Especial

Como o Palmeiras superou dívidas e se tornou uma potência

Foto : FRANCK FIFE / AFP

CAPÍTULO 4 – COMO SE CRIOU O ABISMO: PALMEIRAS

Já o Palmeiras trilhou um caminho diferente. No início da década passada, o clube vivia uma grave crise técnica e financeira e foi rebaixado em 2012. Parecia difícil imaginar uma recuperação, mas uma revolução silenciosa começou em 2013, quando Paulo Nobre venceu a eleição e assumiu a presidência. Rapidamente percebeu que o clube não sobreviveria sem aportes imediatos e decidiu usar recursos próprios, emprestando cerca de R$ 200 milhões ao Palmeiras.

Confira o especial completo “Acabou a Grandeza?”

O dinheiro aliviou o caixa e deu o primeiro impulso rumo à virada. Nos anos seguintes, com gestão profissionalizada, o clube melhorou a infraestrutura, blindou o departamento de futebol de interferências políticas e promoveu uma profunda modernização, especialmente nas categorias de base, que se tornaram uma fonte de talentos e receitas.

Paulo Nobre foi reembolsado, mas deixou um legado que seus sucessores mantiveram. Apesar de algumas diferenças, Maurício Galiotte e Leila Pereira seguiram a política esportiva e elevaram ainda mais o patamar do clube. O resultado pode ser visto nos números e nas taças. Desde 2015, o Palmeiras conquistou duas Libertadores (2020 e 2021), quatro Brasileirões (2016, 2018, 2022 e 2023), duas Copas do Brasil (2015 e 2020), além da Recopa Sul-Americana (2022) e da Supercopa do Brasil (2023).

Por caminhos distintos, Flamengo e Palmeiras cresceram e se distanciaram dos concorrentes.

“Essa diferença se tornou inevitável. Ficou claro que o futebol brasileiro passaria a ter clubes nacionais e clubes regionais, conforme se transformava em uma indústria estruturada. Mesmo que se tente equilibrar receitas de televisão, ainda há fatores como o tamanho da torcida, o valor do ingresso, a renda da região, o potencial de receita comercial e de venda de atletas. Tudo isso gera diferenças. E essa distinção já é realidade na Europa há muito tempo”, analisa o economista César Grafietti, especialista em gestão e finanças no futebol.

Ou seja, o abismo técnico começa no caixa. O crescimento de receitas de Flamengo e Palmeiras superou com folga o de seus rivais. Levantamento feito pelo Correio do Povo nos balanços de 2007 a 2024 mostra que a receita do Flamengo saltou de R$ 89,4 milhões para R$ 1,334 bilhão — alta de 1.392%. O Palmeiras cresceu de R$ 86,2 milhões para R$ 1,274 bilhão — avanço de 1.374%. Inter e Grêmio também cresceram, mas em escala muito menor: 298,5% e 269,8%, respectivamente. Detalhe: em 2007, os clubes gaúchos arrecadavam mais do que os hoje superclubes.

Faturamento | Foto: Leandro Maciel

A disparidade se reflete em campo. Mais dinheiro significa melhores elencos, maior estrutura, comissões técnicas qualificadas e capacidade de reter atletas por mais tempo. O resultado: conquistas frequentes e quase exclusivas para Flamengo e Palmeiras.

Segundo especialistas, o grupo dos superclubes pode até comportar mais dois nomes: Corinthians e São Paulo. Ambos têm potencial de receita, torcida e marca, mas enfrentam barreiras internas, como má gestão e disputas políticas.

A formação de blocos de clubes conforme o tamanho das receitas é inevitável. Flamengo, Palmeiras, Corinthians e, eventualmente, São Paulo estarão num patamar acima. Depois, vem um segundo grupo com Grêmio, Inter, Atlético-MG, Fluminense, Botafogo... E ainda existe um terceiro nível, com clubes de menor porte. Isso acontece porque é natural: há diferenças de região, renda, torcida. E como superar isso? É difícil, mas possível — com venda de jogadores e gestão eficiente do pouco dinheiro disponível”, completa César Grafietti.