Marcos Santuario

Escolhas e olhares de curadoria

Andréa Beltrão em "Antártida"
Andréa Beltrão em "Antártida" Foto : Fabio Rocha / Divulgação / CP

Escolher filmes nunca foi uma tarefa de consenso. Ainda bem. Se fosse, talvez a curadoria não tivesse razão de existir. Em um festival como Gramado, escolher é assumir riscos, defender olhares, provocar encontros e, sobretudo, aceitar a responsabilidade de colocar diante do público aquilo que acreditamos que o cinema tem a dizer sobre o presente.

Cada edição é uma fotografia de seu tempo. Mas também é uma aposta no futuro. Na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, essa responsabilidade esteve no centro de um processo feito de encontros, divergências, descobertas e encantamentos. Curadoria não é escolher os “melhores” filmes. É construir uma conversa entre obras que talvez nunca se encontrassem fora dali. E, ainda bem, acabam se encontrando.

Ao lado das atrizes Camila Morgado e Ana Flávia Cavalcanti, percebemos como um filme transforma o seguinte, como uma sessão pode deslocar o olhar e como o público, no fim, completa aquilo que a curadoria apenas inicia.

Há anos, Gramado também escolhe apostar no ineditismo. Nesta edição, todos os títulos chegam ao público brasileiro pela primeira vez. Não são apenas estreias. São encontros inaugurais. É a possibilidade rara de assistir a um filme antes que ele seja capturado pelo olhar coletivo. Antes que as opiniões estejam prontas, antes que os algoritmos digam o que devemos pensar. Gramado continua sendo esse lugar onde filmes vêm para nascer, não para morrer.

A escolha começou na abertura, com “Antártida”, de Bruno Safadi, que transforma a neve de Curicica em paisagem antártica e faz da tecnologia uma ferramenta da imaginação. Passa pela estreia mundial de Emergência 53’, série de Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, ampliando o diálogo entre cinema e audiovisual contemporâneo. E chega ao encerramento com “La Perra”, reafirmando a força do cinema latino-americano em desafiar convenções.

No caminho, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, Campinas, diferentes sotaques, corpos, memórias e maneiras de narrar o Brasil. Filmes que não pretendem explicar o país, mas provocar novas perguntas sobre ele.