Um ano sem Verissimo. O autor é dono de uma obra vastíssima que atravessa gerações, 50 e tantos anos de produção, com milhares de textos curtos e novelas publicados em mais de 80 livros. Reconhecido como o maior cronista brasileiro de todos os tempos, não só pela extensão do seu trabalho, mas, certamente, pelo número de leitores que acompanharam essa produção, também povoou o imaginário nacional com personagens memoráveis, que, através do humor, dialogam com muita perspicácia com a realidade, seja exagerando em caracterizações, seja enfatizando aspectos sociais inusitados.
O que começou, então, com a publicação de “O popular” (1973), em crônica que dá nome ao livro e traça o perfil do anônimo cidadão da história que assiste aos fatos sem interferir nos acontecimentos, com o seu indefectível embrulho de compras debaixo do braço, foi uma sequência de publicações que nos trouxeram personagens marcantes como As Cobras, a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, o Analista de Bagé, a Família Brasil, Dora Avante, A Mulher do Silva, etc.
Além disso, em “Crônicas da vida privada” (1994), temos uma coletânea de textos publicados em jornal, os quais abordam os conflitos de classe média, em uma crítica de costumes e exploração das idiossincrasias familiares, por exemplo. O livro fez tanto sucesso que exigiu uma nova publicação, Novas crônicas da vida privada (1996) e, mais ainda, acabou se tornando uma série da televisão brasileira de sucesso, produzida pela TV Globo e exibida de 1995 a 1997, totalizando 21 episódios.
Maior reconhecimento não poderia haver para o autor, já incensado nas escolas por seus textos engraçados e criativos, sem perder de vista a crítica social. Agora, a nação inteira, não só os leitores, reconhecia a genialidade do autor através da competente montagem de seus textos em um veículo de comunicação de massa, a TV, e com atores consagrados, explorando a tragicomédia da classe média brasileira.
Mas nem só de ficção foi sua obra: do apanhado de textos produzidos, muitos tratavam do cotidiano político, econômico e social, sendo por isso considerados “datados”, o que resultou na publicação de “As comédias da vida pública” (1995) e, mais tarde, “A versão dos afogados – Novas comédias da vida pública” (1997), crônicas em que Verissimo analisava o cotidiano político do Brasil e mundial com a leveza e inteligência de sempre, explorando o factual e tirando dele o sumo de suas contradições, transformando, portanto, a realidade em comédia, ou mais do que isso, muitas vezes mostrando a sua feição trágica.
Assim, temos nas suas crônicas datadas a posição de um intelectual que viveu o seu momento histórico, escarafunchou-o, dissecou-o, propondo um caminho a seguir, engajado, o da perspectiva dos relegados ao segundo plano da história oficial. E a forma como refletia sobre a sociedade escondia, por trás de um discurso aparentemente comezinho, um refinamento teórico tornado simples, casual, divertido.
Dessa maneira, essas duas correntes são o suporte de uma análise que se utiliza dos elementos constitutivos dessa mesma sociedade, que tem o carnaval como uma de suas referências importantes, para realizar uma crítica a ela. Para auscultar uma nação que tem como base o riso, nada melhor do que o próprio riso como viés de leitura.
E a mostra maior e talvez mais significativa e simbólica da dimensão que a obra de Verissimo atingiu em nível nacional foi a repercussão de uma de suas crônicas de jornal em 2002, em que criticava o governo FHC. O texto motivou a indagação da imprensa e uma resposta do excelentíssimo Presidente da República, que, sentindo a flechada no calcanhar, respondeu: “De Verissimo, eu só leio o Erico”.
Ao que se tenha notícia, salvo engano, deve ter sido a primeira vez, no Brasil, ao menos, que o líder supremo da nação tenha descido a rampa do Esplanada para responder ao rés do chão de uma crônica. Desse modo, pode-se perceber o quanto sua obra interferia na realidade, não só na de seus leitores. E talvez por isso mesmo seu parceiro Edgar Vasques tenha se referido a ele como “o farol da minha geração”, já que, em seus textos, o autor via o mundo como um microcosmo cheio de contradições e de disputa – o ser humano menos de quem se ri e mais como aquele que se mostra risível.
Um ano sem Verissimo. Verissimo vive! Viva Verissimo!