Leticia Pasuch e Manu Couto*
O setor cultural é o primeiro a parar e o último a recomeçar. Essa frase foi muito ouvida na pandemia de Covid-19 e, agora, enquanto o setor ainda se recuperava dos prejuízos, a fala novamente faz sentido devido aos impactos causados pelas enchentes que castigaram o Rio Grande do Sul em maio. Com os cinemas de rua de Porto Alegre não foi diferente. Alguns foram diretamente afetados, outros realizaram ações solidárias, como organizar sessões de cinema em abrigos e ser ponto de doações e cozinha solidária. Agora, o momento é de retomada.
Depois da água, um recomeço
A Cinemateca Paulo Amorim foi o último cinema a reabrir, na quinta-feira, dia 8. Localizada no térreo da Casa de Cultura Mario Quintana, ela ficou totalmente inundada, com prejuízos nas suas três salas: a Paulo Amorim, a Eduardo Hirtz e a Norberto Lubisco. O espaço, que havia sido reformado em 2019, teve poltronas e carpetes totalmente atingidos e descartados, com prejuízo também nos aparelhos de ar-condicionado. “Não tinha como entrar, não tinha como usar, não tinha como fazer programação”, relata Mônica Kanitz, diretora e programadora da Cinemateca.
O cinema possui salas dos dois lados da Casa de Cultura: de um, está a Eduardo Hirtz, primeira a ser reaberta. Do outro, estão a Paulo Amorim e a Norberto Lubisco, ainda com problemas elétricos e, portanto, fechadas. Os sistemas de projeção e sonorização felizmente não foram afetados, pois ficam no segundo andar do prédio.
Na tarde de 2 de maio, quinta-feira, a programação da Cinemateca foi encerrada após os alertas de forte chuva. Um aviso colado na porta de entrada anunciava que, devido aos eventos climáticos, a Cinemateca não abriria no dia 3, sexta-feira. Na tarde de sábado, dia 4, a água começou a chegar ao térreo da Casa de Cultura. Mônica, assim como muitas pessoas, pensou que custaria a atingir o espaço. Mas, em questão de um dia, já não era mais possível entrar no prédio sem botas de borracha.
Apenas a partir do dia 18 de maio, após o recuo da água em partes do Centro Histórico, foi possível acessar a Travessa dos Cataventos e adentrar a Cinemateca. Mas o cenário não era mais o mesmo: o conhecido cor-de-rosa da Casa de Cultura foi tomado por lama e lodo. Os carpetes estavam encharcados; as poltronas, molhadas e repletas de mofo; os palcos e estofados das paredes completamente afetados. Os cerca de 270 assentos que completam as três salas da Cinemateca foram descartados. Por um tempo, foi possível vê-los empilhados na Travessa dos Cataventos. Tudo que estava encharcado foi para o lixo.
Após um período de avaliação de danos, iniciou-se a limpeza, ainda em maio. No início de junho, a Casa de Cultura Mario Quintana foi contemplada por auxílio do Banrisul, por meio do governo do Estado, aos órgãos culturais do Centro Histórico atingidos pela enchente. Mônica lembra que o auxílio foi essencial para a reconstrução da Cinemateca. No final do mês, tapumes preencheram o espaço para as obras, que ainda estão sendo finalizadas.
Cinemas de Rua02
Enquanto a Cinemateca esteve fechada, o Goethe-Institut Brasilien, instituto cultural localizado no bairro Moinhos de Vento, disponibilizou seu auditório para exibições semanais de filmes propostos pela curadoria da Cinemateca. A primeira produção foi o documentário “Verissimo”, um dos filmes que entraria nas estreias quando o cinema fechou as portas. “A gente ficou esse tempo todo sem programação, meio de mãos atadas, pensando ‘o que vai se fazer’. O coordenador de programação do instituto entrou em contato comigo e me perguntou: ‘Posso te ajudar de alguma forma?’. Eu disse que gostaria de poder fazer algumas sessões de cinema. Ele respondeu: ‘Então vem’”, relata Mônica. O diretor do instituto, Stephan Hoffmann, declarou a parceria como ato de solidariedade cultural após as enchentes.
Mônica lembra que o Goethe Institut sempre foi um parceiro importante da Cinemateca e que a ideia é que a programação e a parceria seja mantida mesmo após a retomada do cinema. A diretora ressalta a importância do carinho que recebeu durante o período no qual as portas da Paulo Amorim estiveram fechadas. “Foi incrível, muita gente mandando mensagem, querendo saber quando é que volta. Muita gente querendo ajudar mesmo, querendo contribuir de alguma forma, e aí eu falava: ‘olha, a gente quer o retorno de vocês para sala.’”
Reconhecida por abrigar o nicho dos filmes independentes e priorizar filmografias alternativas e autorais, ao contrário do cinema comercial, e que não está no “lugar comum dos filmes norte-americanos”, nas palavras de Mônica, o fechamento temporário da Cinemateca foi um vazio para o público no período de paralisação. “As pessoas vêm para cá e sabem o que vai ter e a gente sempre tem muito filme em cartaz. As pessoas esperam isso, procuram isso, e certamente estão sentindo falta, porque hoje tu olhas as salas de cinema do shopping e passam todas a mesma coisa. Aqui é sempre uma alternativa.” A expectativa é que, com a reabertura, as salas voltem a serem lotadas pelo público. Agora, com a Eduardo Hirtz aberta, o plano é que a retomada aconteça em breve do outro lado da Casa, com as salas Paulo Amorim e Norberto Lubisco.
A primeira semana de reabertura está com seis filmes em exibição. Destes, três entrariam em cartaz quando a enchente começou: “Plano 75”, “Clube Zero” e “Veríssimo”. Além destes, “Estranho Caminho”, “Estômago” e “Testamento” se juntam à programação. Para Mônica, a reabertura da Cinemateca é um alívio. “É uma alegria muito grande porque está sendo mais rápido do que eu esperava. É uma força-tarefa incrível. Já está aberto o térreo, a livraria, então tem um sentimento geral de ‘que bom que a gente vai poder recomeçar, retomar as atividades’.” A diretora acrescenta a animação para pensar em programação de novo, essa que já tem a promessa de ser intensa para o segundo semestre. “Nesse momento, tu percebes a importância do espaço de cinema como o da Casa de Cultura, porque as pessoas estão querendo voltar.”
Cinemas de Rua
Sentido comunitário despertado
A Cinemateca Capitólio, espaço inaugurado em 2015 que rapidamente ganhou o coração dos cinéfilos porto-alegrenses, foi o primeiro cinema de rua da cidade a reabrir após as enchentes de maio. Durante a emergência, foi ponto de coleta de cestas básicas para profissionais da cultura, além de realizar atos de ajuda como disponibilizar tomadas para carregar celulares e outros aparelhos eletrônicos de vizinhos. Embora não tenha sido afetada diretamente pela catástrofe, seria impossível voltar como se nada tivesse acontecido, argumenta o programador Leonardo Bomfim.
Para a reabertura no final de maio, a Capitólio apresentou a mostra “Ao Sentido Comunitário”, um panorama de filmes que retratam a vivência em comunidade em diferentes épocas e realidades. Durante a programação, toda a renda das sessões foi destinada ao projeto Futuro Audiovisual RS, fundo voltado aos profissionais do audiovisual impactados pela enchente.
“Legal voltar dessa maneira, não fingindo que está tudo normal, ‘venham ao cinema’. Essa ideia veio justamente para que esse retorno ao cinema, de alguma maneira, proporcionasse uma reflexão sobre o momento que a gente estava vivendo”, fala Bomfim. A mostra foi inspirada na experiência do trabalho voluntário durante o período da enchente, em especial no CineVida, projeto solidário no qual a equipe da Cinemateca Capitólio participou.
Como parte da recreação do abrigo no Centro Vida, foram organizadas sessões de cinema diárias para as crianças e adolescentes que estavam ali. Foi uma iniciativa de Daniela Mazzilli, diretora da Cinemateca, e de Maria Angélica Santos, a então coordenadora do Programa de Alfabetização Audiovisual. Logo criou-se uma grande rede de voluntários, de funcionários a frequentadores da Capitólio, que doaram equipamentos, DVDs, tempo e dedicação para levar cinema às vítimas.
O projeto chegou a realizar três sessões por dia, em uma intensa convivência que incluía dias extremamente caóticos a experiências mágicas para os pequenos. “Aos poucos, notamos que alguns e algumas tinham mais prazer em ver filmes do que outras. Claramente dava para ver que algumas crianças, se vivessem em contexto com sala de cinema, com opções, poderiam ser supercinéfilas, superapaixonadas por cinema”, comenta Bomfim.
O cinema durou até o fim do abrigo no Centro Vida. Há, contudo, planos de continuar o projeto através do Programa de Alfabetização Visual, mapeando escolas que podem receber cineclubes, além de outras atividades, ao mesmo tempo em que realiza sessões de cinema no Centro Humanitário de Acolhimento Vida, moradias temporárias construídas pelo governo do RS para abrigar pessoas que perderam suas casas durante a enchente.
Cinema para ajudar a sonhar
Ainda que a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) tenha suspendido suas atividades durante a enchente, a Sala Redenção, o cinema universitário, não parou. Diante da criação de um abrigo na Esefid (Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Ufrgs), a equipe do cinema se mobilizou para levar sessões aos abrigados. O Departamento de Difusão Cultural da universidade, do qual o projeto faz parte, também organizou rodas de música e eventos temáticos de São João no abrigo.
Voltados ao público infantojuvenil, os filmes eram pensados para contemplar tanto crianças quanto adolescentes. As sessões aconteciam todas as quartas-feiras, com direito à pipoca e colo para os pequenos. “Um momento de sair daquela realidade que você está vivendo para poder pensar em outra coisa, se distrair, ver outros personagens e outros mundos na tela. Um forma de distrair, alegrar, divertir, poder sonhar”, lembra a bolsista Larissa Lunge.
Sala Redenção - Cinemas de Rua
“A importância, vejo assim, é para marcar presença enquanto sala e também fazer nossa parte nesse momento difícil. Isso, por si só, já justifica uma ação. E acho que o objetivo foi alcançado”, completa o coordenador Edgar Heldwein. A ação se manteve enquanto o abrigo funcionou, até o retorno às aulas na universidade, no dia 1° de julho. No dia 7 de julho, as portas da Sala Redenção reabriram com a mostra “A Imagem no Espaço”, trazendo programação que propõe reflexões sobre o espaço da cidade e exibindo obras filmadas em diferentes locais do Brasil, como Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Prevista para o início de maio, a mostra durou apenas um dia, sendo interrompida devido à enchente. Mas a equipe considerou que a temática tornou-se ainda mais relevante após os acontecimentos e a retomou, adicionando sessão de encerramento com o documentário “O Flagelo da Enchente Assola Pôrto Alegre”, filme recentemente restaurado pela Cinemateca Brasileira.
Espaço virou ponto de ações de solidariedade no Centro
O CineBancários, localizado na sede do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região, na rua General Câmara, no Centro da Capital, retomou a programação no dia 18 de julho com os filmes “Greice”, “Lo que Queda en El Camino” e “Toda Noite Estarei Lá”. Embora não tenha sido tomado pelas águas, permaneceu cerca de três semanas sem luz e água, conta a gestora Bia Barcellos. Porém, nada impediu que fosse formada uma força-tarefa de servidores do sindicato e voluntários: o prédio foi ponto de doações, cozinha solidária e até abrigo para pessoas afetadas pela enchente.
A iniciativa começou no dia 4 de maio e auxiliou desabrigados e pessoas em situação de rua. O sindicato fornecia café da manhã, dois lanches, almoço e janta. Cerca de 30 voluntários somaram-se à equipe de técnicos e servidores, que chegaram a trabalhar mais de 10 horas por dia para atender à população necessitada. “Havia muita gente com feridas expostas e a gente ajudava, a gente comprava até remédio para HIV”, conta Sandro Rodrigues, dirigente sindical do Sindicato dos Bancários.
Cinemas de Rua - Cinebancários
O saguão encontrava-se intransitável, tamanha a quantidade de roupas para doações. As equipes, também da Federação dos Bancários, realizaram a triagem de itens de todos os gêneros e tamanhos. Na cozinha solidária, os próprios servidores e voluntários preparavam as refeições com mantimentos doados. O sindicato também atuou com a campanha “Solidariedade em Dobro”, em que, a cada real doado para a instituição, o dobro era depositado para as ações, explica Sandro. Ele reforça, também, o auxílio que recebeu do governo federal com insumos e gás, além do apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).
Conhecida por estimular o cinema nacional e latino-americano a preço acessível, a programação do Cinebancários também fez falta para os cinéfilos que frequentavam o espaço, lembra Bia. A última exibição aconteceu no dia 1º de maio e as conversas sobre reabertura começaram no final de junho, momento em que as ações de entregas de marmitas também estavam cessando. A retomada precisou ser avaliada, visto que o espaço teve técnicos e servidores moradores de Canoas e São Leopoldo atingidos pela enchente. Mas Bia e os demais servidores estão com grandes expectativas para o retorno do público. “A gente está investindo bastante nesse recomeço, tanto nesse subsídio como na volta da equipe. E é um projeto potente. A gente precisa que as pessoas também ajudem”, ressalta.
De portas fechadas
Menos de um ano após sua reabertura, o Cine Victória, na avenida Borges de Medeiros, fechou as portas, no dia 19 de junho. Originalmente inaugurado em 1940, com o nome de Cine Teatro Vera Cruz, o empreendimento estava no comando da rede Cult Cinemas desde julho de 2023. Cris Brandolt, gestora do cinema, esclarece que o motivo foram os prejuízos financeiros. O cinema teria encerrado suas atividades mesmo que não houvesse a enchente. “Foi uma coincidência que bateu bem no momento em que a gente estava se planejando para fechar.” Mas ela adverte que a catástrofe climática foi uma importante agravante. “Primeiro, porque 30 dias fechado, que é o tempo que o cinema teria ficado, é muito tempo; segundo, que o centro ficou muito desgastado no pós-enchente.”
Ela ainda acredita que fatores como segurança e limpeza do centro de Porto Alegre afastaram o público da região. Soma-se a isso o baixo valor do ingresso e a baixa demanda, fazendo com que os prejuízos financeiros nunca melhorassem. O cinema, conhecido por oferecer ingressos baratos para produções mainstreams, tinha um público fiel, mas insuficiente. “Foi um público muito presente, muito grato, pessoal gostava muito de estar ali, mas também eram pessoas que tinham uma memória afetiva com relação ao cinema. Públicos novos foi mais difícil a gente conquistar”, diz Cris.
A gestora afirma não se arrepender de ter aberto o cinema. “Por incrível que pareça, foi uma experiência tão enriquecedora para mim e minha sócia, em conhecimento de aprendizado, de contato. Tudo ali foi tão incrível que a gente não se arrepende. A gente faria tudo de novo”, diz, acrescentando que gostaria de, futuramente, voltar a investir em projetos em Porto Alegre.
*Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes