Marcos Santuario

Entre cisnes e lobos

Na tela, mais do que o menino suburbano que rasgou o asfalto do Rio para dançar sobre os salões do mundo

A dança aqui é metáfora viva da batalha por pertencimento, da insurgência do corpo negro e favelado em um mundo que exige silêncio e reverência
A dança aqui é metáfora viva da batalha por pertencimento, da insurgência do corpo negro e favelado em um mundo que exige silêncio e reverência Foto : Vitrine Filmes / Divulgação / CP

No universo rarefeito do balé clássico, onde cada gesto é medida exata de controle, graça e tradição, "Um Lobo Entre os Cisnes" irrompe como um salto fora da partitura, brutal, belo, necessário. O filme é mais do que a cinebiografia de Thiago Soares, o menino suburbano que rasgou o asfalto do Rio para bailar sobre os salões do mundo. É um manifesto coreografado contra o elitismo artístico e um retrato visceral de reinvenção.

E no coração desse embate entre o instinto e a disciplina, pulsa a atuação incendiária de Dario Grandinetti como Dino Carrera. Grandinetti não interpreta. Ele incendeia. O veterano argentino, que já nos hipnotizou em "Fale com Ela" e "Relatos Selvagens", entrega aqui uma performance carregada de dureza e ternura, como se encarnasse o próprio processo artístico: violento, exigente, profundamente humano. Dino, o mentor cubano, não é um herói didático.

É um homem esculpido em cicatrizes, que reconhece no olhar selvagem de Thiago o mesmo abismo de onde ele próprio emergiu. E é nesse duelo silencioso entre mestre e aprendiz que o filme respira sua força — e sua fúria.

"Um Lobo Entre os Cisnes" desafia o espectador a olhar além da superfície polida do balé. Mostra o suor sob o brilho, a raiva por trás da leveza, a ginga periférica duelando com os códigos eurocêntricos. A dança aqui não é mero pano de fundo, é metáfora viva da batalha por pertencimento, da insurgência do corpo negro e favelado em um mundo que exige silêncio e reverência.

E cada vez que Thiago, em cena, desafia a gravidade, é como se desafiasse também o destino que lhe foi imposto. É provocador ver Grandinetti ser o catalisador dessa travessia. Ele não apenas conduz Thiago ao refinamento técnico, mas o força a encarar seus próprios monstros.

A dinâmica entre os dois é quase selvagem: roça o embate físico, emocional, espiritual. E é nesse território ambíguo que o filme se engrandece, como um grito de guerra transformado em pas de deux. Aqui, o balé não é para os cisnes. É para os lobos.