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Especial: Desafios da medicina na era da desinformação

Neste Dia do Médico, profissionais alertam para riscos de autodiagnósticos e tratamentos baseados em conteúdos pesquisados na Internet

Ansiedade por entender questões de saúde deixa pacientes suscetíveis a falsas promessas
Ansiedade por entender questões de saúde deixa pacientes suscetíveis a falsas promessas Foto : Fabiano do Amaral

Inteligência artificial (IA), mídias sociais e a Internet, de maneira geral, tornaram as informações sobre saúde mais acessíveis aos pacientes. Hoje, é comum pesquisar sobre determinada doença no Google, encontrar dicas de saúde nas redes ou inserir sintomas no ChatGPT em busca de orientação.

O problema surge quando essas consultas são feitas em fontes não confiáveis, sem acompanhamento de um médico ou quando as informações incentivam uso de medicamentos sem prescrição. Atualmente, proliferam conteúdos sem embasamento científico, mitos já desmentidos pela ciência e tratamentos milagrosos que prometem solucionar questões complexas em pouco tempo.

Tudo isso torna o papel do médico ainda mais importante. Além de acolher, informar e tratar os pacientes, o profissional agora tem o papel de combater a desinformação e desmistificar autodiagnósticos baseados em conteúdos de redes sociais ou IA. Neste Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, os profissionais reafirmam que, apesar dos avanços que a tecnologia proporciona, a essência da medicina continua residindo em uma boa relação médico-paciente.

Veja o especial do Dia do Médico

Falsos médicos

Recentemente, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) emitiu uma nota para alertar sobre o exercício ilegal da profissão. O órgão denuncia que, com o avanço da inteligência artificial, é possível criar personagens que se apresentam como médicos e divulgam informações sobre doenças, tratamentos e medicamentos nas redes. “Os conteúdos podem reproduzir características de uma pessoa real, como aparência e voz, mas não comprovam a identidade ou a habilitação profissional”, afirma a nota.

Em setembro, o Ministério da Saúde identificou 97 perfis no YouTube que utilizam IA para simular médicos e outros profissionais da saúde e disseminar informações falsas, incluindo promessas de curas e tratamentos sem comprovação científica. “Os conteúdos usam avatares de aparência humana apresentados como médicos ou especialistas, atribuem qualificações profissionais fictícias e recorrem a linguagem alarmista para conferir credibilidade às informações”, diz nota da pasta.

A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou o Google, responsável pelo YouTube, para que removesse essas contas e alertasse os usuários sobre os riscos à saúde associados a esse tipo de conteúdo. Em resposta, a plataforma removeu 46 canais e onze vídeos com falsos médicos criados por inteligência artificial. O Google também informou que outros 32 canais e quatro vídeos listados na notificação já estavam indisponíveis quando recebeu o documento. Dois canais foram desmonetizados, ou seja, deixaram de gerar receita para seus criadores por meio de anúncios na plataforma.

Promessas milagrosas

A disseminação de informações falsas é apontada como um dos efeitos mais nocivos das redes sociais sobre a saúde pública. A facilidade de acesso à informação pode dar lugar a riscos clínicos. Para o vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, a linguagem acessível e as promessas de resultados rápidos são fatores que atraem a atenção dos pacientes.

“Essas informações muitas vezes falsas trazem soluções fáceis, mágicas, mas com uma dada roupagem, com alguém utilizando um título de doutor para dar certo cunho de autoridade. Muitas vezes são os caminhos mais fáceis de cura para o câncer, coisas até mesmo absurdas. O caminho mais fácil acaba sempre vendendo a questão da vida eterna, da juventude eterna, isso é muito perigoso”, afirma.

O diretor-técnico do Hospital Universitário (HU) de Canoas, Fernando Farias, alerta que os conteúdos falsos também geram dúvidas sobre tratamentos médicos seguros.

“Muitas vezes tem mitos que se consagram com alguns medicamentos, alguns tratamentos alternativos que a Internet traz. E isso acaba fazendo o paciente abandonar um tratamento seguro, um tratamento que é direcionado, por essas falsas informações e esses mitos que se criam, até de curandeirismo.”

A situação se torna ainda mais grave quando os pacientes tomam decisões com base em informações encontradas na web. Um exemplo é o uso das chamadas canetas emagrecedoras. De aplicação simples e resultados que podem ser percebidos em pouco tempo, elas ganharam popularidade no país. O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, é um medicamento injetável indicado para o tratamento de diabetes tipo 2. Também é utilizado no controle crônico do peso em pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades.

Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva mostrou que 62% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que utiliza ou já utilizou esses medicamentos. O levantamento também acendeu um alerta: cerca de quatro em cada dez usuários adquiriram o produto sem prescrição médica, pela Internet ou no Exterior.

Os riscos dessa prática ficam evidentes no relato da diretora-médica da Doctor Clin, Michele Gracioli Schneider, que atua no setor de emergência.

“Acho que isso acontece em quase todos os plantões. Na época da Covid-19, vivi inúmeras situações dessas. Agora mesmo tive uma, de uma paciente que viu uma postagem sobre Mounjaro, conseguiu comprar sem receita e utilizou uma dose que ela tinha visto na Internet, que não era apropriada para ela e fez uma pancreatite, que é um dos efeitos da droga, um efeito colateral que a gente, como médico, sabe que pode acontecer e orienta, monitora os sintomas”, conta.

Ela destaca que diferentes profissionais e até pessoas sem formação na área da saúde orientam o uso das canetas nas redes, aproveitando a popularidade. “Sou super favorável ao uso, elas vieram para revolucionar o tratamento da obesidade, dar qualidade de vida a uma imensa parcela da população. Mas é algo que precisa de cuidado. É um tratamento médico em condições específicas e que deve ser bem pensado”, alerta.

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