O último sábado foi de festa para uma moradora muito especial do Centro Histórico de Porto Alegre. Wilma Pereira Moura, que vive no oitavo andar de um edifício na rua Vigário José Inácio, completou 105 anos de idade ao lado da família, em uma celebração repleta de docinhos, salgadinhos e a companhia de pessoas queridas. Atualmente em uma cadeira de rodas e com dificuldades de mobilidade, Wilma é saudosa pelo passado, mas mantém, até onde possível, o hábito da leitura, que a acompanha desde a infância.
Este aniversário da porto-alegrense, fã do filme clássico Casablanca, ocorreu dias antes da celebração dos 130 anos do Correio do Povo, nesta quarta-feira. Por meio do jornal, conta sua filha Marta Pereira Moura, a mãe desenvolveu suas habilidades leitoras, e a família conta ter sido assinante por 40 anos, somente prescindindo dela pelo desgaste da idosa, que dificulta a compreensão das palavras.
“Quando ela estava mais ativa, a primeira coisa que fazia era pegar o jornal e lê-lo no café da manhã. Depois de um tempo, comecei a notar que ela deixava ele de lado, dobradinho. Pegava, mas não lia. Foi lendo livros também”, destacou Marta. Wilma, torcedora do Internacional, passou por diversas dificuldades na vida, porém as superou com resiliência e força de vontade.
Nascida em 27 de setembro de 1920, foi testemunha ocular, por exemplo, da Revolução de 1930. Na mesma época, o pai, Dulcídio, havia ordenado que a menina, com dez anos de idade, lesse para a avó, Maria Anastácia, que apresentava problemas de visão. “Ela diz lembrar de ter visto policiais correndo, então ela e os irmãos se escondiam embaixo da cama”, revelou Marta. Passou também pela Segunda Guerra Mundial e duas grandes enchentes na Capital, em 1941 e 2024. Nesta última, inclusive, precisou ser resgatada em uma maca.
LEITORA DO CORREIO DO POVO FAZ 105 ANOS
Ela havia sofrido uma queda nos dias anteriores à inundação, precisando ser levada pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao hospital. “Eu fiquei apavorada, porque ela estava meio sonolenta, e tinha mania de caminhar meio rapidinho. Mas, no final, deu tudo certo”, comentou Marta, que contou somente ter noção real das águas invadindo Porto Alegre quando retornou para casa, e as bombas d’água do prédio falharam. Depois do resgate, a família passou 45 dias fora de casa.
Após o evento, Wilma, que morava sozinha no mesmo andar, nos fundos do corredor, passou a viver com Marta e seu marido, em um apartamento que, antes, era uma oficina de marcenaria. Contrariando o senso comum, o segredo de sua longevidade, diz a filha, que conduziu a entrevista, não está totalmente associada a uma alimentação saudável, embora bastante regrada e sob intensa supervisão. Wilma ingere salgados, algo de doces e comidas gordurosas, rejeitando alimentos sem sal e preferindo os preparos mais temperados da cuidadora Cláudia.
Mas o vinho, geralmente associado a uma vida mais longa, é de fato onipresente na casa, e ingerido com frequência pela idosa. Wilma é de família de um total de 11 irmãos, dos quais somente ela e outro, de 98 anos, ainda estão vivos hoje em dia. Na infância, moravam na rua Giordano Bruno, bairro Rio Branco, num tempo em que Porto Alegre era bem diferente dos dias atuais, com apenas 179 mil habitantes.
Já o Rio Grande do Sul, com 71 municípios, bem abaixo dos 497 atuais, contabilizava 2,1 milhões de habitantes naquela época. Wilma queria ser professora, porém, por um acaso do destino, não conseguiu realizar seu sonho, por ter se perdido no dia em que realizaria uma matrícula para uma vaga. Assim, tornou-se uma bordadeira habilidosa, produzindo enxovais e outros trabalhos para a comunidade, porém parou de trabalhar após o casamento, em 1961, quando se casou com Eloy Cunha Moura, falecido em 2002.
Em 2020, ano de pandemia e do centenário de Wilma, celebrado com todos os cuidados sanitários às portas do edifício onde a família mora, o Correio do Povo acompanhou este momento histórico. Ela relatou, em entrevista, na ocasião, que “não sabia viver sem o jornal”, e relatou gostar de ler especialmente sobre o Internacional, seu clube do coração. “Torço dia e noite. Xingo quando perde. Eu quero ver vitórias”, disse.
"Acho que hoje, os papéis se inverteram. Estou sendo mãe da minha própria mãe. Para mim, ela vai ficar sempre aqui”, comentou, na atualidade, Marta. Mas, para isso, Wilma tem uma resposta, dada ainda em 2020, em entrevista ao Correio do Povo: “A vida é uma estrada que tu vais seguindo, dia a dia. Tu vais indo até o dia que a estrada termina e pronto”.