Por Letícia Pasuch e Renê Almeida
A inteligência artificial já é muito utilizada na prática médica, desde organização de escalas, preenchimento de questões burocráticas, auxílio no diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças. Entre os profissionais, é consenso de que a ferramenta chegou para ajudar e potencializar o atendimento ao paciente. No entanto, o protagonismo da medicina deve seguir com o médico. É ele quem toma as decisões e conduz o tratamento do paciente.
Na próxima quarta-feira, dia 26, entra em vigor uma nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que vai oficializar essa diretriz. A norma assegura ao médico o direito de utilizar ferramentas de IA como apoio à decisão clínica, à gestão em saúde, à pesquisa científica e à educação médica continuada, desde que sejam respeitados os limites éticos e legais da profissão.
Segundo o documento, o uso de IA não pode comprometer a relação médico-paciente e o profissional não poderá ser responsabilizado indevidamente por falhas atribuíveis especificamente aos sistemas de IA (desde que comprovado o uso diligente, crítico e ético da ferramenta). Já o paciente tem o direito de ser informado, de forma clara e acessível, sempre que a tecnologia for utilizada.
No evento Summit Talks: IA na Medicina, realizado na última semana pelo Correio do Povo no Campus II da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, médicos, professores e advogados abordaram os principais impactos da inteligência artificial na prática médica. Durante cerca de quatro horas, os profissionais destacaram que a ferramenta abre muitas possibilidades para o melhor atendimento do paciente e auxilia na formação dos novos médicos. A tecnologia não pode deixar de ser utilizada, mas deve servir como apoio, consulta, acompanhamento e simulação de casos reais. O consenso nos depoimentos vai ao encontro do que o CFM oficializa: a decisão final é sempre do médico.
OS USOS DA IA NA PRÁTICA MÉDICA
“A inteligência artificial veio para ficar. E não pode ser terra de ninguém. Temos que sair da zona de conforto. Não dá para ir contra as tecnologias, você tem que saber incorporar direito”, destacou o cirurgião, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Eduardo Neubarth Trindade. Cada vez mais indispensável para uma atividade que costuma demandar tempo e energia, a tecnologia promove uma automação no atendimento mas, também, na elaboração de diagnósticos, tratamentos e prevenção de doenças.
O gasto de energia do médico com outras atividades, muitas delas administrativas, é nomeado de fricção por Thiago Dal Bosco, conselheiro do Cremers e especialista em Medicina do Trabalho, saúde corporativa e tecnologia. Diferentes estudos apontados pelo profissional indicam que o médico dedica menos de 1/3 do tempo exclusivamente ao paciente no atendimento e o restante é gasto em trabalhos burocráticos. Essa fricção é composta por processos de preenchimento de documentações, registros clínicos, justificativas de exames, elaboração de autorizações e, até mesmo, o chamamento de algum paciente.
“Quantos de nós, médicos, já nos vimos cansados porque terminamos a consulta e temos um monte de papel para preencher. O paciente, às vezes, sai pensando que eu não vou conseguir tirar um tempo para realmente trabalhar para ele. Tudo isso foi gasto e custo desse tempo e insatisfação.”
A consequência dessa ausência está na insatisfação do paciente com o atendimento, pontuou o cirurgião vascular, conselheiro do Cremers e consultor de IA na medicina, Vinicius Lain. "O objetivo da medicina é o ser humano, e a gente precisa centralizar esse cuidado médico". Para o especialista, a inteligência artificial precisa ser uma ferramenta que auxilie nessa atenção durante o tempo de cuidado em que o paciente está na frente do profissional.
Dal Bosco ressalta que a tecnologia jamais irá substituir o médico. “Existe automação e existe a IA”, sintetiza. É mais fácil comparar que a tecnologia é como uma assistente. “Quando coloca um transcritor da sua consulta, ele está automatizando ela, está melhorando o seu tempo e o seu processo.”
Na avaliação de Lain, a IA pode ser útil para compilar todos os dados históricos de um paciente que estão disponíveis nos sistemas de saúde, de modo que eles fiquem não só mais organizados para o profissional, como também auxiliem na investigação de um diagnóstico ou de um tratamento, já que cada caso é individual e leva em consideração patologias multifuncionais. A tecnologia pode “juntar o caos de dados” em um sistema inteligente, nas suas palavras.
O principal objetivo, segundo Lain, é que a medicina deixe de ser apenas reativa, quando o paciente procura o serviço no momento em que não se sente bem, para que seja preditiva, de modo que seja possível projetar a necessidade de uma cirurgia. Ou, até mesmo, a medicina antecipatória, em que será possível detectar se um exame precisa ser feito antes do período recomendado.
“A gente tem que começar a repensar essa quantidade de estresse na vida médica e manter a qualidade essencial, quando a gente tem ferramenta que nos auxilia a estar presente naquele lugar, a estar disponível para aquele paciente, mas sem suprimir a nossa saúde própria e nem a qualidade tempo que a gente passa com nossos familiares.”
CUIDADOS COM A TECNOLOGIA
Ainda que a tecnologia venha para facilitar a prática médica, ela também requer cuidados, considerando que a ferramenta tira conclusões a partir de uma base de dados. “Qual é essa base de dados? Como vou usar aquela informação?” são questionamentos pontuados por Eduardo Neubarth Trindade, do Cremers.
O profissional não pode se deixar levar pelas conclusões dadas pela inteligência, considerando que ela pode também levar a respostas erradas e fazer com que o paciente seja submetido a tratamentos equivocados. É necessário, portanto, um trabalho de checagem e verificação.
A qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta, destacou Dal Bosco. Portanto, é importante dar um contexto para a IA, deixando claro o que quer e quais são as diretrizes. Perguntas boas geram respostas úteis, sintetiza. “A IA vai ter que responder aquilo que tu perguntares para ela.” Ele lembra que a tecnologia também tem as suas fraquezas, criando referências e dados falsos. “Por que a IA, às vezes, é fraca? Porque a tendência é sempre ela responder a sua pergunta de forma muito efetiva, preencher as lacunas e te dando confiança que aquela resposta é muito boa.” Nas palavras do profissional, a IA é muito mais um mecanismo de linguagem do que necessariamente de inteligência.
OTIMIZAR O USO DA IA
Entre as principais dicas para que a ferramenta possa ser eficiente para o profissional, Dal Bosco indica estabelecer bem o problema clínico no momento de elaborar o comando. Na prática, formar uma pergunta bem estruturada. Mais importante é revisar o que foi indicado pela IA, verificando a veracidade. O melhor caminho é ir direto na fonte.
Para que todo esse trabalho seja otimizado com a tecnologia, é necessário saber utilizar bons prompts, ou seja, a instrução ou o comando enviado para a IA, destacou Felipe Cabral. O bom uso da tecnologia pode colaborar para a execução das tarefas que tanto consomem a energia do profissional. “Como posso transformar a dor em uma solução, em um aplicativo no qual eu possa usar diariamente e que possa me ajudar a pegar o meu tempo e gastar somente com o paciente, somente na qualidade do meu atendimento?”
A IA pode auxiliar em tarefas administrativas, controle dos casos dos pacientes, elaboração da escala de plantão e de relatórios, entre outros sistemas que podem ser otimizados. A principal dica de Cabral é começar o comando destacando o desafio, não a solução. Mostrada a solução, é necessário, também, cortar tudo que possa ser descartado.
Para ele, quando se pensa na utilização da IA para resolver problemas, a principal pergunta que deve ser feita não é “quem vai construir para mim?”, mas sim, “qual dor resolvo primeiro?”, de modo que as ferramentas consigam resolver problemas que, antes, seriam apenas a cargo de outro setor, mas que, hoje, podem ser cada vez mais automatizados. “Acho que todo mundo pode estar preparado para usar a IA, desde que use com critério, ética e boa evidência”, pontuou Dal Bosco. Independentemente do poder da tecnologia, a afirmação é categórica entre todos os profissionais: a responsabilidade do médico é intransferível.
FORMAÇÃO
“A tecnologia pode interpretar milhões de dados em segundos. Mas somente o ser humano é capaz de interpretar um silêncio.” A frase do coordenador do curso de Medicina da Feevale, Leandro Orlandini, resume bem o foco da formação médica em tempos de inteligência artificial: o contato humanizado entre médico e paciente. A evolução das ferramentas demanda a preparação dos alunos para o manuseio e a aplicação correta. No entanto, professores reforçam que a IA deve ser utilizada de forma crítica, em que o profissional deve ser capaz de identificar as limitações, erros e vieses da ferramenta. “A gente tem um desafio grande de transformar esse letramento de um aluno que é mais jovem que nós e que não carrega consigo experiência dentro da medicina, experiência de uso crítico de uma ferramenta tão nova”, avalia Orlandini.
Na Feevale, o curso de Medicina oferece disciplinas optativas e regulares sobre este conteúdo. Segundo o coordenador, a IA é utilizada na formulação de questões de simulados alinhadas a exames de residência, simulações de casos clínicos, desenvolvimento de plataformas adaptativas, diagnóstico assistido e análise automatizada do desempenho acadêmico.
“A gente pode personalizar o ensino de cada um dos alunos ou de uma turma toda. Podemos identificar as áreas mais frágeis e dar feedback contínuo”, comenta. Diante de mais recursos tecnológicos, o professor se mantém cético.
“A gente precisa manter os pés no chão com tanta coisa que vem acontecendo. A IA nos leva a um patamar onde o céu parece o limite, mas temos que manter o humanismo, o atendimento correto ao paciente, o olho no olho”, afirma.
Para o reitor da Feevale, José Paulo da Rosa, é necessário disciplinar o uso da tecnologia. “O professor também tem que ter um regramento de como pode utilizar e o que não pode utilizar. Também para os técnicos administrativos, e os que trabalham dentro da universidade.”
O foco no atendimento humanizado também é valorizado pelo Coordenador Médico de Governança Clínica, Ensino e Pesquisa da Unimed Vale do Sinos, Damásio Macedo Trindade. Para ele, o futuro da formação médica deve equilibrar os eixos digital — focado em competência digital, interpretação de algoritmos e simulações clínicas — e humano — foco em humanização, comunicação de más notícias, segurança psicológica do paciente e empatia.
“O paciente continuará procurando pessoas. Ele lembrará de quem olhou nos seus olhos, quem explicou, quem ouviu e quem o acolheu. A tecnologia melhora processos, a humanização melhora experiências”, reflete.
Na Unimed Vale do Sinos, a IA é utilizada na integração de sistemas, na agilidade do atendimento de emergência com a “ficha médica inteligente”, na automatização de protocolos clínicos, no prontuário eletrônico e no pronto atendimento digital. “O que a gente está pensando é um raciocínio clínico integrado, aprendizagem contínua, é preparar os alunos da medicina desde cedo para IA, este é o caminho, não temos dúvida disso”, afirma.
RESPONSABILIDADE ÉTICA DO MÉDICO
O médico ginecologista e obstetra e vice-presidente do Conselho de Administração da Unicred Eleva, Paulo Rech, acredita que a inteligência artificial pode retomar o tempo na relação médico-paciente. “Uma das coisas que faz com que não haja nenhuma discussão e desavença entre médico e paciente é quando o médico realmente dedica tempo e forma-se uma relação”, diz. Dentro desse avanço e adesão, Rech pontua que a maior preocupação é quando a vida do paciente pode ser exposta ao enfrentar a lei de responsabilidade de dados.
“Nos preocupam os aspectos legais, a parte de invasão de privacidade dos clientes, o cuidado que o médico tem que ter e se prevenir contra possíveis discussões sobre se fez certo ou se não fez certo, se devia ter usado a inteligência artificial ou não.”
A segurança do paciente também é uma preocupação do Conselho Federal de Medicina. Entrando em vigor no final do mês, a Resolução 2.454/2026 promete garantir apoio tecnológico ao raciocínio clínico na atividade do profissional, mas provoca discussões sobre a prática e a responsabilidade civil e ética. A norma deverá assegurar ao médico o direito de utilizar as ferramentas da tecnologia como apoio na decisão clínica, na gestão em saúde, na pesquisa científica e na educação médica continuada. No entanto, ela reforça que os limites éticos e legais da profissão precisam ser respeitados. Ou seja, a palavra final sobre as decisões do diagnóstico e dos prognósticos deverá ser sempre do médico. O uso das ferramentas não podem comprometer a relação entre o médico e o paciente, e o profissional deve exercer julgamento crítico sobre as recomendações dos sistemas.
O anestesiologista, especialista em Direito Médico e gestor em governança clínica, André Ricardo Stüker, destaca que a resolução não deverá trazer grandes mudanças na responsabilidade do médico, mas reforçar a transparência e segurança quando se fala em consentimento. "Ela não modifica nada do que a gente já tem de responsabilidade. Não altera o nosso Código de Ética, a regulação da medicina, a responsabilidade de acordo com as ordens do Código Civil, a nossa possível responsabilidade penal. Ela tem o caráter regulatório", enfatiza.
Stüker estima que os possíveis impactos poderão recair sobre o médico autônomo e certas clínicas de diagnóstico. No caso da IA especificamente, no dia a dia, a resolução deverá reforçar a importância de o médico sempre informar ao paciente que o uso da tecnologia estará sendo utilizado no atendimento. A documentação, portanto, será o principal dever.
"A gente tem um Código de Ética extremamente forte e valoroso para o profissional que trabalha sobre esse regramento. A gente faz seis anos de faculdade, ciclo clínico, internato, mais três anos de residência. Às vezes, são 12 anos de formação. Mesmo que eu não leia o Código do início ao fim, a tradição médica, a formação, a educação subliminar e sub-educacional já entra na gente. Fica trajado", destaca Stüker. Ele continua: "Talvez isso seja a salvaguarda para a gente encarar a chegada desta resolução e a chegada da IA com toda a tranquilidade. É um comportamento natural."
No ponto de vista da ética profissional e do Direito, o advogado e especialista em LGPD, Direito Digital e Propriedade Intelectual Maurício Brum Esteves, reflete que a tecnologia colocada na mão das pessoas não dá conhecimento, mas expande as capacidades. Na sua visão, ainda se vive um momento de "deslumbre" com a presença da tecnologia. Porém, levanta algumas questões: o que devemos fazer com esse poder? Em que direção levaremos esse conhecimento? "A gente tem um ponto de penumbra na qual a tecnologia avançou mais rápido do que a nossa capacidade de entender a tecnologia, e como ela vai impactar as nossas vidas. Mesmo que não tenhamos tempo de fazer essa reflexão, ela já está na nossa vida."
O fato de a inteligência artificial estar cada vez mais presente na vida das pessoas é indubitável, mas para Esteves, o nível de responsabilidade pela utilização, na perspectiva jurídica, é uma questão evidente de discussão. Ele reflete que a competição e o incentivo à adoção da tecnologia aceleram uma transformação que já alterou a realidade social. A questão é como equalizar a inovação com a segurança da população.
"Quando a gente está falando em medicina, a gente sempre tem a questão do paciente e do bem-estar da pessoa em primeiro lugar, e nem sempre a configuração da tecnologia leva isso em consideração como um fator primordial. É essa capacidade de configuração da tecnologia em equilíbrio com o que é necessário para o bem-estar do paciente". A responsabilidade, reforça, deve sempre ir para o profissional.
"Mais ou menos no que Hannah Arendt dizia como a característica da condição humana e o que nos distingue eventualmente de máquinas, que é a nossa capacidade de pensar, de avaliar nossa situação, nossa circunstância, julgar o nosso meio e definir nossa ação de acordo com aquilo que faz mais sentido para a nossa condição."
Para o especialista, a resolução do CFM não é mais uma discussão ética, mas sim uma norma que regulamenta a utilização na profissão. Ainda, que o Direito vai estar presente e vai colaborar com decisões, mas o consenso do que é certo e errado ainda é do ser humano.