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Dia do Médico: Uma geração ansiosa por soluções rápidas

Ansiedade e angústia por entender questões de saúde na Internet tornam os pacientes mais suscetíveis a acreditar em falsas promessas

Buscar por sintomas pode resultar em respostas genéricas
Buscar por sintomas pode resultar em respostas genéricas Foto : Magnific / CP

Além de informações equivocadas, os usuários das redes sociais e da Internet estão sujeitos a um volume enorme de conteúdos sobre os assuntos que pesquisam. Experimente buscar informações sobre saúde no Google e, minutos depois, navegar pelos stories ou abrir a aba “Explorar” do Instagram. Surgem propagandas de produtos relacionados ao tema, inúmeras dicas sobre o que fazer ou tomar e uma enxurrada de informações que dificulta identificar as fontes e distinguir o que é verdadeiro do que não é.

Para o vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, esse excesso de informações tem gerado angústia e ansiedade na população, o que também afeta a dinâmica emocional das consultas médicas. Ele alerta ainda para a falta de leitura crítica dos conteúdos publicados nas redes sociais.

“Muitas vezes a primeira questão é que esse excesso de informações está gerando uma geração angustiada. A segunda é as pessoas voltarem a quase um analfabetismo digital, sem saber fazer uma leitura crítica do que estão lendo. Pensar: ‘aquilo ali não é baseado em evidência, aquilo ali é baseado na experiência de um indivíduo’. Esse é o cuidado que se deve ter”, explica o médico.

A ansiedade e a angústia por encontrar soluções rápidas para os problemas tornam os pacientes mais suscetíveis a acreditar em promessas milagrosas. Diante desse cenário, o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias, reforça que os tratamentos são individualizados e que publicações com promessas de soluções fáceis tendem a não ser confiáveis.

“Eu costumo dizer, quando dou aula na faculdade, que o melhor tratamento é um tratamento que seria absolutamente baratíssimo, que não tivesse qualquer efeito colateral e que tivesse todos os efeitos positivos do mundo. Mas esse tratamento não existe. Portanto, se alguém está oferecendo algo que parece ser milagroso, provavelmente não é verdadeiro. Porque as coisas verdadeiras não são próximas do milagre, são muito próximas de toda a evolução científica, em que a gente tem sempre riscos e benefícios de quaisquer que sejam os tratamentos”, afirma.

Comunicação assertiva

A diretora-médica da Doctor Clin, Michele Schneider, também faz uma autocrítica. Ela avalia que os conteúdos sobre saúde nas redes sociais acabam suprindo uma falha de comunicação dos próprios médicos. “Nem sempre nós, médicos, nos comunicamos de uma forma adequada. Nem sempre a gente tem o tempo à disposição, uma forma de comunicação clara, e a rede social acaba preenchendo essa lacuna”, avalia.

“São mensagens curtas feitas por pessoas que têm engajamento, que tem uma certa credibilidade social e que mostram um caminho alternativo, um caminho de esperança que, nem sempre, nós como médicos conseguimos dar”, pondera a especialista.

A inteligência artificial inegavelmente facilitou a busca por informações sobre saúde. Hoje, basta digitar os sintomas em uma ferramenta de IA para receber, em poucos segundos, possíveis diagnósticos e sugestões de tratamento. Informações sobre medicamentos também estão a poucos cliques, na palma da mão, o que, por si só, pode ser positivo para a população.

O problema surge quando, após consultar informações na Internet e nas redes sociais, o paciente conclui que tem determinada condição de saúde e procura um médico exigindo a conduta que encontrou on-line.

“Os pacientes chegam com diagnóstico e muitas vezes desafiam o médico ou ficam testando o médico durante a consulta. Isso está sendo muito comum. Isso tem certamente gerado mais desconfiança e, muitas vezes, o médico está se tornando um mero chancelador do que a inteligência artificial concluiu”, relata o vice-presidente do Cremers.

O diretor-técnico do Hospital Universitário (HU) de Canoas, Fernando Farias, acrescenta que alguns pacientes chegam ao consultório solicitando fármacos que conheceram na Internet.

“Já pedem um medicamento que leram na Internet, que aquilo é bom e se o médico poderia receitar. Então, na verdade, um médico passa a ser um intermediário. É claro que nenhum médico que seja um profissional correto vai fazer isso. Mas essa conduta não é incomum. Não é uma nem duas, são várias, são dezenas de pessoas”, relata.

Muitos pacientes não se dão conta de que os tratamentos são individualizados. Cada organismo tem um histórico e características próprias, como altura, peso, alergias e outras particularidades, que nem sempre são consideradas nas informações fornecidas à inteligência artificial por meio de um comando, também chamado de prompt.

Respostas genéricas

“A inteligência artificial tem que ser vista como uma ferramenta. Não que a informação que a inteligência artificial leve a um caminho equivocado. A questão é como a pessoa fez as perguntas para a IA. Isso pode levar para um caminho, às vezes, desastroso, levando a sequelas ou até mesmo a óbito”, alerta Trindade.

O presidente do Simers, Marcelo Matias, lembra que a inteligência artificial pode fornecer respostas genéricas, baseadas nos padrões mais comuns de seu banco de dados, o que também torna a tomada de decisões mais arriscada.

“É muito impressionante, porque a gente tem uma experiência com a IA criando coisas que efetivamente não existem. Isso é extremamente perigoso, pois, no final das contas, a gente acaba desumanizando um pouco, de uma forma que parece mais simples, mas não se deve fazer isso”, adverte o profissional.

Os médicos ressaltam que o risco não está simplesmente em consultar essas ferramentas em busca de conhecimento, mas em tomar decisões com base em informações encontradas nas redes sociais ou fornecidas pela inteligência artificial. Essa busca, inclusive, é reconhecida e valorizada pelos profissionais.

O superintendente-médico do Hospital Moinhos de Vento, Luiz Antonio Nasi, conta que conversa com seus pacientes sobre os conteúdos e as informações que eles trazem da Internet.

“Quem fez um autodiagnóstico, quando procura o médico, quer saber se está certo. O que temos que fazer é dizer se aquele conhecimento tem ou não tem comprovação, se há ou não estudos que deem suporte a uma decisão. E aprendemos juntos”, conta. “Não é uma nem duas vezes que o paciente diz: ‘Estou tomando isso, isso e isso. Funciona, faz bem?’. E eu respondo: ‘Não sei. Vamos olhar’. Às vezes acesso o computador e o chat na frente dele”, relata.

A profusão de informações e a facilidade de acesso ao conhecimento parecem, inclusive, ter tornado os pacientes mais exigentes. Diante desse desafio, não basta ao médico se impor pelo diploma, pela experiência ou pela autoridade. Michele recomenda que os profissionais evitem o confronto. É preciso acolher as angústias, ouvir as informações trazidas pelos pacientes e explicar detalhadamente as condutas adotadas e os fundamentos que as sustentam.

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