Passados cerca de 30 meses da enchente histórica de maio de 2024, as obras do novo complexo da Defesa Civil Estadual entraram em uma nova etapa. Os trabalhos nos centros de Gestão e Logística do órgão no bairro Jardim Carvalho, na zona Leste de Porto Alegre, no terreno onde funcionava a antiga sede CEEE, iniciaram em maio deste ano e devem ser concluídos até março de 2027. O investimento no complexo é de mais de R$ 105 milhões.
Após pequenos atrasos em função da limpeza do terreno destinado à Defesa Civil, de cerca de 4 hectares, e dos prédios que estão sendo reformados, a segunda etapa iniciada há poucas semanas marca o início das obras na parte interna dos imóveis. Até então, os serviços estavam sendo realizados no reforço e nas adequações da parte externa das estruturas, construídas na década de 1970.
Depois de concluídas as obras, previstas para meados do primeiro semestre do próximo ano, toda a estrutura da Defesa Civil Estadual, atualmente localizada em diferentes espaços no Centro Histórico, será transferida para o complexo. Os centros de Gestão e Logística serão entregues já mobiliados e com equipamentos de informática para os servidores que atuarão nos imóveis.
De acordo com o coronel Luciano Boeira, coordenador da Defesa Civil Estadual, os projetos de ambos prédios levaram em consideração pontos considerados essenciais para a operação do órgão e, principalmente, para sua atuação em momentos de crise. Ele também destacou a agilidade no andamento das obras de recuperação do prédio e do pavilhão que serão da Defesa Civil.
“Todas as necessidades que identificamos nos piores momentos da nossa história serão contempladas neste prédio. A velocidade com que as coisas estão acontecendo no Rio Grande do Sul após o desastre é algo que não é registrado em nenhum outro lugar do mundo. Mas é claro que ela pode não acompanhar a ansiedade das pessoas que tiveram água até o teto das suas casas”, apontou Boeira.
O Correio do Povo realizou uma visita exclusiva para acompanhar o andamento da obra no novo complexo da Defesa Civil. Além do coronel Boeira, a reportagem foi acompanhada pelo engenheiro Leandro Taborda, lotado no órgão estadual, e pelos engenheiros Adolfo Freire e Luiz Carvalho, do Consórcio de Gestão Integrada, responsável pelos projetos e pela execução da obra.
Centro de Gestão Integrada
Chamado de Centro Estadual de Gestão Integrada de Riscos e Desastres (Cegird), o prédio que será a sede da Defesa Civil Estadual teve parte da estrutura atingida por um incêndio ainda em 2009, quando sediava um departamento da CEEE. Ele chegou a passar por reformas estruturais após o sinistro, mas não chegou a ser utilizado para outras funções desde então.
Com a reforma, ele passará a ser o cérebro da gestão da Defesa Civil Estadual, estando interligado com outras nove unidades regionais. O espaço contará com estrutura de apoio para garantir seu funcionamento mesmo em momentos de crise. A partir da obra, o imóvel terá também um anexo, onde será instalado o centro de monitoramento meteorológico.
A sala dos coordenadores do órgão e do governador ficará no segundo andar do prédio principal, com estética de conceito aberto para poder acompanhar as telas das equipes de monitoramento, no anexo. O imóvel também contará com um auditório que será utilizado tanto em eventuais coletivas ou anúncios, como para capacitação de equipes.
Algumas alas do prédio se manterão ociosas. Mesmo assim, o objetivo é que elas venham a ser ocupadas por servidores de diversas secretarias, órgãos de governo e instituições parceiras em momentos de crise. Essa transferência ocorreu em 2024, quando algumas secretarias do Estado foram instaladas provisoriamente nos demais prédios do complexo.
“Esse prédio é o símbolo desses avanços que tivemos na Defesa Civil. Ele vai materializar todos os projetos que aconteceram. O centro carrega todo um conceito de edifício de missão crítica, pois vai possuir redundância em diversos aspectos, como a alimentação de energia, transmissão de dados e outras tecnologias. E vamos levar esse mesmo conceito para as nossas regionais”, contou.
Como a licitação de construção do Cegird prevê a inclusão de mobiliário e equipamentos de informática e tecnologia, Boeira explica que a transição de um local para outro será facilitada. “É um modelo de contratação integrada, onde o consórcio vai fazer tudo do início ao fim, da obra até a instalação dos equipamentos de tecnologia. Nós vamos receber a chave do prédio, entrar com o corpo técnico e trabalhar”, completou Boeira.
Mesmo com as obras avançando no complexo, elas não deverão ficar prontas até o pico dos efeitos do Super El Niño, esperado para ocorrer nos últimos meses de 2026. O custo total da obra do Cegird é de R$ 70.284.594,59. O acesso ao prédio onde funcionará a Defesa Civil será pela rua Engenheiro Sylvio Freitas, que hoje é uma via de acesso local dentro do complexo da antiga sede da CEEE e será implementada dentro do projeto.
“A obra cumpre rigorosamente o cronograma que está previsto. Estamos em um ano de El Niño, onde temos maior volume de chuvas e eventualmente pode ocorrer algum atraso. Mas acreditamos que essa obra será finalizada dentro do prazo previsto. Penso que esse será um projeto que ficará como um grande legado para o Estado, principalmente olhando para o futuro”, observou.
Centro de Logística Humanitária
No mesmo terreno de cerca de 4 hectares do complexo, também está sendo estruturado o Centro Estadual de Logística Humanitária (CLOG). O local servia como depósito de veículos e materiais da CEEE e, durante as enchentes de 2023 e 2024, foi utilizado como base de recebimento e distribuição de donativos.
Dentro do pavilhão, de 8 mil metros quadrados, serão instalados cinco mezaninos metálicos para a organização dos materiais de ajuda humanitária, como itens de alimentação, higiene e limpeza, além de lonas e telhas. Ao todo, o espaço para armazenamento terá 5 mil metros quadrados. O centro terá ainda áreas administrativas e espaços de uso comum e lazer, como refeitório e academia.
Como parte do modal rodoviário foi afetado durante os eventos de 2024, a área externa do CLOG contará com um heliponto de 1,6 mil metros quadrados, projetado para receber helicópteros de grande porte, de até 20 metros de comprimento, e que poderão ajudar no escoamento dos donativos para áreas isoladas. O espaço contará ainda com pátio para estacionamento de até três aeronaves.
O investimento total para a obra do Centro de Logística é de R$ 35.371.568,78. Conforme a equipe de engenharia, o maior desafio na obra do pavilhão está sendo a demolição manual das paredes internas do imóvel. Também está sendo executada a recuperação do telhado, assim como a impermeabilização e reforma na drenagem da estrutura.
Em função da possibilidade de chuva para os últimos meses do ano, em função do El Niño, a equipe acredita que podem ser registrados atrasos principalmente na construção dos helipontos, onde é necessário realizar a movimentação do solo. O acesso para o CLOG será pela avenida Joaquim Porto Villanova, quase na esquina com a avenida Ipiranga. O pavilhão já possui uma estrutura para carga e descarga de caminhões neste acesso.
Integração com centros regionais
Além da central em Porto Alegre, outras nove unidades regionais serão construídas no interior do RS. Algumas delas já estão com edital publicado, mas ainda não há uma estimativa concreta de quando serão construídas. A prioridade, segundo a Defesa Civil Estadual, são os Centros Regionais de Gestão Integrada de Riscos e Desastres Naturais (CRGIRD) localizados em cidades no chamado “caminho das águas”.
Elas contemplam as regiões de Santa Maria, Lajeado, Caxias do Sul e Pelotas. Entretanto, também serão construídos complexos em Tramandaí, Frederico Westphalen, Uruguaiana, Santo Ângelo e Passo Fundo. As três primeiras, no Litoral Norte, na Fronteira-Oeste e no Noroeste do RS, terão seus editais lançados entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027.
Os nove complexos regionais terão similaridades com o complexo estadual de Porto Alegre. Todos terão um prédio administrativo com equipamentos de monitoramento, focados nas características de cada região, além de um centro de logística e heliponto. Cada unidade terá cerca de 6 mil metros quadrados e estará localizada nas proximidades de outros órgãos estratégicos, como quartéis, batalhões e aeroportos.
“Aprendemos da pior maneira possível nas enchentes de 2023 e 2024. Tivemos colapso de rodovias e de aeroportos. Por isso, tivemos muitas dificuldades com a logística humanitária para chegar nas diversas regiões do nosso Estado. Então, pensamos no centro estadual e nos centros regionais justamente para atender todas as dificuldades que tivemos no momento do desastre”, salientou Boeira.
- Autorizado o início das obras de construção das Casas de Bombas 9 e 10 no dique Mato Grande, em Canoas
- Manual auxilia escolas no enfrentamento a eventos climáticos
- Exposição da Federasul destaca seus 100 anos de história
- Academia Rio-Grandense de Letras inaugura memorial em homenagem a escritores falecidos
Aparelhamento da Defesa Civil
O coordenador da Defesa Civil Estadual destacou ainda o aparelhamento que vem sendo feito no órgão desde as enchentes de 2023 e de 2024. Segundo ele, até os desastres climáticos, o quadro de servidores tinha cerca de 40 profissionais apenas. Passados 30 meses, o órgão já conta com quase 170 servidores, entre civis e militares.
“”Em meados de 2024, apresentamos um projeto para o programa de gestão integrada de riscos de desastres. A partir dele, entendemos a necessidade do incremento de pessoas. A Defesa Civil não tinha alguns profissionais de determinadas áreas e agora tivemos esse reforço técnico com engenheiros, contadores e meteorologistas, por exemplo”, contou.
Além da inclusão de profissionais, outro avanço destacado é a padronização e inclusão de conceitos e boas práticas registradas em outros lugares do Brasil e do mundo na proteção e defesa civil, a partir de missões e capacitações. Boeira ainda apontou a destinação de servidores em cada secretaria do Estado para trabalhar as pautas de proteção e defesa civil como essencial para que o tema transite também de forma multissetorial em outras áreas do governo.
O coordenador ressaltou ainda os investimentos feitos em infraestrutura de monitoramento, com a contratação de radares para uma cobertura completa do território gaúcho e a aquisição de 130 estações hidrometeorológicas. Para Boeira, esses equipamentos farão com que o Estado tenha a melhor rede de monitoramento do país, sendo fundamental para a próxima gestão do órgão e a proteção dos gaúchos.
“Nosso compromisso é para que as próximas pessoas que vierem a integrar a Defesa Civil não passem pelas mesmas dificuldades que tivemos de enfrentar. Só nós sabemos como foi conseguir dar atenção para as pessoas de 478 municípios impactados com 40 pessoas e, ao mesmo tempo, olhar para o futuro. Esses projetos foram pensados com esse olhar e é gratificante ver o que foi feito e onde chegamos para entregar para os gaúchos um Estado mais preparado”, concluiu.
Confira mais detalhes das obras no complexo