“Tudo o que faço começa por eles.” É com esta frase simples, forte e precisa, publicada em sua conta em uma rede social em janeiro deste ano, que o guia turístico Éverton Monteiro resume a relação com os dois filhos, ambos adotados, fazendo com que o morador de Porto Alegre integre uma estatística crescente no Brasil: a da monoparentalidade masculina, ou, como o termo é popularmente chamado, pais solo.
A história de Monteiro e seus dois filhos, Keven, hoje com 19 anos, e soldado da Polícia do Exército (PE), e seu irmão mais novo, Daniel, 16, obteve tamanho significado que vai integrar um livro sobre história de adoções e um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) acadêmico em breve, embora não seja a única. No caso deles, tudo começou de um jeito curioso, em uma época em que todos buscavam, de alguma maneira, uma separação: com a pandemia.
Em 2020, o profissional já atuava com turismo na Capital, porém com a Covid-19, o setor foi duramente afetado, e ele foi buscar a área da Educação. Diretor de um colégio em Canoas, na Região Metropolitana, conheceu Keven, então com 14 anos, morador de um abrigo local que tinha interesse em um curso voltado a Jogos Digitais da grade do colégio. A assistente social que o acompanhava disse que ele havia se inscrito para o curso, mas não tinha condições de pagar.
Com eles, havia mais um garoto, que possuía uma madrinha na casa de acolhimento e pagaria para ele. Comovido, o gestor decidiu ajudar, obtendo uma bolsa parcial com a ajuda de amigos da escola. A aproximação foi natural, segundo ele, fazendo com que a casa de acolhimento oferecesse para Éverton ser seu padrinho, por meio de um programa de apadrinhamento afetivo, que permite o acolhimento voluntário de crianças nesta condição, inclusive para atividades fora do espaço abrigado.
Deu certo, com Keven visitando Éverton regularmente aos finais de semana, e conhecendo o cão Osvaldo, que até hoje faz parte da família. No Dia das Crianças de 2021, o gestor foi ao abrigo e conheceu Daniel, na época com 11 anos. Ele olhou para o padrinho do irmão mais velho e fez um pedido genuíno: “Tu tem levado meu mano para passear, leva eu também”. A partir daí, Éverton ingressou nos trâmites de apadrinhamento novamente com Daniel e teve sucesso.
Paternidade que começou a surgir
Após, a relação de afeto dele por ambos foi ainda mais fortalecida, e a ideia da paternidade começou a surgir no adotante, porém os meninos possuíam um vínculo biológico com uma tia, responsável por eles após a morte do genitor de ambos. “No entanto, o relacionamento entre eles era delicado e carregava um histórico de maus-tratos, principalmente com o caçula”, diz o texto, apesar de eles a visitarem em algumas ocasiões.
No final de 2021, havia um planejamento para que eles passassem o Natal com a tia e o Réveillon com Éverton, que estaria em Florianópolis. No entanto, ambos solicitaram ao abrigo para estarem nas duas datas com ele, o que foi cumprido, e depois pediram uma extensão da estadia. De volta a Porto Alegre, a rotina do profissional incluiu cada vez mais o contato com os irmãos, durando, ao todo, dois meses. O abrigo demandou-os de volta para uma readaptação, mas Éverton declarou o desejo de ser pai de Keven e Daniel.
Dia dos Pais: Éverton Monteiro e seus dois filhos
Durante audiências judiciais online iniciadas em março de 2022 e que levaram semanas, os meninos se mantiveram na casa de Éverton e frequentavam uma escola municipal próxima. O juiz determinou uma experiência familiar de 90 dias e logo depois desta ordem, a frase de Daniel se tornou emblemática: “Ah, se é experiência familiar, então agora tu é pai.” Para Keven, então com 15 anos, o processo levou um pouco mais de tempo, mas logo aceitou a nova dinâmica.
Em julho de 2022, Éverton obteve a guarda provisória dos irmãos, e o processo somente foi concluído em março de 2023. Outra dificuldade própria veio com as enchentes, quando recém ele havia retornado a trabalhar com as atividades turísticas, agora restabelecidas outra vez. “As dificuldades, agora, de ter um filho adulto iniciando sua vida depois de pouco tempo de paternidade são ainda mais difíceis, porque eu não tive eles desde a infância. Porém conseguimos criar um vínculo muito importante, e agora consigo ver que eles estão trilhando seu próprio caminho, fazendo suas coisas, o que até me deixa um pouco apreensivo”, salientou Monteiro.
“Olho para minha vida e vejo o quanto tudo mudou depois que viramos uma família. Erro muito, mas aprendo. Tento de novo, me preocupo, dou bronca, ensino e também aprendo. É (às vezes) não saber o que fazer e ir descobrindo junto. Para mim (a paternidade) foi ‘do nada’, e pensar que, do nada, viramos uma família, com problemas, diferenças, histórias. O Dia dos Pais representa isso, é estar por eles e continuar aqui, todos os dias”.
Percentual em crescimento sobre o total de famílias
De maneira geral, o número de pais solo estão em trajetória crescente no Brasil. Conforme o Tribunal de Justiça do RS (TJRS), havia, na semana passada, 53 candidatos habilitados a pais solos no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento no Rio Grande do Sul, porém o tribunal destacou não ser possível saber quantos adotantes se enquadram neste perfil.
E de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles eram 2% das famílias brasileiras no Censo Demográfico 2022, contra 1,8% em 2010 e 1,5% no Censo 2000, dentro da categoria designada como homens sem cônjuge e com filhos. Os números, porém, são uma fração das mães solo, ou mulheres sem cônjuge com filhos, com 13,4% em 2022, 12,2% em 2010 e 11,6% em 2000.
Em sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Economia Doméstica na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, defendida em 2019, a pesquisadora Leiliane Souza Bhering, que estudou as dinâmicas das famílias monoparentais masculinas, compilando dados do IBGE, descobriu que este fenômeno é predominantemente urbano, presente em 91,4% dos lares do tipo em 2015, contra 8,6% no meio rural. Em 2005, eram 90,9% e 9,1%, respectivamente.
Em termos financeiros, o rendimento médio mensal do pai solo cresceu 91,6% no período, alcançando 2,6 salários mínimos em valores de 2015, equivalente a pouco mais de R$ 2 mil. Outro aspecto é que o número médio de filhos por lar masculino solo reduziu, de 1,7 para 1,5 entre 2005 e 2015, sendo que a maioria dos lares, 62,8%, abrigava somente um filho. E a maioria dos filhos, como nos casos de Keven e Daniel, era masculina também, com 62,7%, e adolescentes na faixa etária entre 15 a 19 anos, com 24%.