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A febre dos bebês ‘reborn’: hobby, negócio ou sinal de alerta?

Bonecas reborn ganham espaço e dividem opiniões. O fenômeno que recentemente dominou o debate social impulsiona lucros e emociona clientes, mas pode desafiar os limites entre fantasia e realidade

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. Foto : Fabiano do Amaral

Aos 18 anos, Paula Moreira divide seu foco entre os estudos para o vestibular de medicina e o apoio à mãe, no negócio familiar localizado no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre. Mas, além dos livros e do trabalho, a jovem dedica tempo e carinho às três “filhas”: Mariana, uma recém-nascida; Ana Beatriz, de 1 ano; e Aurora, com seus 2 anos e longos cabelos que permitem inúmeros penteados.

A rotina parece com a de milhões de mulheres no Brasil. A curiosidade deste caso é que as pequenas, na verdade, são as famosas bonecas reborn, que têm dominado o debate social das últimas semanas. “Eu acho incríveis os mínimos detalhes que elas têm, com aquele realismo que me proporciona poder ter um sentimento de cuidar como se fosse um bebezinho, mas que não dá tanto trabalho. Posso ter ele na cama para tirar foto e trocar a roupinha, por exemplo. É uma paixão.”

Paula Moreira e Priscila Boniberg. | Foto: Fabiano do Amaral

Mas antes que o apego de Paula seja confundido com os recentes casos que levantaram um debate nacional nas últimas semanas, em que mulheres – supostamente – cuidam das bonecas como se fossem bebês reais, a jovem gaúcha faz questão de frisar: para ela, tudo não passa de um hobby, sem qualquer confusão sobre a realidade de seus cuidados.

O universo dos bonecos hiper-realistas, que imitam recém-nascidos e podem custar milhares de reais, ganhou os holofotes impulsionado por vídeos que viralizaram nas redes sociais. Essas produções mostram “mães” dedicadas em rotinas minuciosas de cuidado, levando a prática a um novo patamar de visibilidade e, claro, de discussão.

Bebê Reborn | Foto: Fabiano do Amaral

A paixão de Paula pelas bonecas começou cedo e foi o que deu origem à Paula Reborn, empresa especializada na produção e venda desses bonecos. A empreitada é fruto de um sonho que se tornou um negócio familiar. Priscila Boniberg, de 37 anos, mãe de Paula e sócia na empresa, relembra que tudo começou quando a filha, aos 9 anos, queria um bebê reborn.

Na época, após muita procura, a família localizou uma boneca realista em Santa Catarina. “Foi um sucesso, ela gostou muito e ficou muito feliz”, conta Priscila. Aos 11 anos, Paula lançou aos pais a ideia de que a família começasse a fazer os bebês reborn. Dada a complexidade e o caráter minucioso da arte, Priscila e o pai de Paula, que eram técnicos em química, buscaram cursos para aprender sobre a produção. “A empresa deu certo e, com o passar do tempo, largamos a nossa profissão e ficamos somente com os bebês reborn. Hoje é a principal receita da família”, revela Priscila.

A fabricação é um processo artesanal e minucioso. Priscila detalha que cada boneca recebe 22 camadas de pintura, com secagem em forno entre cada uma, e o cabelo é implantado fio a fio com agulhas finas. São centenas – ou até milhares – de fios, de materiais como pelo de alpaca, lhama ou cabra angorá, entre outros. Tudo depende das características solicitadas pela cliente.

Priscila Boniberg. | Foto: Fabiano do Amaral

Todo esse cuidado e personalização se reflete no preço do produto: um bebê reborn parte de R$ 1.499 e pode passar dos R$ 6.500, dependendo do tamanho, material e enxoval que acompanha o objeto. O tempo de produção varia, em média, de 7 a 10 dias.

Com o tempo, o perfil das clientes mudou. No início, o mercado era dominado por colecionadoras em busca de peças perfeitas. A pandemia, no entanto, alterou esse cenário. “As crianças tomaram conta dessa arte e virou febre”, afirma Priscila.

Embora a clientela tenha como alvo, principalmente, as meninas, há espaço para muitas clientes adultas. “Já fizemos para várias mulheres que, quando os filhos saíram de casa, adquiriram as bonecas para ter, de alguma forma, aquela presença e poder dar aquele cuidado de mãe”, relata.

A empresa oferece possibilidade de customização, onde os clientes escolhem a cor do olho, do cabelo e até o enxoval. Há também a opção de fazer bebês por semelhança, inspirados em fotos reais, um trabalho que eleva o custo para cerca de R$ 4.200 a R$ 5.000.

Priscila destaca que a arte reborn também é capaz de incluir e emocionar. Entre as encomendas que ela guarda como lembrança especial está a de uma cliente que procurou a empresa para encomendar um bebê semelhante à sua filha, que havia nascido sem os dedinhos de uma das mãos. A ideia era ajudar a criança a se sentir mais integrada. “Quando a criança pegou o bebê, falou para a mãe: ‘Olha, ela não tem os dedinhos que nem eu’. Foi emocionante”, conta Priscila.

Em outro caso, o pedido de um bebê reborn inspirado em um filho que havia falecido no parto foi recusado pela empresa. “A gente conversou com a pessoa e falou que não seria saudável para ela ter essa lembrança, porque cada vez que ela olhasse aquela boneca iria voltar naquela parte triste da vida”, pontua Priscila.

A onda de notícias sobre bebês reborn que surgiu após o Dia das Mães trouxe à tona discussões sobre os limites do hobby. Para Priscila, a repercussão, mesmo com comentários maldosos, não atrapalhou o negócio. “Muito pelo contrário. Essa audiência toda faz ainda mais pessoas nos procurarem.”

Paula conta que a visibilidade tem sido positiva até mesmo no curso preparatório para a faculdade. “Eu mostro a foto para os colegas e eles acham muito realista. Eles acham bem bacana e sempre lembram de dizer que tenho as bonecas e que minha família produz, quando algum professor comenta sobre o assunto”, finaliza.

Bebê Reborn | Foto: Fabiano do Amaral

Cuidado que não substitui os filhos

Moradora de Porto Alegre, Elisiane Pereira, de 49 anos, é mais uma fã do mundo reborn. Em sua residência, o quarto que ficou vago após o casamento da filha se transformou em espaço para quatro bebês reborn. “Tenho todo o cuidado com eles, para manter a conservação. Faço a limpeza necessária para mantê-los em estado de novos.” Elisiane já encomendou mais uma integrante para o espaço. Desta vez, será um menino.

Apesar do cuidado, ela garante que nada substitui o amor de mãe. “Tenho dois filhos adultos, já casados, e eles me incentivaram a comprar, mas não tenho a loucura de colocar uma boneca no espaço de uma criança. Nada substitui a maternidade.”

Segundo ela, a aquisição das bonecas e a manutenção do espaço têm um objetivo que vai além de manter o cuidado: o sonho de empreender, com uma loja de roupas e acessórios para bebês reborn e crianças prematuras. “Quero alcançar esse objetivo de montar meu espaço e seguir nesse segmento de venda”, acrescenta.

Bebê Reborn | Foto: Fabiano do Amaral

Casos inspiram projeto de lei

Casos envolvendo bebês reborn têm gerado repercussão em diversas regiões do Brasil. Em Itajaí (SC), uma mulher tentou simular a vacinação de uma boneca em uma Unidade Básica de Saúde, com o intuito de filmar a ação para as redes sociais. O pedido foi negado pelos profissionais de saúde, que alertaram para o desperdício de insumos públicos e o uso exclusivo desses materiais em seres humanos.

Nacionalmente, o caso de um casal que, após o fim do relacionamento, passou a disputar a “guarda” da boneca ganhou repercussão. O processo vai além da posse do objeto, envolvendo também a divisão dos custos com a boneca e seu enxoval e a disputa pela administração dos perfis da bebê reborn nas redes sociais.

Apesar da crescente popularidade dos bebês reborn, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) informou que, até o momento, não há registros de processos judiciais no Estado envolvendo essas bonecas. Na mesma linha, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) explica que não se fala de guarda de objeto em Direito de Família. “Objeto é posse/propriedade. Bebê reborn é igual a uma cadeira ou um sofá. Não tem guarda de sofá, tem partilha da propriedade”, explicou, em nota.

Diferentemente dos casos registrados em outros estados, como em Santa Catarina, a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre também afirmou que não registrou, até o momento, nenhuma ocorrência envolvendo bebês reborn, tanto na busca por atendimento como na tentativa de obter acesso preferencial, por exemplo.

Diante de situações deste tipo, o deputado federal Zacharias Calil (União Brasil-GO) apresentou um projeto de lei na Câmara dos Deputados. A proposta visa coibir o uso de bonecas reborn ou objetos similares para obter benefícios destinados a crianças reais, como atendimento preferencial em unidades de saúde, prioridade em filas e uso de assentos preferenciais em transportes públicos.

O projeto estabelece multas crescentes, agravadas em caso de reincidência. A fiscalização e aplicação das penalidades ficariam a cargo de órgãos de proteção ao consumidor e vigilâncias sanitárias. O deputado argumenta que acionar serviços públicos para atender simulações com bonecas é um desrespeito e sobrecarrega sistemas que já operam no limite, como o Sistema Único de Saúde (SUS), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Corpo de Bombeiros e o Judiciário.

Diferentes perspectivas e interpretações para um mesmo fenômeno

O psiquiatra e professor Ricardo Lugon Arantes, da Universidade Feevale, considera natural o apego a objetos, inclusive aos bebês reborn. “Sem apegos, qualquer modo de existência subjetiva ou social é impossível”, resume. Segundo ele, é comum que esse vínculo se manifeste em diversos momentos da vida, com itens como chupetas, celulares, utensílios ou brinquedos.

O ponto de atenção, no entanto, surge quando esse comportamento passa a afetar a vida cotidiana. “O que nos ajuda a demarcar essa linha tênue é olhar para o quanto esse comportamento desviante impacta o que chamamos de ‘normatividade’. Ou seja, a nossa capacidade de reinventar as nossas regras próprias de funcionamento para lidar com as demandas que o mundo coloca para a gente. Quando esse apego aos bebês reborn impacta a possibilidade de uma pessoa seguir respondendo às demandas cotidianas, temos motivos para nos preocupar”, explica.

Para o especialista, há exageros que precisam ser acolhidos com cuidado, mas também com discernimento técnico. “As explicações para esse fenômeno meteórico são várias. Primeiro, é importante situar que bebês reborn não são considerados boas ferramentas para enfrentamento de uma situação de luto, por exemplo, por uma mulher que perdeu um bebê recém-nascido. Os especialistas em cuidar do luto humano já vêm alertando isso há um tempo.”

A família, quando identifica sinais de exagero, deve adotar uma postura equilibrada. “Deve-se procurar uma ajuda que envolva um ‘caminho do meio’ entre tentar tirar o boneco à força e fingir que nada está acontecendo. Há bons profissionais de saúde mental que podem, com sensibilidade e técnica, ajudar nesse processo”, aponta Arantes.

Além do aspecto clínico, o psiquiatra chama atenção para o recorte de classe e gênero presente no fenômeno. “Esse direito de brincar com tempo e recursos é muitas vezes um privilégio. Mães da periferia, lamentavelmente, vivem cotidianamente processos de exaustão e sofrimento por cuidar de bebês, filhos e idosos que estão vivos, em carne e osso. O que as redes sociais impulsionam e monetizam, infelizmente, tem reproduzido noções que precisamos superar.”

Bebê Reborn | Foto: Fabiano do Amaral

Para a psicóloga Renata Camargo, do Conselho Regional de Psicologia do RS (CRPRS), as bonecas reborn podem desempenhar um papel emocional importante, inclusive no enfrentamento do luto. Em muitos casos, elas funcionam como objetos de transição, ajudando a lidar com perdas ou frustrações ligadas à maternidade. “Elas podem ser fundamentais para enfrentar lutos significativos ou o desafio de não poder ter filhos.”

Por outro lado, Renata alerta para os riscos quando há confusão entre fantasia e realidade. “O indicativo de uma possível patologia surge quando a pessoa passa a vivenciar a rotina com a boneca como se fosse um bebê vivo”, explica.

A psicóloga também identifica motivações de ordem social. Parte do fascínio por esses objetos estaria ligado à infância de adultos que, por razões econômicas, não tiveram acesso a brinquedos. “Muitos buscam agora, na fase adulta, preencher essa lacuna emocional. É uma tentativa de realizar desejos infantis não concretizados”, diz.

Renata destaca ainda o impacto econômico do fenômeno. “Desde a produção das bonecas até a confecção de roupinhas e acessórios, o setor gera emprego e renda para muitas pessoas. Em algumas escolas dos Estados Unidos, essas bonecas são até usadas para ensinar adolescentes sobre os desafios da paternidade.”

Mesmo assim, ela reforça a necessidade de atenção e cuidado. “É vital não generalizar o uso das bonecas reborn como algo problemático. Enquanto algumas utilizações indicam necessidade de intervenção, outras representam uma forma saudável de enfrentamento”, conclui. O mais importante, segundo ela, é monitorar, compreender e agir quando necessário.

Bebê Reborn | Foto: Fabiano do Amaral

A professora Raquel Sparemberger, da Faculdade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), analisa o fenômeno sob a ótica do direito. Segundo ela, o vínculo simbólico com um reborn não configura uma relação jurídica. “Trata-se de um objeto e não de um sujeito de direito”, afirma.

Ela explica que, em geral, esse tipo de apego está amparado pelos direitos fundamentais previstos na Constituição, como liberdade individual e livre desenvolvimento da personalidade. Desta forma, essas mulheres têm o direito de se expressar e construir identidades simbólicas, desde que isso permaneça no âmbito privado.

O problema surge, segundo Raquel, quando essa simbologia é levada a esferas que demandam serviços públicos ou benefícios reais. “Nesses casos, pode-se configurar fraude, má-fé ou lesão ao interesse público, especialmente pelo uso indevido de serviços do SUS ou ocupação indevida de leitos hospitalares”, alerta.

Para evitar esse tipo de distorção, algumas propostas legislativas já estão em debate. Entre elas, estão a aplicação de multas a quem tentar obter vantagem com bonecos reborn e a proibição de atendimentos públicos quando não se tratar de uma criança real.

Raquel enfatiza que o reborn não gera efeitos no direito de família. “Não existe guarda, adoção ou pensão para um boneco. Qualquer disputa envolvendo esses objetos deve ser tratada no campo do direito das coisas”, justifica.

Por fim, ela propõe uma reflexão mais ampla. “A ilusão reborn evidencia um deslocamento do afeto para o simbólico. Trata-se de um fenômeno que desafia a forma jurídica tradicional, justamente por não apresentar os elementos que sustentam a normatividade jurídica: conflito, sujeito, conduta e dano — em uma sociedade líquida, do espetáculo e da desumanização.”