Dois amigos se encontram:
- Já sabe em quem vai votar na eleição?
- Para presidente?
- Isso.
- É que na verdade não estou entendendo o noticiário, as pesquisas.
- Como assim?
- Os caras falam em Bolsonaro, Lula, Moro, Ciro, Doria. Mas a gente sabe que não será nenhum deles.
- Como assim?
- Estou esperando a pesquisa com os candidatos que vão realmente mandar na coisa toda. Mas não aparece pesquisa mostrando quem está na frente.
- Em que mundo você vive? São esses os nomes: Bolsonaro, Lula, Moro... Dificilmente vai pintar alguma novidade. Já começou o ano, não tem mais balão de ensaio para lançar.
- Gosto da sua ingenuidade.
- Então quem falta na lista? Tá falando da terceira via?
- Não. Estou falando de quem vai realmente mandar, de quem vai dizer se a vacina é boa ou não, se a Anvisa está fazendo o trabalho dela corretamente ou não, se a polícia pode prender traficante ou não.
- Continuo sem entender. Cara, deixa de enrolação.
- Estou esperando para saber se o Alexandre de Moraes e o Gilmar Mendes vão fechar uma coligação ou se cada um deles vai lançar candidatura própria. Se o Lewandowski vai ser vice de algum deles e se o Fux vai entrar em um acordo com o Fachin, para ver quem será o cabeça de chapa.
- Hahahahahahahaha!
- Sério! Não ri. Porque eles poderiam ao menos formalizar isso, né.
- Cuidado com o que você fala...
Brincadeiras de lado, a notícia da semana vinda do Supremo Tribunal Federal é mais um absurdo visto apenas no Brasil ou em repúblicas bananeiras. “Maioria do STF manda Rio de Janeiro criar plano para reduzir letalidade policial”, foi a manchete do R7. No lugar de uma Suprema Corte constitucional e que seja apaziguadora, que traga segurança jurídica, temos esse arremedo que ocupa a Praça dos Três Poderes, em Brasília, uma corte com uma postura incendiária.
Como se isso não bastasse, nosso Supremo virou uma espécie de máquina rotuladora de prazos e datas de validade. Experimente jogar no Google ou qualquer outra ferramenta de busca na Internet a expressão “STF dá prazo”. Simples assim. Se você está longe do computador ou telefone, eu ajudo com as respostas. Em dezembro é possível localizar manchetes como “STF dá prazo de 48 horas para governo se manifestar sobre passaporte da vacina”. Ou ainda: “STF dá prazo de 48 horas para que governo defina vacinação de crianças”. Querem mais? Segue: “STF dá prazo de 5 dias para governo Bolsonaro explicar necessidade de prescrição médica”. Como estava dando muito na vista, eles resolveram iniciar a contagem regressiva também para outras esferas de poder: “STF dá 48 horas para Estados explicarem vacinação irregular de crianças”. São apenas alguns exemplos. Existem outros, igualmente ridículos, igualmente patéticos.
O leitor mais atento deve estar se perguntando: o que há de matéria constitucional nos temas acima? Nada, absolutamente nada. Ministros de verdade, de supremas cortes de verdade, juízes que justificam a toga que vestem, ah, esses teriam vergonha disso. Fico imaginando um Antonin Scalia, já falecido, e que marcou época nos Estados Unidos, olhando para esse papelão brasileiro. Não precisamos ir tão longe. Certamente há em instâncias inferiores do Judiciário brasileiro desembargadores e juízes que já devem ter escondido ou até se livrado de livros escritos por atuais ministros do STF.
Alguns atribuem o desvio de rota dos nossos togados às transmissões ao vivo feitas pela TV Justiça, que teria despertado uma espécie de verve artística dos ministros, ou até mesmo um desejo incontrolável por holofotes daqueles que lá estão. Não! Não, não, não. Eu me recuso a acreditar nisso. Prefiro pensar que ainda resta uma esperança. Até porque esse negócio de ficar famoso, de ser reconhecido nas ruas, de ser sempre o centro das atenções, é coisa de astro da música pop, coisa de vedete de cabaré, de dançarino de programa televisivo. Não, nosso problema é outro, tenho certeza.
Sempre vi no agora ministro aposentado Marco Aurélio Mello um garantista de marca maior. Mas isso é outra história, é outro problema. Em uma entrevista recente, porém, ele resumiu bem o cenário atual: “É tempo de tirar um pouco o pé do acelerador, é tempo de atuar com temperança, com compreensão e respeitando, acima de tudo, a cadeira maior do Executivo. Não me refiro àquele que está ocupando a cadeira. Mais importante do que o ocupante é a instituição, a Presidência da República, e ela precisa ser respeitada”.
Se for para mudar esse papelão dentro da regra do jogo, que o eleitorado faça as melhores escolhas em outubro, especialmente na votação para o Senado. Se não for por aí, é povo na rua ou ruptura, que sempre gera traumas e feridas.
