Especial

As falhas dos diques da zona Norte de Porto Alegre

Estruturas se romperam e extravasaram em diferentes pontos e, assim como todo o sistema de proteção contra cheias da Capital, se mostraram incapazes de evitar a tragédia da qual foram projetados para conter

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_ Foto : Ricardo Reinbrecht / Especial / CP

Parte importante do complexo sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, os diques da zona Norte da cidade sofreram danos significativos durante a inundação. Assim como todo o sistema, foram projetados na cota de 6 metros para proteger as regiões que margeiam o rio Gravataí e, também como ocorreu em outros pontos da Capital, cederam ao volume de chuvas, ainda que o nível oficial deste episódio de inundação tenha ficado em 5,35 metros no Guaíba, ou menos, a depender da revisão do sistema de medição, já admitido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

Entender como o sistema falhou quando mais se precisou dele ainda é tarefa pendente, que exigirá análises completas, algumas delas possíveis de serem realizadas apenas quando as águas baixarem na sua totalidade - o que, quase um mês após o início da calamidade na Capital, ainda é impreciso de prever quando ocorrerá. A sequência de acontecimentos da tragédia, contudo, já está em tempo de ser detalhadamente documentada e se tornará indispensável na revisão dos processos e posterior validação do sistema.

É o que o Correio do Povo passa a fazer aqui, a partir da ótica de quem esteve diante dos fatos na região do bairro Sarandi, uma das mais populosas de Porto Alegre e que ainda segue com milhares de pessoas fora de casa, ruas inundadas e, mais recentemente, abertura de crateras em um terreno já completamente instável.

São duas grandes estruturas que protegem a região. Uma delas, a maior, é o dique que margeia o arroio Sarandi partindo da avenida Assis Brasil dando a volta em todo o bairro e dividindo-se em um braço até a BR 290 e em outro retornando até a Assis Brasil cerca de 3 quilômetros à frente. A outra estrutura segue deste ponto, no outro lado da avenida, avança por trás da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e retorna até a avenida Caldeia. Mais ao norte, toda a freeway também é uma terceira estrutura de contenção das águas do rio Gravataí, mas em diferentes pontos permite a passagem de água por baixo por estar em uma área de várzea.

As águas na região avançam de leste para oeste, em direção ao Guaíba. Pelo caminho, inundam grandes áreas de Gravataí, Cachoeirinha e Alvorada. Na Capital, os diques servem especialmente para conter os danos causados pela cheia nestas áreas de várzea. No dia 2 de maio, uma quinta-feira, a mobilização de servidores da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos no dique existente atrás da Fiergs teve início diante dos exorbitantes volumes de chuvas que atingiam a cidade naquele momento e já indicavam dias desafiadores à frente. A cheia já ocupava todo o lado leste da Assis Brasil quando, na sexta-feira, começou a subir pelo asfalto e isolar o acesso a Cachoeirinha. Com a avenida mais alta e tornando-se ela um obstáculo para o escoamento do Gravataí já fora do leito, a água represou no dique. Começava ali um trabalho de reforço de contenção da estrutura que, dois dias depois, se mostraria incapaz de conter a inundação da região.

| Foto: Infografia: Leandro Maciel

Clique aqui para ver o infográfico maior.

O dique da Fiergs tem variação de altura, mas, em média, possui 4,20m. Também tem outros 4m de largura, o que permite o trânsito de veículos sobre ele. Uma contenção improvisada de cerca de 90cm foi erguida no topo do dique para tentar segurar a água que na quinta-feira já ameaçava extrapolar. Feito com sacos de areia e pedra, teve pouco sucesso. Foi na sexta-feira, dia 3, que os primeiros extravasamentos foram percebidos. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, foi ao local durante à noite e em vídeo gravou uma declaração garantindo que a estrutura não havia se rompido.

Quando o sábado amanheceu, foi identificado que o extravasamento era maior e, a partir dali, ocorreria em mais pontos. A água que passava por cima caia em um riacho localizado entre o dique e a Fiergs e corria em direção ao Sarandi, já do lado de dentro do bairro. Eram 7h quando os moradores receberam as primeiras orientações de evacuação da região. O Correio do Povo acompanhou de perto todo o processo. Em transmissão ao vivo nas redes sociais o jornal mostrou como ocorria o trabalho de reforço da estrutura e a mobilização de quem morava na parte mais extrema do bairro.

A prefeitura acionou empresas da região pedindo que enviassem pedras. Por volta das 8h30min daquela manhã, os dois primeiros caminhões com carga chegaram. Máquinas retroescavadeiras empurravam os materiais para dentro da estrutura. Em um dos extremos no dique, atrás da Usina de Asfalto da Prefeitura de Porto Alegre (localizada ao lado da Fiergs), exatamente no ponto onde faz uma curva em direção ao bairro, um extravasamento maior ocorria. Era ali onde os trabalhos estavam concentrados. Enquanto as cargas de pedras eram jogadas para dentro, novos extravasamentos surgiam entre a avenida e o local de atuação das equipes, o que levava a paralisação do trabalho no ponto principal para reparos emergenciais. A água seguia escorrendo dentro do riacho que, por volta das 10h, já estava fora do leito e começando a entrar em casas do Sarandi.

Dique da Fiergs extravasou em três diferentes pontos | Foto: Ricardo Reinbrecht / Especial / CP

Nas ruas do bairro, carros com porta-malas abertos e pessoas correndo para colocar sacolas e aparelhos eletrônicos dentro. A transmissão do jornal flagrou cadeirantes sendo colocados na carroceria traseira de uma caminhonete de maneira improvisada ao som de buzinas e gritos. O clima era de desespero. Mas havia também quem estivesse fiel à avaliação pessoal de que o pior que poderia ocorrer seria a repetição de enchentes como as de 2015 ou de 2023. Como se viu nos dias seguintes, não foi o caso. Na parte mais próxima ao arroio a água entrou no segundo andar das casas e quem ficou precisou ser resgatado de barco no domingo.

Mas a evacuação seguiu no sábado ao longo da manhã e início da tarde, enquanto a água avançava pelo arroio e de dentro do sistema de esgoto. Sobre o dique continuavam os trabalhos de contenção e na Assis Brasil mais de 20 caminhões com carga de pedras estavam enfileirados quando, por volta das 16h, a enchente venceu as equipes. A reportagem do Correio do Povo estava no local e testemunhou os 30 minutos que transformaram a parte seca da avenida em um rio com forte correnteza que inviabilizou o tráfego de carros.

Com dois grandes pontos de extravasamento em partes por onde as equipes já tinham passado e uma inundação descontrolada na outra ponta do dique que levava até mesmo parte da estrutura, a ordem foi de evacuação dos trabalhadores. Não havia segurança para continuar operando e, na pressa, uma escavadeira hidráulica foi deixada para trás. Enquanto as próprias equipes da prefeitura corriam para deixar o local, agentes da EPTC, da Polícia Civil, da Defesa Civil e soldados do Exército iniciaram a evacuação de quem estava próximo da Fiergs.

Dois grandes mercados estavam abertos, com pessoas em compras. Sirenes, buzinas e gritos de "o dique rompeu" passaram a ecoar pela região. Enquanto os motoristas tentavam desviar, passando até mesmo sobre o canteiro central e calçadas, a água em correnteza ia invadindo tudo. Em poucos minutos isolou o acesso aos dois atacados.

Após o jornal compartilhar a informação reverberada pelos agentes que estavam no local, a prefeitura, por meio da rede social do Centro Integrado de Comando da Cidade, informou:

"a estrutura não se rompeu. Ela está extravasando, assim que [como] acontece desde a manhã. As equipes da Prefeitura permanecem no local e atuam na remoção e orientação de famílias, bem como [no] monitoramento do dique".

A postagem, contudo, não condizia com exatidão ao que acontecia naquele momento na zona norte de Porto Alegre. Se o rompimento completo não havia ocorrido, de qualquer forma o volume de água que invadiu a área era muito superior ao extravasamento registrado desde o início da manhã, e as equipes que atuavam no trabalho de contenção inclusive saíram por falta de segurança. Iniciou-se a evacuação completa e imediata de toda a área. Estes dois pontos foram não só testemunhados pelo Correio do Povo durante os acontecimentos quanto confirmados em entrevista na última semana pelo secretário municipal de Serviços Urbanos de Porto Alegre, Assis Arrojo.

"Nós decidimos parar de trabalhar porque estávamos nos colocando em risco. Havia outros pontos que estavam abrindo. Nós já tínhamos uma máquina que ficou (presa) do outro lado. Poderíamos perder mais, ou até mesmo nós ficássemos ilhados", relembra Arrojo, que esteve com as equipes sobre a estrutura do dique até o momento final da evacuação. Segundo ele, houve danos no dique. "Quando a água começa a passar, vai uma gota, 'carreia' e se não fechar rápido, leva todo o talude. Ali abriu um vão em cima. Fechamos com pedra agora (na quarta-feira, dia 22). Será preciso fazer um trabalho de recuperação dele baixando as águas. Todo o sistema tem que ser repensado", reconhece.

No dia seguinte ao extravasamento maior, novas informações circularam no bairro sobre um possível rompimento. Com a água já emparelhada entre os dois lados da estrutura do dique da Fiergs, uma eventual abertura a partir daquele momento não alteraria o cenário de inundação completa na região. O reforço na estrutura, citado pelo secretário, ocorreu 18 dias depois da crise. No sábado seguinte, dia 25, um novo episódio de extravasamento ocorreu a partir do repique da cheia. Foi contido horas depois.

Escavadeira hidráulica acabou deixada para trás na área do dique | Foto: Miguel Noronha / Enquadrar / Estadão Conteúdo / CP

O drama na região não se resumiu à estrutura na Fiergs e maiores danos foram registrados no dique que corta o bairro Sarandi. A estrutura se rompeu em duas partes, com crateras de mais de 5 metros de extensão. A força da água destruiu casas e intensificou a inundação. A cheia alcançou o telhado das residências. Três vilas margeiam o dique e em muitos pontos moradias foram construídas sobre a estrutura. Após o episódio da enchente, a prefeitura de Porto Alegre negociou a retirada definitiva de moradores e as casas próximas que não foram levadas pelas águas começaram a ser destruídas.

Pelos danos expostos nos dois grandes pontos de rompimento no dique do Sarandi não é possível precisar em que momento houve o colapso. Mas o cenário deixado à mostra revela que a estrutura não suportou um evento do qual, ao menos no papel, foi projetado para conter. Mais do que isso: após o início do recuo das águas, os rombos abertos impedem o escoamento da região, uma vez que as bombas instaladas provisoriamente jogam a água no arroio que está cheio e é justamente pelos buracos no próprio dique que a água volta a tomar o bairro.

Dique no bairro Sarandi se rompeu em duas partes e levou casas | Foto: Ricardo Giusti