Autores: Francisco Dalcol. Diretor-curador do Margs.
Gustavo Possamai. Curador de ‘Iberê e o Margs: trajetórias e encontros’
“O Museu foi varrido por um vendaval de trabalho, mas, mais forte ainda, por um forte sopro de emoção”, escreveu, em 1984, Evelyn Berg Ioschpe, então diretora do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – Margs, sobre a abertura da exposição “Iberê Camargo: 70 anos”.
O depoimento, registrado no editorial do Boletim nº 22 do Margs, dá ideia do envolvimento do Museu diante do compromisso de apresentar a retrospectiva em comemoração aos 70 anos de Iberê Camargo (1914-1994). Por um lado, porque já era saudado como o mais importante artista gaúcho e o maior pintor brasileiro em atuação. Por outro, porque a estatura desse reconhecimento, somada à notória personalidade exigente e perfeccionista de Iberê, se revertia ao Museu como uma enorme responsabilidade para corresponder às expectativas de tão importante exposição.
Realizada em parceria com o Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte – INAP, “Iberê Camargo: 70 anos” integrou um circuito em homenagem ao artista, que contou com mostras na Galeria Tina Presser, em Porto Alegre, nas galerias Thomas Cohn e Cláudio Gil, no Rio de Janeiro, e na Galeria Luisa Strina, em São Paulo. O especial momento dessa efeméride, ocorrida há 40 anos, é um dos pontos altos entre os diversos episódios nos quais as trajetórias de Iberê e do Margs se entrecruzam, desde a origem da instituição, criada em 1954.
Essa história ganha agora um novo capítulo. Por ocasião da programação iniciada no ano passado em comemoração aos 70 anos do Margs, celebrados neste dia 27 de julho de 2024, uma parceria entre o Museu e a Fundação Iberê traz a público a história dessa longeva relação com a exposição “Iberê e o Margs: trajetórias e encontros”.
Reunindo obras e arquivos pertencentes às duas instituições, a mostra revisita exposições, publicações, eventos e ações que o Margs realizou com e sobre Iberê. Ao apresentar a extensa presença do artista nos acervos artísticos e documentais, o projeto também assinala o quão rica e profunda é a sua história com o Museu. Uma história que até aqui ainda não havia sido plena e devidamente contada, como demonstra a pesquisa da extensa cronologia desenvolvida em colaboração entre as equipes do Margs e da Fundação Iberê para a exposição e o seu catálogo.
Iberê é o artista que mais expôs no Margs, com sete exposições individuais e mais de cem coletivas. Participa já da mostra de estreia do Margs, em 1955, tendo na ocasião obras suas adquiridas para o acervo. Nas décadas seguintes, também ganharia livro monográfico, ministraria cursos, participaria de ações e iniciativas do Museu e protagonizaria debates públicos. Teria ainda o ingresso de outras obras suas no acervo (através de compra, transferência e doação), além de um espaço de guarda de parte de seu arquivo pessoal, o qual destinou à instituição em 1984. Foi também no Margs que ocorreria a sua despedida, com o velório público que teve lugar nas Pinacotecas, o mais nobre e solene espaço do Museu.
As doações do artista, feitas em vida, são indicativas da importância dada por ele aos museus e instituições de guarda, preservação, pesquisa e difusão. Também permitem considerar a confiança que concedeu ao MARGS, sugerindo o reconhecimento de uma credibilidade que permitiu afiançar a sua decisão.
Em 2004, parte da documentação doada por ele foi transferida para a Fundação Iberê, em um contexto já de colaboração institucional, celebrada à época, no Margs, com a exposição “Iberê Camargo – Uma perspectiva documental”.
Ainda assim, o Acervo Documental do Museu possui hoje mais de 10 mil páginas relacionadas a Iberê, incluindo o mais expressivo e volumoso conjunto da coleção denominada "Dossiês de artistas". Recentemente, foi concluído o extenso processo de digitalização que contemplou esse amplo conjunto documental sobre o artista, disponibilizando-o publicamente e em meio on-line no repositório Tainacan do Margs.
O título da exposição, com inauguração na Fundação Iberê no dia em que o Margs completa 70 anos, é inspirado em um dos mais importantes acontecimentos no Museu relacionados ao artista: a mostra “Iberê Camargo: trajetória e encontros”.
Realizada em cooperação com a Funarte, em 1985, cumpriria itinerância pelo Museu de Arte de São Paulo – MASP, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Galeria do Teatro Nacional de Brasília, celebrando Iberê como o maior pintor vivo do Brasil. Ela se deu também no lastro das comemorações dos seus 70 anos, que incluiu a mencionada retrospectiva de 1984 e o lançamento do livro “Iberê Camargo”, em 1985, considerado ainda hoje uma das mais completas publicações de referência sobre o artista.
Agora, “Iberê e o Margs: trajetórias e encontros” busca oferecer um novo enfoque de abordagem sobre o artista e o Museu, reforçando também os vínculos e a cooperação entre as nossas instituições. Entre a preparação desta exposição e sua abertura, o Rio Grande do Sul foi vitimado pelo maior desastre natural em sua história. Uma tragédia em decorrência da devastação de grande parte do Estado, cuja enchente em Porto Alegre atingiu o andar térreo do Margs, no momento final da operação de salvamento de obras do seu acervo, entre as quais as de Iberê que são agora apresentadas.
Sendo atualizada pelo contexto que se segue à enchente, “Iberê e o Margs: trajetórias e encontros” parte exatamente desse conjunto de obras, que são apresentadas em diálogo com outras pertencentes à Fundação Iberê – a maioria dessas exibidas pela primeira vez –, juntamente a fotografias do artista, de modo a oferecer um percurso segundo segmentos, identificados conforme os textos que as acompanham.
Além de trazer novos sentidos à exposição, o trágico contexto do Rio Grande do Sul encontra ressonância no posicionamento público de Iberê, ligado à urgência de uma “consciência ecológica”. É pelo olhar dele, também, que podemos renovar o apelo, em nome das instituições de memória e enquanto sociedade, a um compromisso definitivo com a preservação da arte e do meio ambiente.
Serviço:
- Exposição Iberê e o Margs: Trajetórias e Encontros
- Curadoria: Gustavo Possamai e Francisco Dalcol
- Abertura: 27/7/2024, sábado, às 14h
- Local: Na Fundação Iberê, até 24/11, de quarta a domingo, das 14h às 18h30min.
- Visitas mediadas: agendamento@iberecamargo.org.br ou fone (51) 3247-8013.