Para além da formação da maioria pela condenação de Jair Bolsonaro (PL) e dos outros sete réus no processo da trama golpista, o voto da ministra Cármen Lúcia, nesta quinta-feira, serviu para que ela própria, o relator, Alexandre de Moraes, o presidente da Primeira Turma, Cristiano Zanin, que também votará hoje, e Flávio Dino, rebatessem pontos do voto de Luiz Fux.
Na véspera, em quase 14 horas de fala, Fux atacou a espinha dorsal da denúncia da Procuradoria-Geral da República e do voto de Moraes: a de que uma organização criminosa, liderada por Bolsonaro, foi formada visando à manutenção do então presidente no poder.
Já no início de sua manifestação, durante pedido de aparte de Dino, Cármen Lúcia disse que aceitaria todos os necessários, que o debate é uma característica da Corte e que é uma mulher de prosa.
A estratégia permitiu que Moraes, especialmente, batesse em pontos do voto de Fux, que havia afirmado, na terça-feira, que não admitiria apartes e intervenções em seu voto, por ser longo, e para evitar cortes na linha de raciocínio.
Nas manifestações dos ministros, que visavam rechaçar argumentos de Fux, durante o voto de Cármen Lúcia, uma linha se destacou: o conteúdo da denúncia, assim como os crimes e as atuações dos réus, não poderiam ser analisados individualmente, pois se perderia a linha de condução, ou, nas palavras da ministra, “as ações encadeadas”, e, consequentemente, o contexto da trama golpista.
Foi justamente a tática utilizada por Fux em seu voto de quase 14 horas que o levou a inocentar a maioria dos réus, à exceção de Mauro Cid, delator e réu confesso, e de Braga Netto. Na introdução de seu voto, Cármen Lúcia utilizou-se de licença poética, citou passagem do livro “História de um Crime”, de Victor Hugo, e afirmou que “a presente ação penal é um encontro do Brasil com seu passado, presente e futuro”.
