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Indústria gaúcha foca na modernização e aposta na recuperação do Rio Grande do Sul

A posição meridional do nosso Estado desde sempre impôs desafios a quem teve a ousadia de empreender por estas terras, e entender tal contexto permitiu crescimento e capacidade de adaptação às necessidades que se apresentam, como ocorreu na enchente de 2024

Setor industrial gaúcho vive momento importante, superando dificuldades e projeta novas possibilidades
Setor industrial gaúcho vive momento importante, superando dificuldades e projeta novas possibilidades Foto : Jefferson Bernardes/ Agência Pr / CP

O caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul desde sempre baliza o avanço político, social e econômico. Por estar mais afastado geograficamente do centro do Brasil, precisou desenvolver contrastes próprios; foi assim com a cultura, com a agricultura, com a pecuária, e não foi diferente com a formação industrial.

A posição meridional do nosso Estado desde sempre impôs desafios a quem teve a ousadia de empreender por estas terras, e entender tal contexto permitiu crescimento; mais que isso, aprimorou a capacidade de adaptação às necessidades que se apresentam. Tal como vemos, um ano após aos eventos climáticos de devastaram o RS em maio de 2024, a Indústria gaúcha dá sinais de recuperação, ainda persistam muitos desafios estruturais.

Estudo realizado pelo Banco Mundial que contou com dados da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) e dados do governo do Estado mostra que a enchente impactou 8,7% dos CNPJs industriais (20,1 mil) do RS. No Vale do Taquari, 23,6% dos CNPJs foram atingidos (9,9 mil), sendo 2,1 mil da indústria (21,2%). Na Região Metropolitana, 13,2% dos CNPJs foram afetados (37 mil), sendo 5,3 mil da indústria (12,6%).

O prejuízo total estimado para a Indústria Gaúcha foi de R$ 14 bilhões. O prejuízo logístico estimado foi R$ 4,1 bilhões, sendo que rodovias e pontes concentraram quase metade dos prejuízos: R$ 2,1 bilhões.

“Não há dúvida que o foco da indústria do Rio Grande do Sul ainda passa pela reconstrução e modernização, com ênfase na inovação e no uso de tecnologias como a Indústria 4.0, a inteligência artificial, a curto, médio e longo prazo. Ainda pensando a médio prazo precisamos investir na formação e qualificação profissional da mão-de-obra”, defende o presidente da Fiergs, Claudio Bier.

Números

  • Entre os 3,3 mil estabelecimentos enquadrados no Regime Geral em áreas afetadas (mancha de inundação), quase 14% seguiam com operação abaixo de 30% da normalidade em abril/2025.
  • 16% das 5,1 mil empresas no Simples em áreas afetadas continuam operando abaixo de 30% da capacidade anterior às enchentes.

Segmentos industriais com maiores prejuízos:

  • Máquinas e equipamentos (R$ 1,5 bi)
  • Alimentos (R$ 1,3 bi)
  • Bebidas (R$ 1,2 bi)
  • Produtos de metal (R$ 1,1 bi)

Recuperação:

Produção industrial:

  • 2024: +0,6% | 1º sem/2024: -1,2%

Geração de empregos:

  • RS em 2024: +63 mil | bimestre mai-jun: -31 mil
  • Indústria RS em 2024: +13 mil | bimestre mai-jun: -12 mil

Exportações:

  • Acumulado de 2024: US$ 16,3 bilhões, queda de -3,1% frente a 2023
  • Maio/2024: retração de -19,2% na comparação interanual

Transformação industrial

Com forte presença na economia nacional, a indústria química responde por 9,4% do valor da transformação industrial do Brasil e ocupa a terceira posição entre os segmentos da indústria de transformação. No Rio Grande do Sul, representa 9,3% da transformação industrial, sendo a segunda maior entre os Estados, atrás apenas de São Paulo. O setor gaúcho destaca-se por sua capacidade produtiva e geração de emprego concentrados em complexos industriais como o Polo Petroquímico de Triunfo.

Empresas como Braskem e Innova anunciaram R$ 380 milhões em investimentos no Rio Grande do Sul, voltados à modernização de plantas e ao ganho de eficiência. Embora não tenha sido diretamente afetada em suas estruturas operacionais, a Braskem enfrentou dificuldades operacionais e logísticas que levaram à interrupção das atividades por alguns dias. As rodovias e acessos ao Polo Petroquímico foram bloqueados ou danificados pelas cheias, impossibilitando o transporte de insumos e a distribuição de produtos.

A operação da Braskem já está normalizada. No entanto, o maior impacto relacionado à infraestrutura ainda permanece e se encontra na logística do Estado. Há a necessidade de dragagem dos canais de navegação para permitir o transporte com navios de grande porte e também é preciso uma solução imediata para o sistema ferroviário que está indisponível.

Para o gerente de Relações Institucionais da empresa no RS, Daniel Fleischer, quanto mais se estendem, mais as dificuldades estruturantes da logística reduzem a competitividade local.

“Sem perspectiva de solução (do sistema ferroviário) no curto prazo, a Braskem teve de retomar por via rodoviária o transporte do etanol de cana-de-açúcar. A companhia passou a usar caminhões para garantir o abastecimento (do combustível) e a continuidade da operação industrial”, detalha o diretor.

Diante da agenda de transição energética, que se impõe, o papel da chamada química verde é crescente. A produção de hidrogênio verde (H2V) e de bioprodutos, como fertilizantes e plásticos sustentáveis, apresenta-se como oportunidade estratégica para o Rio Grande do Sul em um reposicionamento no futuro.

“O RS continua essencial dentro do planejamento estratégico da empresa. No Estado a Braskem possui no RS oito unidades industriais, que produzem 5 milhões de toneladas de químicos e as resinas termoplásticas polietileno e polipropileno, utilizadas para uma infinidade de aplicações. É no Polo do RS que está situada a planta de eteno verde, que usa etanol de cana-de-açúcar em seu processo produtivo. Tecnologia inovadora criada pela empresa, que leva o polietileno verde para diversos países do mundo. Trata-se de um dos grandes projetos que tornam a empresa líder mundial na produção de biopolímeros e que completou 15 anos”, cita Fleischer.

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Olhar para o futuro

O Estado continua recebendo novos empreendimentos. Exemplo é a CMPC, multinacional do ramo da celulose, que segue apostando no Rio Grande e prepara expansão das suas atividades. O Projeto Natureza CMPC, anunciado em 2024 prevê aporte de R$ 24 bilhões – o que deve se concretizar como o maior investimento privado da história da indústria gaúcha.

O empreendimento prevê investimentos em quatro áreas fundamentais da economia gaúcha: silvicultura sustentável; infraestrutura logística; produção industrial avançada; e conservação cultural e ambiental.

A nova unidade industrial será erguida na cidade de Barra do Ribeiro, projeto inclui a criação de um parque ecológico florestal na Fazenda Barba Negra. Além de uma série de obras rodoviárias, modernização portuária e incremento de atividades hidroviárias.

Antonio Lacerda, diretor-geral de Celulose da CMPC no Brasil | Foto: Fabiano Panizzi / CMPC / CP

“A CMPC enxerga um grande potencial no Rio Grande do Sul. Neste contexto, temos orgulho de colaborar com ações efetivas no presente e sem deixar de olhar para o futuro do RS. Para a companhia, é um grande orgulho fazer parte e contribuir com o estado que tão bem nos acolhe desde nossa chegada ao Brasil, em 2009”, diz o diretor-geral de Celulose da CMPC no Brasil, Antonio Lacerda.

“Observamos que o setor industrial gaúcho vive um momento importante, repleto de possibilidades e com um horizonte próspero. Um ano após as enchentes de 2024, os setores público e privado se uniram em prol de uma reconstrução plena e que já gera frutos. Quando falamos especificamente do setor de celulose e papel, o cenário é bastante animador. Do ponto de vista econômico, são gerados milhares de empregos, promovendo um incremento ao PIB do estado. Também há importante contribuição em temas ligados à sustentabilidade, uma vez que o setor é referência em sistema produtivo alinhado a importantes práticas. Isso pode ser percebido nos indicadores da CMPC em temas como reciclagem de resíduos, uso de fontes de energia renováveis e manejo florestal responsável”.

Para o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, a empresa elevou seu compromisso econômico e social com o Estado após a enchente.

“A Gerdau tem uma relação histórica e profunda com o Rio Grande do Sul, estado onde foi fundada há 124 anos e onde mantém operações estratégicas e uma forte conexão com a economia local. Como empresa genuinamente brasileira, seguimos comprometidos em apoiar a população gaúcha em um momento ainda desafiador. Nossa prioridade continua sendo apoiar a reconstrução do Estado, por meio de suporte às comunidades impactadas, o cuidado com nossos colaboradores e colaboradoras. A médio prazo, queremos fortalecer ainda mais nossas operações com inovação, eficiência e investimentos em tecnologia, a fim de garantir competitividade e gerar valor para toda a cadeia industrial gaúcha.”

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau | Foto: Anderson Rodrigues / Gerdau / CP

A Braskem também reafirma seu compromisso na manutenção, ampliação e atualização tecnológica de seus ativos no Estado. “Pelo REIQ Investimentos (Regime especial a Indústria Química) estão previstos mais de R$ 306 milhões para aumentar em 50 mil toneladas a capacidade de produção de polietileno na planta de Triunfo, que passará para 324 mil toneladas. O objetivo é atender a demanda futura do mercado interno, reduzindo importações e desenvolvendo o mercado interno de forma sustentável. No ano passado, a companhia também ampliou a capacidade instalada de produção eteno verde em Triunfo com investimento de R$ 430 milhões passando de 200 para 260 mil t/ano”, completa o gerente de Relações Institucionais da empresa no RS, Daniel Fleischer.

Vocação exportadora

As indústrias do setor do tabaco desempenham um papel significativo para a economia brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul. Os números demonstram que são 40 mil empregos diretos e aproximadamente US$ 3 bilhões em divisas com as exportações, além da arrecadação de cerca de R$ 17 bilhões em impostos. No Rio Grande do Sul, o tabaco liderou as exportações nos primeiros quatro meses de 2025, com mais de US$ 900 milhões embarcados, superando outros itens como cereais, carne de frango e farelo de soja.

“Temos a expectativa de um bom ano pela frente no Brasil, com exportações que devem superar os US$ 3 bilhões. A estimativa é de que tenhamos um resultado superior ao de 2024, na ordem de +10,1% a +15%, tanto em volume quanto em dólares. Essa é uma boa notícia para o Rio Grande do Sul, responsável por 92% dos embarques de tabaco no ano passado”, comenta Valmor Thesing, presidente do SindiTabaco, entidade que congrega 14 das indústrias mais representativas do ramo no Brasil.

Valmor Thesing, presidente do SindiTabaco | Foto: Junio Nunes / SindiTabaco / CP

São números que representam postos de trabalho nas unidades industriais, empregos indiretos, arrecadação de impostos e movimentação econômica nos mais de 200 municípios gaúchos produtores de tabaco. Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires concentram empresas que constituem o maior complexo mundial de processamento de tabaco. Essas indústrias estão entre as mais sofisticadas do gênero no mundo, utilizando modernos conceitos de produção e equipamentos de última geração.

Thesing lembra ainda que o setor fomenta o desenvolvimento sustentável e a modernização das propriedades produtoras por meio do Sistema Integrado de Produção de Tabaco (SIPT).

Celebrando a força da produção gaúcha após um período de dificuldades sem igual para o Estado, o presidente do SindiTabaco afirma que é momento de olhar para o futuro.

“É nosso desafio equilibrar a equação de um país que é o segundo maior produtor e o maior exportador de tabaco do mundo e, ao mesmo tempo, protagonista na adoção de medidas restritivas ao setor, como é o caso da proibição dos Dispositivos Eletrônicos de Fumar (DEFs). Defender a participação da cadeia produtiva estabelecida aqui no Brasil neste novo negócio global é, também, olhar para o futuro do nosso já reconhecido Sistema Integrado de Produção de Tabaco. Regulamentar significa aproveitar a planta industrial já instalada em nosso país e viabilizar a participação dos produtores de tabaco nesse novo modelo de negócio”, completa o executivo.

Infografico tabaco | Foto:

Evolução da Indústria:

Urbanização:

  • O crescimento industrial levou a um aumento da população urbana e ao surgimento de novas cidades, com migração de pessoas do campo para as áreas urbanas em busca de trabalho nas fábricas.

Avanços Tecnológicos:

  • A indústria impulsionou o desenvolvimento de novas tecnologias em diversas áreas, como transporte, comunicação e saúde.

Novas Relações de Trabalho:

  • A indústria alterou as relações de trabalho, com a criação de fábricas, a divisão do trabalho e a organização da força de trabalho.

Tendências Atuais:

  • Digitalização do chão de fábrica:

A implementação de tecnologias digitais na indústria para otimizar processos e aumentar a eficiência.

  • E-commerce:

O avanço da presença de indústrias no e-commerce, com modelos de vendas B2C ou D2C.

ESG (Ambiental, Social e Governança):

A crescente importância da sustentabilidade e da responsabilidade social nas indústrias.

  • Indústria 5.0:

O desenvolvimento de novas tecnologias e conceitos, como IA Generativa e a integração do ser humano e da tecnologia no chão de fábrica.

A evolução da indústria é um processo contínuo e em constante transformação, impulsionado pela busca por maior eficiência, produtividade e sustentabilidade.

infografico indústria | Foto: