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Atendimentos por vício em apostas disparam no Brasil após avanço das bets

Dados do Ministério da Saúde indicam aumento de cerca de 17 vezes em sete anos, passando de 305 casos em 2018 para 5,3 mil em 2025

Especialistas alertam para aumento dos casos de endividamento, sofrimento psíquico e comportamento compulsivo relacionados ao jogo
Especialistas alertam para aumento dos casos de endividamento, sofrimento psíquico e comportamento compulsivo relacionados ao jogo Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

Pedidos de demissão, casas tomadas por agiotas, divórcios e até suicídio. Esses são alguns dos efeitos mais graves enfrentados por pessoas viciadas em bets após a expansão das plataformas de jogos online nos últimos anos.

Com acesso facilitado pelo celular, funcionamento contínuo e forte presença publicitária, as bets ampliaram casos de endividamento, sofrimento psíquico e comportamento compulsivo, segundo especialistas.

A popularização dessas apostas criou um novo desafio para os serviços de saúde mental no Brasil. Dados do Ministério da Saúde obtidos pelo Correio do Povo mostram crescimento acelerado no número de atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) por problemas ligados aos jogos.

A série histórica tem início em 2018, ano em que as bets foram autorizadas a operar no país. Até 2020, os registros se mantiveram em torno de 300 casos anuais. Em 2025, chegaram a 5,3 mil — aumento de cerca de 17 vezes.

Nos consultórios e serviços especializados, os relatos já incluem situações extremas e evidenciam uma tendência de agravamento do cenário.

“Vejo pessoas pedindo demissão para pagar empréstimos realizados devido a dívidas de jogo. Já acompanhei casos em que agiotas e facções tomaram a casa de familiares de devedores. Separações, ansiedade intensa e até suicídio ou mesmo envolvimento com a criminalidade estão entre os desfechos possíveis”, afirma o psiquiatra Félix Kessler, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e chefe do Serviço de Psiquiatria de Adições e Forense do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Vulnerabilidades sociais ampliam efeitos das apostas online

Segundo Kessler, as bets avançam em um cenário social já marcado por fragilidades econômicas e emocionais.

“Já existem muitas pessoas vulneráveis, com estresse, ansiedade, depressão e outras comorbidades psiquiátricas. Tudo isso, somado a uma indústria legalizada que está competindo ferrenhamente, amplia os impactos sobre a saúde pública”, afirma o especialista ao analisar o avanço das bets no país.

A ludopatia, nome dado ao transtorno do jogo, é reconhecida pela psiquiatria como uma doença mental. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), da American Psychiatric Association (APA), o quadro é caracterizado pela incapacidade de controlar as apostas mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares.

O psiquiatra Lucas Spanemberg, médico do Hospital São Lucas e professor da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), também observa que os casos têm chegado aos serviços de saúde em estágios cada vez mais graves.

“Estamos recebendo cada vez mais pessoas que internam porque colapsaram do ponto de vista emocional e financeiro e escalaram o comportamento de apostas ao terem dívidas impagáveis. Às vezes já chegam com comportamento suicida e situações bastante graves”, relata o especialista.

O que faz uma pessoa apostar

A busca constante pelos jogos de apostas envolve fatores emocionais, financeiros e comportamentais. Segundo Spanemberg, muitos pacientes recorrem às apostas como forma de aliviar ansiedade, frustração e sofrimento emocional, atraídos pela promessa de ganho rápido e recompensa imediata.

O psiquiatra afirma que também é comum a tentativa de recuperar perdas financeiras por meio de novas apostas, o que tende a aprofundar o comportamento compulsivo e agravar o endividamento.

Embora o impacto financeiro seja um dos efeitos mais visíveis, os danos vão além das dívidas. Publicado em 2025 pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, o documento Jogos de aposta: cuidado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) aponta que a ludopatia também pode estar associada a conflitos familiares, isolamento social, queda no desempenho profissional, desemprego e violência doméstica.

Os sinais de alerta

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • necessidade de apostar valores cada vez maiores;
  • dificuldade de interromper as apostas;
  • irritação ou ansiedade quando tenta parar;
  • mentiras sobre o dinheiro gasto;
  • empréstimos para continuar jogando;
  • tentativa frequente de recuperar perdas;
  • prejuízos no trabalho, estudo e relações pessoais;
  • isolamento social;
  • sintomas de ansiedade e depressão associados.

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O efeito das apostas no cérebro e como vínculos sociais podem ajudar

O vício em apostas compartilha mecanismos semelhantes aos observados em dependências químicas. O jogo ativa circuitos cerebrais ligados à recompensa e à liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer, expectativa e motivação.

“Mas muitas outras coisas também liberam dopamina, não apenas as apostas e as drogas. A conexão social, o afeto, o reconhecimento, a sensação de pertencimento, ter um trabalho, um papel social e um propósito de vida também contribuem para o bem-estar mental”, afirma Kessler.

Segundo o psiquiatra, o tratamento passa justamente pela reconstrução de fontes saudáveis de recompensa e prazer, por meio do fortalecimento de vínculos afetivos, da retomada da vida social e da criação de novos hábitos e interesses.

Kessler é um dos autores do livro "Adições Tecnológicas e Outras Adições Comportamentais”, obra que aborda transtornos relacionados a comportamentos compulsivos sem uso de substâncias químicas. Entre eles estão a dependência de internet, videogames, compras compulsivas e uso problemático de redes sociais.

A busca constante pelos jogos de apostas envolve fatores emocionais, financeiros e comportamentais | Foto: Mauro Schaefer

Resposta nos serviços de atendimento

O documento do Ministério da Saúde em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz classifica o avanço das bets como questão de saúde pública e propõe ampliação da rede de cuidado, capacitação das equipes e maior regulação do setor.

O material também critica o conceito de “jogo responsável”, apontando que ele concentra a responsabilidade apenas no indivíduo e desconsidera fatores sociais, econômicos e o próprio funcionamento das plataformas de apostas.

Em Porto alegre

Em meio ao aumento da demanda por atendimento, o Serviço de Psiquiatria de Adições e Forense do Hospital de Clínicas de Porto Alegre iniciou um grupo terapêutico voltado a pacientes com transtornos relacionados às apostas. A proposta é oferecer acompanhamento multiprofissional para pessoas que apresentam comportamento compulsivo ligado ao jogo, incluindo pacientes com histórico de uso de substâncias.

“Utilizamos entrevistas motivacionais, Terapias Cognitivas Comportamentais e técnicas de prevenção de recaída, assim como todo um trabalho de ressocialização e reconstrução do projeto de vida daquela pessoa”, explica Kessler.

O psiquiatra ressalta que os pacientes passam por diferentes “estágios de mudança”, desde a fase em que ainda não reconhecem o problema até a manutenção da abstinência. Por isso, mesmo nos grupos terapêuticos, o acompanhamento precisa ser individualizado.

Nesse processo, o acolhimento afetivo também é considerado fundamental para evitar que o paciente se sinta reduzido ao vício ou julgado pela equipe de saúde.

Os encontros organizados pelo HCPA terão cerca de 15 participantes inicialmente. O encaminhamento para tratamento pode ser realizado pela rede básica de saúde, emergências psiquiátricas e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Estratégia nacional inclui teleatendimento e bloqueio voluntário

Em março de 2026, o Ministério da Saúde lançou um serviço gratuito de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados às apostas, disponível pelo aplicativo Meu SUS Digital.

Desenvolvido em parceria com o Hospital Sírio-Libanês e com investimento de R$ 2,5 milhões, o programa prevê atendimento individual e em grupo para maiores de 18 anos, além de acolhimento para familiares. Até o momento, mais de 3,5 mil pessoas se cadastraram no serviço.

As consultas são realizadas por vídeo, duram em média 45 minutos e fazem parte de ciclos estruturados de cuidado, que podem incluir até 13 consultas por paciente.

A iniciativa integra uma estratégia nacional que inclui a Plataforma de Autoexclusão Centralizada, criada pelo Ministério da Fazenda para permitir o bloqueio voluntário do acesso a sites de apostas autorizados, além de impedir novos cadastros e publicidade vinculada ao CPF do usuário.

Os desafios após a regulamentação

As apostas esportivas foram regulamentadas no Brasil pela Lei nº 14.790/2023, embora já fossem autorizadas desde 2018. A implementação mais ampla das regras de operação e fiscalização passou a ganhar força em 2025.

Desde então, o crescimento acelerado do setor ampliou debates sobre publicidade, proteção de grupos vulneráveis e responsabilidade das empresas de apostas.

Durante a CPI das Bets, realizada no Senado entre 2024 e 2025, especialistas alertaram para os impactos das apostas na saúde mental e defenderam maior estrutura do SUS para atender casos de dependência relacionados ao jogo.

Especialistas apontam que estratégias adotadas pela indústria das apostas se aproximam de práticas historicamente utilizadas pelo setor do tabaco, especialmente na normalização do consumo e na minimização dos riscos associados ao produto.

Como buscar ajuda

O atendimento para pessoas com problemas relacionados às apostas ocorre nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), unidades básicas de saúde, ambulatórios especializados e hospitais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Em Porto Alegre, os endereços e contatos das unidades podem ser conferidos neste link.

Como acessar o teleatendimento oferecido pelo Ministério da Saúde

  • Baixe gratuitamente o aplicativo Meu SUS Digital (Android, iOS ou versão web);
  • Faça login com a conta Gov.br;
  • Na página inicial, clique em “Miniapps”;

Autoexclusão dos sites de apostas

O cadastro pode ser feito pelo endereço eletrônico gov.br/autoexclusaoapostas, utilizando conta gov.br de nível prata ou ouro.