Marcos Santuario

Imaginar é forma de pensar

Em 'Nos Telhados de Paris', a autora britânica transforma a infância em território de aventura, coragem e, sobretudo, de insubmissão

Katherine Rundell, premiada e estudiosa em Oxford, é hoje uma das vozes mais relevantes da literatura infantojuvenil
Katherine Rundell, premiada e estudiosa em Oxford, é hoje uma das vozes mais relevantes da literatura infantojuvenil Foto : Youtube / Reprodução / CP

Katherine Rundell parece escrever para crianças, mas seu alvo talvez sejam os mesmos adultos que esqueceram que imaginar também é uma forma de pensar. Em “Nos Telhados de Paris”, lançamento da Intrínseca, a autora britânica transforma a infância em território de aventura, coragem e, sobretudo, de insubmissão. A personagem Sophie não é uma menina à espera de que alguém resolva sua vida. Ela precisa acreditar na própria memória quando todos ao redor insistem em dizer que ela está errada.

Encontrada ainda bebê, flutuando dentro de um estojo de violoncelo depois de um naufrágio no Canal da Mancha, Sophie cresce sob os cuidados de Charles, um guardião excêntrico e afetuoso. Quando as autoridades ameaçam separá-los, os dois partem em aventura por Paris.

Busque o endereço do fabricante do instrumento que acompanhava a menina. A aventura poderia ser apenas uma engenhosa história de fuga. Katherine, porém, prefere abrir janelas. E algumas delas ficam nos telhados de Paris. O espaço físico vira metáfora. Acima da cidade oficial, existe uma outra cidade, construída pela imaginação daquelas que não aceitam que o mundo seja apenas aquilo que os adultos determinaram. A literatura de Katherine sabe que uma criança pode enxergar ou que uma instituição não consegue ver.

Esse é, sem dúvida, o aspecto mais provocador de sua escrita. A autora não transforma a infância em território de inocência açucarada. Ao contrário, confirme nela uma potência crítica. Sophie enfrentou a desconfiança dos adultos, o machismo que pretende decidir como uma menina deve se comportar, o sofrimento moral de seu tempo e a violência de instituições que classificam algumas infâncias como confortáveis, inconvenientes ou simplesmente “fora do lugar”.

Rundell, premiada e estudiosa em Oxford, é hoje uma das vozes mais relevantes da literatura infantojuvenil. Tem livros publicados em mais de 30 países e cerca de 40 milhões de exemplares vendidos. Ela escreve para crianças sem diminuir o tamanho do mundo. Porque imaginar não é fugir da realidade. É testar outras possibilidades para ela.