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Imprensa ou influencers: quem dita o debate esportivo?

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Futebol Foto : SERGEY NIVENS / SHUTTERSTOCK / CP

De todas as perguntas feitas aos entrevistados ao longo desta série de matérias sobre como a internet mudou o cenário do futebol, nenhuma foi tão divisiva nas respostas quanto uma: quem dita o debate hoje em dia?

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De forma geral, há três correntes. A primeira acredita que a imprensa “tradicional” mantém esse posto. “Ainda prevalece a imprensa. Tem mais peso, mais eco. O problema é como a imprensa tradicional quer fazer o seu jornalismo. Se é voltado para competir com os influencers ou dar informação”, analisa o coordenador executivo geral das Seleções Masculinas da CBF, Rodrigo Caetano.

Outra prega que os influencers e os jornalistas identificados com determinados clubes se tornaram mais relevantes a esse ponto. “É aqui por conta da opinião. Se o time ganhou, o torcedor quer comemorar junto. Mas no momento da derrota, nós vamos ser muito mais fortes na crítica”, aponta Alex Bagé, do Canal do Bagé e do Debate Raiz.

“São os influencers! Os clubes estão mais interessados no que circula nas redes do que nas informações, comentários e reportagens publicadas na imprensa tradicional. O que precisa ser observado com certa urgência é o abandono dos critérios de produção de notícias e até quando as audiências vão se contentar com este consumo imediatista”, afirma a jornalista e professora de jornalismo da UFRGS, Sandra de Deus.

Por fim, há aqueles que apontam que ninguém tem poder suficiente para tanto, que o debate ainda é decidido, acima de tudo, pelo fato em si e pelo público. “Quem dita é a audiência. Não temos como decidir o que vai se debater sobre o jogo. Tem tanta procura que quem dita o debate é a audiência”, analisa o jornalista André Rizek, do canal SporTV. “É o fato. Quando o Neymar faz um gol na quarta-feira e vence o líder, o que gera o debate é o gol do Neymar”, opina o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, do canal Paramount+ e do Uol Esporte.

Se há divergência sobre quem tem mais poder em relação à audiência, restam menos dúvidas sobre algumas das características deste público - principalmente com a chegada das redes sociais. Uma delas é a necessidade de estar sempre conectado. “Quem para na frente da televisão e assiste a uma partida de hora e meia sem mexer no celular? É como se o jogo em si não bastasse para nos emocionar, precisamos de algo mais, como ver comentários e dialogar nas redes”, indica o professor da UFRGS, Daniel Vasques, que pesquisa o campo sociocultural do esporte e lazer.

Resistência ao contraponto

Outra é uma certa aversão cada vez maior ao contraditório, fenômeno que, justiça seja feita, não se restringe ao futebol nesses últimos anos. “O cara que está ouvindo não quer mais contraponto. Se ele está brabo com o Inter e tem um cara falando que o time é horrível e a diretoria é uma porcaria, ele pensa ‘é isso mesmo’”, argumenta PVC. Repórter da Rádio Guaíba, Cristiano Silva segue a mesma linha: “Muitas pessoas escutam apenas o que querem ouvir, mesmo que não seja verdade, desde que as agrade, o que alimenta o engajamento”.

Engajamento, diga-se de passagem, virou o Santo Graal do jornalismo - esportivo ou não - a partir das redes sociais. Tão importante quanto as visualizações nas redes sociais, é a interação com elas, por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos. O termo seguidamente é encarado com ressalvas, como um alerta de que nem sempre os fins justificam os meios. Fato é que assim como veículos tradicionais utilizam-se de métricas para aumentar seu engajamento, os influencers no cenário do futebol fazem o mesmo, mas de outra forma.

Reações planejadas

Não por acaso, há ceticismo quanto a algumas reações em vídeo, como se fossem programadas e não naturais. “Muitos já falam as coisas pensando no corte. A respiração é planejada, a pausa é planejada para dar tempo de fazer aquele corte”, afirma Rafael Pfeiffer, da Rádio Guaíba, referindo-se aos vídeos mais curtos que tanto viralizam.

Ainda sobre engajamento, o jornalista cita um exemplo de como a informação às vezes vale menos do que a circulação. Em 2023, Pfeiffer conseguiu a informação de que o Grêmio havia bolado um plano mirabolante para sondar ninguém menos do que Lionel Messi. Era por si só uma notícia arrasa-quarteirão. Só que não. “Eu gravei um vídeo sobre isso, deu 35 mil visualizações. De noite, o Farid (Germano Filho, jornalista identificado com o Grêmio) me ligou para eu entrar em uma live com ele. Esse vídeo repercutiu absurdamente mais”, lembra.

Curiosamente, é justo neste tema que se mantém viva uma das críticas mais comuns do público, mas que não passa de uma lenda urbana: a de que os veículos de comunicação e, principalmente, influencers ganham mais na derrota dos clubes. No dia do jogo em si, a audiência de fato pode ser maior, mas no médio e longo prazo, é prejuízo. “Para o nosso negócio, a derrota é muito ruim, porque não tem sequência. A vitória nos ajuda muito mais, porque ela vai dar sequência e escala inclusive a questão de patrocínios em fases decisivas”, revela Bagé.