Guilherme Sperafico e Leticia Pasuch
Era uma nublada tarde de sexta-feira, quando Porto Alegre agonizava com dezenas de bairros alagados e mais de 150 mil pessoas diretamente afetadas pelas enchentes. Naquele 10 de maio de 2024, completava-se uma semana de enfrentamento da maior tragédia já enfrentada pela Capital. E foi em meio ao caos que, por volta das 18h, foi liberada uma obra que logo se tornaria símbolo de resiliência: o Corredor Humanitário, construído entre a avenida Castelo Branco e a elevada da Conceição, no Centro Histórico.
Em pouco mais de dois dias de trabalho, equipes da Prefeitura ergueram a travessia provisória, utilizando mais de 7 mil toneladas de rocha em um trecho de 300 metros. A passagem permitiu que veículos oficiais, ambulâncias, caminhões do Exército e transporte de ajuda humanitária atravessassem a região, então submersa em mais de dois metros de água.
Para viabilizar a instalação do corredor, foi necessária a remoção da antiga passarela de pedestres da Estação Rodoviária, que cruzava a avenida Conceição. A operação mobilizou mais de 100 profissionais e 65 máquinas. “Vamos derrubar aquela passarela e construir outra mais à frente. Mas, neste momento, vamos derrubar para que possa ter um corredor eficiente, porque a comida tem que chegar, o remédio tem que chegar, a ambulância tem que passar e o caminhão do Exército também tem que passar", afirmou à época o prefeito Sebastião Melo.
Naquele cenário, mais de 13 mil pessoas estavam desabrigadas em Porto Alegre. O corredor, além de fundamental para o envio de mantimentos e socorro imediato, serviu de modelo para a criação de outras passagens emergenciais, como a saída da Capital pela avenida Assis Brasil, no bairro Sarandi.
Mesmo após as águas baixarem, o Corredor Humanitário permaneceu firme e passou por obras de requalificação. Nesta quarta-feira, Porto Alegre completa 16 meses desde o início da inundação histórica que paralisou a região central e outros bairros da cidade. De provisório e emergencial, transformou-se em uma estrutura permanente, pensada como alternativa de resposta rápida para futuras situações de calamidade.
Requalificação
Neste momento, a estrutura está passando por obras de requalificação, com o objetivo de trazer mais segurança aos motoristas. O espaço, agora com 400 metros de extensão, apresentava riscos para os motoristas por conta do excesso de pedras que se desprendiam nas faixas, além de registros de acidentes, como capotamentos.
De acordo com o secretário municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), André Flores, as obras de requalificação, que tiveram início no dia 21 de julho e têm investimento de R$ 1,4 milhões, estão “adiantadas” e com o período de conclusão previsto para outubro deste ano.
“Tem ido muito bem o trabalho, em ritmo bastante adiantado, e isso é muito bom. Acredito que vai melhorar bastante, porque a gente vai regularizar e dar mais segurança também aos motoristas, com uma série de equipamentos de segurança, de proteção lateral das pistas, que permite com que os veículos transitam ali com maior conforto, segurança e, claro, maior fluidez”, afirma André Flores.
Neste momento, as atividades estão concentradas na fase do talude voltado para o lado da rodoviária. Ali, já foi feito o colchão reno, estrutura de contenção com a função de revestir e proteger, ideal para controle de erosão em áreas de alto risco, e a drenagem também foi concluída. Em seguida, deve ser iniciado o plantio de grama na lateral.
A previsão é de que, concluída essa etapa já nos próximos dias, as equipes passarão para o outro lado, na rua da Conceição, onde serão feitas as outras mesmas atividades. Isso deve causar mais transtornos no trânsito, prevê Flores. “Porque tem que isolar uma parte da via, por isso nós já adiantamos a faixa da direita, digamos assim, que é o lado do passeio público, para esse isolamento que nós vamos fazer na faixa da esquerda, a fase mais sensível da obra, quando nós vamos estar fazendo tudo o que fizemos do outro lado”, explica. Depois, os trabalhos serão executados na parte alta do corredor, com a regularização do pavimento.
“A gente planejou a obra toda para causar o mínimo impacto possível no trânsito na parte alta, que liga a Castelo Branco ao Túnel da Conceição, e nós estamos conseguindo, até esse momento”, acredita. Segundo Flores, a intensificação das atividades na rua da Conceição depende das condições climáticas, mas tem previsão de começar ainda nesta semana.
Obras do Corredor Humanitário
Passarela ainda não tem previsão de início de obras
A antiga passarela da Estação Rodoviária, que precisou ser demolida, permanece como um retrato inacabado da enchente. A estrutura, que está sem ligação há quase 1 ano e três meses, não tem previsão de início de obras. De acordo com Flores, “em breve” ela será integrada ao projeto viário de qualificação da Rodoviária. Foi, inclusive, motivo de reunião do titular da pasta com equipes na última semana. "Nós vamos fazer uma nova passarela, mas também já tratando de todas as questões para qualificar ela e o seu entorno", afirmou.
O início das obras dependem de uma licitação, com a contratação de uma empresa para execução, e de outros fatores legais. Flores não confirmou que elas possam começar ainda neste ano. "Ainda não tenho a data desta licitação, porque isso depende de uma série de processos internos do projeto, que ainda precisam ser finalizados. Nós estamos trabalhando bastante nisso, mas a construção de uma passarela não é uma tarefa tão simples", explica.
Questões que envolvem a antiga estrutura, como a sua altura (deve ser de 2,5 metros mais alto), os problemas de acessibilidade, de iluminação e de segurança na circulação estão sendo discutidos para o novo projeto. "A gente, ao fazer uma passarela moderna, tem que atender todas as normas e qualificá-la", justifica Flores.
O que restou da antiga passarela é abrigo para pessoas em situação de vulnerabilidade. Sem mais detalhes, o secretário afirmou que essa situação está sendo tratada com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), com o titular Matheus Xavier, para dar o acolhimento digno às famílias abrigadas no local.
Uma calçada foi construída entre o final da avenida Júlio de Castilhos e as proximidades da Estação Rodoviária, da Trensurb, para que as pessoas possam circular do Centro Histórico à rodoviária enquanto as obras na passarela não começam. Apesar da população já estar utilizando a rota, ainda falta uma rampa de acessibilidade para cadeirantes. A Trensurb está, simultaneamente, fazendo uma requalificação no seu espaço para a colocação de uma rampa na saída e para quem quiser fazer a travessia por dentro.
O Corredor Humanitário consolidou-se não apenas como obra de engenharia, mas como símbolo da reconstrução e da resiliência de uma cidade que segue em processo de transformação – e definitivo, como foi confirmado há pouco mais de um ano. "Decidimos pela permanência por duas razões: primeiro pela mobilidade, e segundo, pelo simbolismo do que aconteceu", justificou o secretário.