Especial

Trajetórias maternas revelam convivências e novas rotinas

Com as filhas adultas fora de casa, Ana Paula Paz vive uma nova fase da maternidade, marcada por autonomia, afeto e reencontro consigo mesma

Foto : Amanda Carvalho / Divulgação / CP

Ana Paula Paz foi mãe cedo. Engravidou de Mariana aos 19 anos e teve a filha aos 20, em uma gestação desejada, vivida dentro de uma relação que já fazia parte da juventude. Dez anos depois, veio Juliana, hoje com 18 anos, em outro momento da vida, como uma surpresa. As duas filhas cresceram em contextos diferentes e também exigiram dela formas diferentes de maternar.

Hoje, aos 47 anos, Ana Paula é psicóloga, atua na área há três anos e mantém consultório próprio. A trajetória profissional, no entanto, foi construída ao lado da maternidade e das responsabilidades de uma mãe solo. Mariana e Juliana são filhas de pais diferentes, e Ana Paula conta que nunca teve uma rede de apoio familiar que permitisse dividir de forma ampla as demandas da criação.

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A primeira grande mudança veio quando Mariana saiu de casa aos 18 anos para estudar em Porto Alegre. A família morava em Viamão, onde o deslocamento era mais difícil, e a mudança se tornou necessária. Anos depois, a saída de Juliana, hoje com 18 anos, pouco antes de completar a maioridade, reabriu a experiência, agora com outra maturidade. “Com a Mari, eu já tinha tomado os choques”, conta Ana Paula.

A relação com as duas, define, é de respeito. Para Ana Paula, esse respeito passa por reconhecer o passo das filhas e também por adaptar o próprio comportamento como mãe. A tendência, diz, é continuar enxergando os filhos como crianças, mesmo quando eles já constroem a própria vida. Ver esse crescimento exige deslocamento. A mãe segue presente, mas precisa mudar a forma de estar.

Para a psicóloga Maria Isabel Wendling, psicóloga e professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), essa etapa costuma ser marcada por sentimentos ambivalentes. De um lado, há o orgulho de ver o filho crescer, construir autonomia e fazer escolhas. De outro, pode surgir a saudade do tempo em que a rotina da maternidade era mais intensa e central na vida da mulher.

Olhares para si mesma

Segundo Maria Isabel, essa fase pode ser entendida como um período de “lançar os filhos e seguir em frente”. O crescimento dos filhos também convoca muitas mães a olharem novamente para si mesmas. Depois de anos de investimento afetivo, emocional e prático na criação, elas passam a se perguntar o que fizeram da própria vida, da carreira, dos estudos, do casamento e dos projetos pessoais.

Na vida de Ana Paula, essa pergunta apareceu em gestos simples. Em uma ida ao supermercado, percebeu que seguia escolhendo produtos que as filhas comeriam em casa. Só depois se deu conta de que aquilo já não fazia sentido na mesma medida. “Mas eu não como isso”, pensou. A cena pequena revelou uma mudança maior: a casa já não era organizada pelas mesmas presenças, gostos e horários.

A convivência também passou a encontrar outros caminhos. A mãe que antes decorava a casa para Páscoa, Natal, Halloween e festas juninas, envolvendo as filhas nas datas, hoje aprende a se comunicar de outras formas. Uma videochamada para tomar café junto, uma ligação no fim do dia, uma conversa rápida em meio à rotina. As ligações diminuem, o espaço aumenta, e a maternidade precisa caber em novas linguagens.

Ana Paula diz que a convivência passou a encontrar outros caminhos | Foto: Ana Paula Paz / Arquivo Pessoal / CP

A saída das filhas coincidiu com outras mudanças pessoais: cuidado da saúde emocional, de encarar uma atividade física que nunca foi hábito, das transformações da menopausa e de uma separação depois de muitos anos de relacionamento. São movimentos que se cruzam e fazem a mulher olhar para si de outro modo, não apenas como mãe, mas como alguém que também segue em transformação.

A psicóloga Adriana Wagner, terapeuta de família e casais, observa que o envelhecimento da população e as novas dinâmicas familiares tornam essa fase mais complexa, mas não necessariamente associada ao recolhimento. Mulheres de 50, 60 ou 70 anos vivem hoje esse momento com mais saúde, disposição e desejo de realizar coisas que não puderam fazer antes. A saída dos filhos pode significar movimento, reinvenção e retomada de planos adiados.

Ana Paula diz que nunca parou de estudar e que a maternidade não a impediu de tocar seus projetos. Mas reconhece que, agora, há mais espaço para pensar em planos mais ousados, que exigem tempo, disponibilidade e energia. Entre eles estão uma pós-graduação, cursos fora, um possível intercâmbio e um trabalho com grupos de mulheres, ideia que ela ensaia há bastante tempo.

Na atuação como psicóloga, ela deseja levar a prática profissional para além do consultório, explorando temas ligados à qualidade de vida e ao cuidado emocional. Também passou a participar de grupos de estudo, algo que antes era mais difícil diante da graduação, da rotina e das demandas com as filhas.

Para Ana Paula, a mudança não significa ausência de maternidade, mas abertura de possibilidades. A diferença, agora, está no horizonte que se abre. Depois de anos em que a vida foi marcada pela necessidade de resolver, sustentar e seguir, Ana Paula sente que pode pensar em realização.

“Sempre foi a sobrevivência. Agora eu posso pensar num caminho de mais realização”, afirma. Para ela, há uma liberdade nova em fazer coisas que não estejam apenas no campo do que precisa ser feito, mas também no desejo de viver.

A relação de Kátia com os filhos é marcada por abertura e conversas sinceras | Foto: Kátia Ravazzoli de Los Angeles / Arquivo Pessoal / CP

O ninho também fica cheio

A casa de Kátia Ravazzoli de Los Angeles, 56 anos, não ficou vazia quando os filhos cresceram. Mãe de Axel, 33 anos, Agatha, 32, e Alice, 28, ela vive uma rotina em que os movimentos de saída e retorno fazem parte da organização familiar. O filho mais velho sempre morou com ela, Agatha viveu seis anos fora e voltou, e Alice saiu de casa há três anos. Além disso, Kátia tem um neto de 14 anos que praticamente mora com ela.

Na prática, ela costuma dizer que vive em uma espécie de “hostel”, com uma área comum de convivência onde a família compartilha refeições, leitura, televisão, conversas e discussões. Muitas discussões, como define, quase sempre positivas, ainda que no momento possam parecer difíceis.

De acordo com Maria Isabel, no Brasil, muitas famílias vivem uma realidade de ninho cheio, com filhos adultos permanecendo mais tempo na casa dos pais. A entrada mais tardia no mercado de trabalho, a formação prolongada e a dificuldade de independência financeira fazem com que a saída de casa aconteça mais tarde.

Nesses casos, a relação precisa ser reorganizada. O filho já não é criança nem adolescente, mas ainda compartilha a rotina familiar. Para a mãe, isso exige seguir presente sem repetir a mesma lógica de cuidado da infância. A convivência passa a pedir mais diálogo, negociação e reconhecimento da autonomia do outro.

Kátia reconhece que a presença de muitos adultos na mesma casa impacta a privacidade, os planos e a organização financeira. Ela e o marido sentem falta de mais intimidade. As despesas também aumentam com alimentação, água, luz e manutenção da casa.

A relação com os filhos é marcada por abertura e conversas sinceras. Para Kátia, filhos adultos que vivem na casa dos pais precisam assumir responsabilidades possíveis com despesas, tarefas e cuidados do espaço. Mas a convivência nunca será igual à de pessoas que apenas dividem uma moradia. “O vínculo materno é muito forte para esse rompimento”, afirma.

Magda apoia sua filha e mãe no dia a dia | Foto: Magda Teixeira / Arquivo Pessoal / CP

Quando a filha também cuida

Magda Teixeira, 59 anos, é mãe de Hanna, 26, e filha de Elisabeth, 82. Na rotina, as duas relações se misturam. A filha é estagiária, leva comida de casa, e Magda ainda acorda cedo para preparar o café da manhã. À noite, também costuma esperá-la na parada. Ao mesmo tempo, acompanha mais de perto a mãe, que teve a saúde abalada depois da enchente, com quadro depressivo, problema cardíaco e idas frequentes a serviços de saúde até o ajuste da medicação.

Cabeleireira, manicure e depiladora, Magda trabalha por conta e tenta acomodar os cuidados dentro da própria agenda. Nem sempre consegue descansar. “Tem noite que não durmo direito, mas tudo se dá um jeito”, relata. A sobrecarga aumentou quando a mãe passou a pedir ajuda com mais frequência e a dizer que não estava se sentindo bem.

A experiência de Magda aproxima a maternidade adulta de outra dimensão do cuidado familiar: a de mulheres que seguem apoiando filhos adultos enquanto também acompanham pais idosos. A psicóloga Maria Isabel explica que essa fase pode colocar a mulher entre diferentes gerações, ainda orientando os filhos e, ao mesmo tempo, lidando com o envelhecimento dos próprios pais.

Magda diz que nem sempre a família compreende o peso dessa rotina. Embora tenha irmãos, afirma que a responsabilidade acaba recaindo mais sobre ela. Também sente que poucas pessoas entendem a condição da mãe, que aparenta estar bem, mas exige atenção constante por causa dos resultados médicos e da instabilidade de saúde.

A consequência aparece nos próprios planos. Magda conta que já cuidou da avó e do pai e, hoje, cuida da mãe. Ao longo da vida, precisou abrir mão de saídas, viagens e vontades pessoais. “Sempre deixo as minhas vontades, sonhos para depois”, resume. Na vida dela, o cuidado não terminou quando a filha cresceu. Apenas passou a dividir espaço com outra tarefa: ser filha de uma mãe que também precisa ser cuidada.