Rogério Mendelski

Zé Dirceu e a anistia

A roda do tempo andou e dez anos depois, José Dirceu que estava no grupo trocado pela vida do embaixador foi anistiado com outros brasileiros que militavam na clandestinidade da luta armada pela derrubada no regime militar.

Em recente artigo no jornal O Globo (25/4/2025), José Dirceu – petista histórico – se manifestou contra a anistia afirmando ser “nosso dever” lutar contra a medida. Imediatamente me lembrei do escritor e jornalista Ivan Lessa que com seu fino humor diagnosticou a nossa falta de memória histórica. “A cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15” – profetizou Lessa. É bem provável que Zé Dirceu tenha se valido do que disse Ivan Lessa para escrever que “a anistia é vedada a crimes inafiançáveis e imprescritíveis como os cometidos por grupos armados contra o Estado”. Como já se passaram mais de 50 anos, vale lembrar que no dia 4 de setembro de 1969, militantes de duas organizações que se propunham a derrubar a ditadura através da luta armada, a Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) sequestraram o embaixador dos EUA, Charles Elbrick, quando passava por uma rua no bairro Botafogo, no Rio. “A vida e a morte do sr. embaixador estão nas mãos da ditadura. Se ela atender a duas exigências, o sr. Burke Elbrick será libertado. Caso contrário, seremos obrigados a cumprir a justiça revolucionária” – dizia o manifesto dos sequestradores para forçar o regime a libertar 15 presos e levá-los a um país seguro. O grupo preso foi libertado, levado para Cuba e o embaixador deixado livre numa rua tranquila. A roda do tempo andou e dez anos depois, José Dirceu que estava no grupo trocado pela vida do embaixador foi anistiado com outros brasileiros que militavam na clandestinidade da luta armada pela derrubada no regime militar. Mas não foi preciso nada disso. O próprio regime fardado tratou de fazer uma “anistia ampla, geral e irrestrita” para pacificar o país. Essa recente declaração de José Dirceu – o anistiado e indenizado pelo governo – contra a anistia me fez criar uma similitude. Zé Dirceu contra a anistia é como um transplantado ser contra os transplantes.

Outros sequestros

Os movimentos guerrilheiros dos anos 1970 sequestraram quatro diplomatas estrangeiros no Brasil. Além de Charles Elbrick, foram sequestrados o cônsul japonês Nobuo Okushi, e os embaixadores Ludwig Von Holleben, da Alemanha Ocidental, e Giovanni Bucher, da Suíça. Os sequestradores pertenciam à VPR, ALN e MR-8. Todos foram libertados em troca de guerrilheiros presos e banidos para outros países.

O bêbado e a equilibrista

Como na canção da dupla Aldir Blanc e João Bosco, todos os banidos por crimes de sequestro, assaltos a bancos e atentados voltaram para o Brasil com a anistia promulgada pelo presidente João Figueiredo. Todos também foram indenizados e retomaram suas vidas.

Recusa de ministério

Não querer ser ministro de Lula já é uma realidade na base do governo no Congresso. O motivo é compreensível. Antes, ser ministro para um parlamentar dava um poder extra ao titular para direcionar verbas para a sua área eleitoral. Hoje, o poder do dinheiro está na emenda parlamentar – sem subterfúgios orçamentários, o deputado e/ou senador vão direto na corrente sanguínea eleitoral.

O moleiro de Sans-Souci

Um moleiro não quis vender a terra onde estava o seu moinho, em Potsdam, para o rei Frederico II construir o seu palácio de verão. Diante da negativa, Frederico ameaçou o moleiro com um confisco da propriedade, mas ele resistiu dizendo que iria buscar seus direitos na Justiça “porque ainda há juízes em Berlim”. Os moleiros do Brasil acham que Luiz Fux é um dos juízes de Berlim... Ou de Brasília.

Constatação perigosa

Um levantamento em Brasília mostrou que o presidente Lula recebeu menos deputados, senadores e ministros que Dilma Roussseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Trata-se de um comportamento que Lula deveria evitar. Um presidente de perfil popular não deveria perder o contato com sua equipe e com sua base parlamentar.

Justiçamento sem recurso

Esteliano Madureira, suspeito de matar uma aluna da USP, Bruna Oliveira da Silva, foi capturado por um grupo armado que o torturou e depois o executou num “julgamento” rápido. A Polícia Civil de SP acredita que foi um “trabalho” de justiçamento do PCC.

O golpe no INSS

A investigação da fraude no INSS começou com a descoberta de um pendrive inserido no setor de dados da instituição. A Polícia Federal teve acesso ao pequeno arquivo digital e deu início à Operação Sem Desconto.