembro deste ano, seja feita com uma exposição com um tema inevitável: a enchente. "O museu tem compromisso com a memória. O entendimento é que, quando ele participa de uma de um fato histórico e sofre as suas consequências, ele também tem um dever de contribuir com a história", diz Dalcol.
Para o diretor, a enchente deste ano precisa ser lembrada pelas novas gerações e o museu tem um papel nisso. "Nosso objetivo é que o museu trabalhe essa conscientização e reflexão sobre os efeitos disso, e a necessidade do museu também se qualificar e se preparar para eventos futuros”, explica.
O museu não é nada sem o público, ele precisa do público. Então a gente está trabalhando nesse sentido de pensar conceitualmente e simbolicamente como vai ser essa reabertura e esse retorno, também considerando tudo que aconteceu.
*Sob supervisão de Adriana Androvandi
*Colaborou Carolina Santos