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Dia do Meio Ambiente: reverter mudanças climáticas no curto prazo é difícil, apontam especialistas

Para pesquisadores gaúchos, reversão do quadro é possível a partir de ações a nível global; localmente, necessidade está em planos para mitigar impactos

Especialistas destacam necessidade da elaboração de planos de ação climática e da educação ambiental para mitigar riscos
Especialistas destacam necessidade da elaboração de planos de ação climática e da educação ambiental para mitigar riscos Foto : Camila Cunha

Celebrado nesta sexta-feira, dia 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente tem como tema central em 2026, definido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a ação climática em escala global. A campanha deste ano reforça que o planeta não discute nem negocia, mas envia sinais de alerta para a sociedade de que é necessário promover cenários de resiliência e adaptação.

Mesmo assim, pesquisadores que atuam no Rio Grande do Sul alertam sobre a dificuldade de reverter o cenário das mudanças climáticas no curto prazo, sendo necessário buscar formas de mitigar riscos através de planejamento adequado. Para eles, as dificuldades enfrentadas no RS, como cheias, ondas de calor extremo, ondas de frio e estiagem, são os reflexos percebidos em nível local de algo que já dá as caras em todo o planeta há muitas décadas.

O biólogo e professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Pedro Maria Ferreira, aponta que um dos principais sinais dados pelo planeta está no aumento da média de temperatura atmosférica, com sucessivos recordes de temperatura nas últimas décadas. Neste sentido, a professora Danielle Paula Martins, líder do projeto Laboratório de Vulnerabilidades, Riscos e Sociedade (LaVuRS) da Universidade Feevale, recordou que a última década registrou os anos mais quentes, segundo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus.

“Perdas humanas e animais, comprometimento da saúde das populações, perdas na agricultura, aumento das perdas e danos nas áreas urbanas, gasto com recuperação pós-eventos extremos, prejuízos ao desenvolvimento econômico, social e humano de comunidades frequentemente impactadas pelos efeitos da mudança do clima são algumas das consequências que se acumulam”, apontou Danielle.

Para ela, além de resultantes de mudanças climáticas, esses reflexos também estão relacionados as escolhas e ações humanas, a partir da ausência ou fragilidade de políticas públicas de gestão e riscos de desastres, além da desigualdade social. Entre os exemplos dos sinais dados pelo planeta em função das mudanças climáticas estão os impactos causados nos ecossistemas, principalmente relacionados com alterações na biodiversidade que colocam determinadas espécies em risco de extinção, de acordo com Ferreira.

“A elevação do nível do mar, através da perda de cobertura de gelo e derretimento de calotas polares também acaba por liberar mais gás de efeito estufa. Também há a acidificação dos oceanos, causado pelas quantidades elevadas de dióxido de carbono no mar, que prejudica os recifes de corais. Existem vários trabalhos que mostram ainda que, com as mudanças de temperatura média da Terra, plantas acabam se deslocando para baixou ou para cima em cadeias de montanhas”, explicou o pesquisador.

Efeitos no RS

No Rio Grande do Sul, para Ferreira, os principais sinais registrados da mudança climática estão relacionados com o aumento da recorrência de eventos como enchentes, estiagem e ondas de frio e calor. Apesar de efeitos específicos localmente, a origem dessas mudanças, assim como em outros locais do planeta, ocorre de forma global. Esse ponto é destacado também pela professora da Feevale.

“Precisamos compreender que os efeitos das mudanças climáticas não respeitam limites políticos ou estabelecidos pelos humanos. É fundamental respeitar a dinâmica ambiental do planeta. Por exemplo, se existe desmatamento na Amazônia, nosso regime de chuvas no RS é afetado. É importante um trabalho integrado e coordenado para além do nosso Estado e do nosso país”, salientou a pesquisadora.

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Reverter é possível, mas mitigar é prioridade no curto prazo

Para ambos pesquisadores, mesmo com o planeta já enfrentando consequências das mudanças climáticas, ainda é possível buscar formas de reverter esse cenário. Entretanto, o professor Pedro Maria Ferreira aponta que, para isso, são necessárias ações em nível global. Por isso, no momento, o pesquisador entende que a prioridade é fomentar políticas e planejar ações com foco em mitigar os efeitos para a sociedade.

“Não é algo específico que se faz em uma cidade em termos de emissão de carbono que vai reverter um padrão global. A reversão não é inviável, mas tem relação com o clima no planeta inteiro. Então o foco é mitigar a partir do planejamento urbano, de uso de terra e no plano de adaptação climática para mapear riscos”, citou.

“Acredito que seja possível reduzir significativamente os riscos se o tema for prioridade, tiver investimentos financeiros, técnico e científico suficientes, se houver financiamento para uma transição energética e para a redução das desigualdades sociais, e principalmente, se houver maior compreensão das questões ambientais pela população em geral, garantindo a atuação cidadã adequada”, considerou a professora Danielle Paula Martins.

Planejamento de risco

Entre os temas apontados pelos pesquisadores que devem pautar o planejamento de risco por parte das autoridades está o zoneamento urbano, evitando a construção em áreas propensas a deslizamento ou inundação, na realocação de populações suscetíveis a eventos climáticos extremos, na implantação de projetos de infraestrutura verde, com soluções baseadas em natureza e a compreensão das vulnerabilidades e da desigualdade social registrada em uma mesma população.

“Precisamos de um plano de adaptação moderno e baseado soluções baseadas em dados. Além disso, existe a necessidade da população, principalmente local, estar ciente do que pode acontecer no seu território a médio e longo prazo. As pessoas precisam estar preparadas para esses eventos, sabendo se estão em um local que poderá ter problemas e o que fazer quando isso acontecer”, citou o professor da PUCRS.

Daniele destaca ainda que desenvolver medidas não estruturais também contribuições em ações de mitigação. “Estudos e avanço científico na compreensão das vulnerabilidades e riscos, e prioritariamente a preparação da população com educação ambiental e climática, farão a diferença e deverão garantir a efetividade das outras políticas e iniciativas de enfrentamento às mudanças climáticas e desafios ambientais atuais”, contou.

A professora considerou que o tema precisa ser melhor compreendido pela população através da educação ambiental. “Investimentos em formação de professores, de técnicos, de gestores públicos, de lideranças comunitárias e de empreendedores devem ocorrer com maior expressividade. A sociedade civil precisa compreender o seu papel, seja na prevenção, mitigação ou resposta aos eventos climáticos extremos. A escuta da ciência e das populações mais vulneráveis deve compor esse processo de aprendizagem e discussão coletiva de soluções”, ressaltou.

“Vulnerabilidades são diferenciadas”

O biólogo e professor da PUCRS assinala a necessidade da sociedade entender que não há segregação entre população e meio ambiente. “Às vezes há uma necessidade de colocar o meio ambiente como algo longe da sociedade. Nós somos o meio ambiente e dependemos dele, assim como o restante da natureza. Portanto, somo extremamente vulneráveis a qualquer alteração ambiental”, ressaltou Ferreira.

Ele também reforça que em datas comemorativas como a desta sexta-feira não há muito o que celebrar. “Na verdade, precisamos utilizar essas datas para alertar a população do quão dependente nós somos de todo o nosso entorno”, completou.

A professora da Feevale, Danielle Paula Martins, apontou a necessidade da identificação das dificuldades enfrentadas por parte da população e que aqueles que recorrentemente são mais impactados pelos desastres climáticos sejam priorizados nas políticas públicas. “Todos somos vulneráveis, mas as vulnerabilidades são diferenciadas. O combate às mudanças climáticas passa pelo combate à desigualdade para o alcance à justiça ambiental e climática”, disse.

Ela também defende a promoção de ações com objetivo de reconectar a sociedade com a natureza a partir da compreensão de unidade. “Nossas ações influenciarão a qualidade da vida humana e das outras espécies para melhor ou pior. Preservar o que temos, recuperar o que poluímos e repensar nosso estilo de vida e consumo serão decisivos para a nossa geração suportar as ameaças climáticas”, concluiu.

O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente em 2026 está centralizado nas mudanças climáticas | Foto: Camila Cunha