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A maternidade também recomeça aos 54 anos

Foto : Nilza Rejane / Divulgação / CP

Fernanda Fernanda de Aguiar Taliuli tornou-se mãe aos 54 anos, pela segunda vez, depois de atravessar uma perda que reorganizou a vida da família. Dois anos antes, ela e o marido haviam perdido o filho, na véspera de ele completar 8 anos. Depois do luto, o casal voltou a conversar sobre a possibilidade de ter outro bebê. Para ela, seguir em frente sem tentar algo enquanto ainda havia tempo, saúde e condições parecia impossível.

O desejo de ser mãe, conta Fernanda, sempre esteve presente. Desde menina, nas brincadeiras de casinha, a maternidade fazia parte do seu imaginário. Mais tarde, a vida profissional ocupou espaço e adiou esse projeto. Dentista e especialista no atendimento a pacientes com necessidades especiais, ela se dedicou ao trabalho, mas diz que o sonho de ser mãe nunca deixou de existir.

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A decisão pela reprodução assistida veio desde o início. Fernanda tinha 54 anos, e o marido, 70. Para o casal, a tentativa natural estava descartada. O objetivo era proteger a saúde da gestante e do bebê, com acompanhamento especializado e todos os cuidados disponíveis. O processo, segundo ela, exigiu paciência, disciplina e consciência sobre cada etapa. “Não é só ir na clínica e pensar: vou fazer a FIV. Você tem que respeitar todos os processos”, afirma.

A gestação ocorreu por fertilização in vitro com ovodoação. O procedimento pode ser indicado quando não há possibilidade de utilizar os óvulos da própria paciente, situação mais comum em idades maternas mais avançadas, especialmente quando não houve congelamento prévio de óvulos.

A gestação foi vivida com atenção aos riscos, mas também com gratidão. Fernanda diz que, por ser profissional da saúde, tinha consciência dos cuidados envolvidos. Seguiu as orientações da equipe e conta que não teve intercorrências importantes antes, durante ou depois do parto. “Eu sabia de todos os riscos, fiz toda a minha parte como paciente, com todo cuidado do mundo”, relata.

A chegada da filha Emanuela Taliuli Nandi alterou a rotina do casal | Foto: Nilza Rejane / Divulgação / CP

A decisão, no entanto, não foi recebida da mesma forma por todos. Fernanda conta que teve apoio da própria família, mas enfrentou resistência de pessoas próximas ao marido, que questionavam a escolha de voltar a cuidar de um bebê em vez de viajar ou aproveitar a vida de outra maneira. Para ela, esse tipo de reação revela desconhecimento e dificuldade de aceitar escolhas diferentes. “Cada um vive a maternidade com aquilo que tem no seu coração”, diz.

A chegada da filha Emanuela Taliuli Nandi, com 12 dias, alterou a rotina. Fernanda afirma que, neste momento, todo o seu tempo está voltado para a filha. A vida profissional e os projetos pessoais ficaram em segundo plano por uma escolha consciente.

Para ela, ser mãe aos 54 anos também traz diferenças positivas. A maturidade, a estabilidade e a experiência ajudam a viver a maternidade com mais leveza. O desafio maior, avalia, está menos no cuidado diário e mais na forma como a sociedade ainda olha para mães e pais mais velhos, como se houvesse uma idade considerada correta para viver essa experiência.

Fernanda diz perceber estranhamento em relação a mulheres que se tornam mães mais tarde. Ouve, direta ou indiretamente, ideias de que poderia estar fazendo outras coisas, que deveria ser avó ou que não teria disposição para acompanhar uma criança. Ela rejeita essa leitura. Para Fernanda, o que sustenta a maternidade não é apenas a idade, mas a responsabilidade, a saúde, a presença, a condição de cuidar e o amor dedicado ao filho.

“Ninguém tem bola de cristal para saber quantos anos vai ter de sobrevida. O que importa é o que você vai fazer com o tempo que te resta”, afirma. Na vida dela, a maternidade tardia não aparece como tentativa de negar o tempo, mas como uma forma de habitá-lo. Aos 54 anos, Fernanda não diz ter parado o relógio. Diz ter escolhido, mais uma vez, preenchê-lo de sentido.

Avaliação deve ser criteriosa

Para o médico Marcelo Ferreira, especialista em Reprodução Humana da Clínica Nilo Frantz Medicina Reprodutiva, uma gestação aos 54 anos só pode ser considerada depois de avaliação rigorosa. O processo exige análise da saúde geral da paciente, avaliação clínica e obstétrica e verificação das condições do útero e do endométrio para receber e sustentar a gestação.

A ovodoação é indicada quando há insuficiência ovariana importante ou falência ovariana, ou seja, quando não há possibilidade de obter óvulos da própria paciente. Além da avaliação física, Marcelo destaca a importância de considerar aspectos psicológicos e emocionais, já que a mulher precisa ter condições de atravessar uma gestação e uma maternidade em fase mais avançada da vida.

Segundo o médico, a maternidade tardia tem se tornado mais comum, com aumento da procura por reprodução assistida entre mulheres acima dos 40 anos e também acima dos 50. Para ele, a medicina reprodutiva amplia possibilidades, desde que os critérios de saúde sejam avaliados com responsabilidade. “Existe a tecnologia, que tem que ser rigorosamente avaliada. Preenchendo os critérios, é plenamente possível que as pessoas exerçam sua autonomia na decisão da maternidade mais tarde”, afirma.