O caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul desde sempre baliza o avanço político, social e econômico. Por estar mais afastado geograficamente do centro do Brasil, precisou desenvolver contrastes próprios; foi assim com a cultura, com a agricultura, com a pecuária, e não foi diferente com a formação industrial.
A posição meridional do nosso Estado desde sempre impôs desafios a quem teve a ousadia de empreender por estas terras, e entender tal contexto permitiu crescimento; mais que isso, aprimorou a capacidade de adaptação às necessidades que se apresentam. Tal como vemos, um ano após aos eventos climáticos de devastaram o RS em maio de 2024, a Indústria gaúcha dá sinais de recuperação, ainda persistam muitos desafios estruturais.
Estudo realizado pelo Banco Mundial que contou com dados da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) e dados do governo do Estado mostra que a enchente impactou 8,7% dos CNPJs industriais (20,1 mil) do RS. No Vale do Taquari, 23,6% dos CNPJs foram atingidos (9,9 mil), sendo 2,1 mil da indústria (21,2%). Na Região Metropolitana, 13,2% dos CNPJs foram afetados (37 mil), sendo 5,3 mil da indústria (12,6%).
O prejuízo total estimado para a Indústria Gaúcha foi de R$ 14 bilhões. O prejuízo logístico estimado foi R$ 4,1 bilhões, sendo que rodovias e pontes concentraram quase metade dos prejuízos: R$ 2,1 bilhões.
“Não há dúvida que o foco da indústria do Rio Grande do Sul ainda passa pela reconstrução e modernização, com ênfase na inovação e no uso de tecnologias como a Indústria 4.0, a inteligência artificial, a curto, médio e longo prazo. Ainda pensando a médio prazo precisamos investir na formação e qualificação profissional da mão-de-obra”, defende o presidente da Fiergs, Claudio Bier.
Números
- Entre os 3,3 mil estabelecimentos enquadrados no Regime Geral em áreas afetadas (mancha de inundação), quase 14% seguiam com operação abaixo de 30% da normalidade em abril/2025.
- 16% das 5,1 mil empresas no Simples em áreas afetadas continuam operando abaixo de 30% da capacidade anterior às enchentes.
Segmentos industriais com maiores prejuízos:
- Máquinas e equipamentos (R$ 1,5 bi)
- Alimentos (R$ 1,3 bi)
- Bebidas (R$ 1,2 bi)
- Produtos de metal (R$ 1,1 bi)
Recuperação:
Produção industrial:
- 2024: +0,6% | 1º sem/2024: -1,2%
Geração de empregos:
- RS em 2024: +63 mil | bimestre mai-jun: -31 mil
- Indústria RS em 2024: +13 mil | bimestre mai-jun: -12 mil
Exportações:
- Acumulado de 2024: US$ 16,3 bilhões, queda de -3,1% frente a 2023
- Maio/2024: retração de -19,2% na comparação interanual
Transformação industrial
Com forte presença na economia nacional, a indústria química responde por 9,4% do valor da transformação industrial do Brasil e ocupa a terceira posição entre os segmentos da indústria de transformação. No Rio Grande do Sul, representa 9,3% da transformação industrial, sendo a segunda maior entre os Estados, atrás apenas de São Paulo. O setor gaúcho destaca-se por sua capacidade produtiva e geração de emprego concentrados em complexos industriais como o Polo Petroquímico de Triunfo.
Empresas como Braskem e Innova anunciaram R$ 380 milhões em investimentos no Rio Grande do Sul, voltados à modernização de plantas e ao ganho de eficiência. Embora não tenha sido diretamente afetada em suas estruturas operacionais, a Braskem enfrentou dificuldades operacionais e logísticas que levaram à interrupção das atividades por alguns dias. As rodovias e acessos ao Polo Petroquímico foram bloqueados ou danificados pelas cheias, impossibilitando o transporte de insumos e a distribuição de produtos.
A operação da Braskem já está normalizada. No entanto, o maior impacto relacionado à infraestrutura ainda permanece e se encontra na logística do Estado. Há a necessidade de dragagem dos canais de navegação para permitir o transporte com navios de grande porte e também é preciso uma solução imediata para o sistema ferroviário que está indisponível.
Para o gerente de Relações Institucionais da empresa no RS, Daniel Fleischer, quanto mais se estendem, mais as dificuldades estruturantes da logística reduzem a competitividade local.
“Sem perspectiva de solução (do sistema ferroviário) no curto prazo, a Braskem teve de retomar por via rodoviária o transporte do etanol de cana-de-açúcar. A companhia passou a usar caminhões para garantir o abastecimento (do combustível) e a continuidade da operação industrial”, detalha o diretor.
Diante da agenda de transição energética, que se impõe, o papel da chamada química verde é crescente. A produção de hidrogênio verde (H2V) e de bioprodutos, como fertilizantes e plásticos sustentáveis, apresenta-se como oportunidade estratégica para o Rio Grande do Sul em um reposicionamento no futuro.
“O RS continua essencial dentro do planejamento estratégico da empresa. No Estado a Braskem possui no RS oito unidades industriais, que produzem 5 milhões de toneladas de químicos e as resinas termoplásticas polietileno e polipropileno, utilizadas para uma infinidade de aplicações. É no Polo do RS que está situada a planta de eteno verde, que usa etanol de cana-de-açúcar em seu processo produtivo. Tecnologia inovadora criada pela empresa, que leva o polietileno verde para diversos países do mundo. Trata-se de um dos grandes projetos que tornam a empresa líder mundial na produção de biopolímeros e que completou 15 anos”, cita Fleischer.
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Olhar para o futuro
O Estado continua recebendo novos empreendimentos. Exemplo é a CMPC, multinacional do ramo da celulose, que segue apostando no Rio Grande e prepara expansão das suas atividades. O Projeto Natureza CMPC, anunciado em 2024 prevê aporte de R$ 24 bilhões – o que deve se concretizar como o maior investimento privado da história da indústria gaúcha.
O empreendimento prevê investimentos em quatro áreas fundamentais da economia gaúcha: silvicultura sustentável; infraestrutura logística; produção industrial avançada; e conservação cultural e ambiental.
A nova unidade industrial será erguida na cidade de Barra do Ribeiro, projeto inclui a criação de um parque ecológico florestal na Fazenda Barba Negra. Além de uma série de obras rodoviárias, modernização portuária e incremento de atividades hidroviárias.
“A CMPC enxerga um grande potencial no Rio Grande do Sul. Neste contexto, temos orgulho de colaborar com ações efetivas no presente e sem deixar de olhar para o futuro do RS. Para a companhia, é um grande orgulho fazer parte e contribuir com o estado que tão bem nos acolhe desde nossa chegada ao Brasil, em 2009”, diz o diretor-geral de Celulose da CMPC no Brasil, Antonio Lacerda.
“Observamos que o setor industrial gaúcho vive um momento importante, repleto de possibilidades e com um horizonte próspero. Um ano após as enchentes de 2024, os setores público e privado se uniram em prol de uma reconstrução plena e que já gera frutos. Quando falamos especificamente do setor de celulose e papel, o cenário é bastante animador. Do ponto de vista econômico, são gerados milhares de empregos, promovendo um incremento ao PIB do estado. Também há importante contribuição em temas ligados à sustentabilidade, uma vez que o setor é referência em sistema produtivo alinhado a importantes práticas. Isso pode ser percebido nos indicadores da CMPC em temas como reciclagem de resíduos, uso de fontes de energia renováveis e manejo florestal responsável”.
Para o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, a empresa elevou seu compromisso econômico e social com o Estado após a enchente.
“A Gerdau tem uma relação histórica e profunda com o Rio Grande do Sul, estado onde foi fundada há 124 anos e onde mantém operações estratégicas e uma forte conexão com a economia local. Como empresa genuinamente brasileira, seguimos comprometidos em apoiar a população gaúcha em um momento ainda desafiador. Nossa prioridade continua sendo apoiar a reconstrução do Estado, por meio de suporte às comunidades impactadas, o cuidado com nossos colaboradores e colaboradoras. A médio prazo, queremos fortalecer ainda mais nossas operações com inovação, eficiência e investimentos em tecnologia, a fim de garantir competitividade e gerar valor para toda a cadeia industrial gaúcha.”
A Braskem também reafirma seu compromisso na manutenção, ampliação e atualização tecnológica de seus ativos no Estado. “Pelo REIQ Investimentos (Regime especial a Indústria Química) estão previstos mais de R$ 306 milhões para aumentar em 50 mil toneladas a capacidade de produção de polietileno na planta de Triunfo, que passará para 324 mil toneladas. O objetivo é atender a demanda futura do mercado interno, reduzindo importações e desenvolvendo o mercado interno de forma sustentável. No ano passado, a companhia também ampliou a capacidade instalada de produção eteno verde em Triunfo com investimento de R$ 430 milhões passando de 200 para 260 mil t/ano”, completa o gerente de Relações Institucionais da empresa no RS, Daniel Fleischer.
Vocação exportadora
As indústrias do setor do tabaco desempenham um papel significativo para a economia brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul. Os números demonstram que são 40 mil empregos diretos e aproximadamente US$ 3 bilhões em divisas com as exportações, além da arrecadação de cerca de R$ 17 bilhões em impostos. No Rio Grande do Sul, o tabaco liderou as exportações nos primeiros quatro meses de 2025, com mais de US$ 900 milhões embarcados, superando outros itens como cereais, carne de frango e farelo de soja.
“Temos a expectativa de um bom ano pela frente no Brasil, com exportações que devem superar os US$ 3 bilhões. A estimativa é de que tenhamos um resultado superior ao de 2024, na ordem de +10,1% a +15%, tanto em volume quanto em dólares. Essa é uma boa notícia para o Rio Grande do Sul, responsável por 92% dos embarques de tabaco no ano passado”, comenta Valmor Thesing, presidente do SindiTabaco, entidade que congrega 14 das indústrias mais representativas do ramo no Brasil.
São números que representam postos de trabalho nas unidades industriais, empregos indiretos, arrecadação de impostos e movimentação econômica nos mais de 200 municípios gaúchos produtores de tabaco. Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires concentram empresas que constituem o maior complexo mundial de processamento de tabaco. Essas indústrias estão entre as mais sofisticadas do gênero no mundo, utilizando modernos conceitos de produção e equipamentos de última geração.
Thesing lembra ainda que o setor fomenta o desenvolvimento sustentável e a modernização das propriedades produtoras por meio do Sistema Integrado de Produção de Tabaco (SIPT).
Celebrando a força da produção gaúcha após um período de dificuldades sem igual para o Estado, o presidente do SindiTabaco afirma que é momento de olhar para o futuro.
“É nosso desafio equilibrar a equação de um país que é o segundo maior produtor e o maior exportador de tabaco do mundo e, ao mesmo tempo, protagonista na adoção de medidas restritivas ao setor, como é o caso da proibição dos Dispositivos Eletrônicos de Fumar (DEFs). Defender a participação da cadeia produtiva estabelecida aqui no Brasil neste novo negócio global é, também, olhar para o futuro do nosso já reconhecido Sistema Integrado de Produção de Tabaco. Regulamentar significa aproveitar a planta industrial já instalada em nosso país e viabilizar a participação dos produtores de tabaco nesse novo modelo de negócio”, completa o executivo.
Evolução da Indústria:
Urbanização:
- O crescimento industrial levou a um aumento da população urbana e ao surgimento de novas cidades, com migração de pessoas do campo para as áreas urbanas em busca de trabalho nas fábricas.
Avanços Tecnológicos:
- A indústria impulsionou o desenvolvimento de novas tecnologias em diversas áreas, como transporte, comunicação e saúde.
Novas Relações de Trabalho:
- A indústria alterou as relações de trabalho, com a criação de fábricas, a divisão do trabalho e a organização da força de trabalho.
Tendências Atuais:
- Digitalização do chão de fábrica:
A implementação de tecnologias digitais na indústria para otimizar processos e aumentar a eficiência.
- E-commerce:
O avanço da presença de indústrias no e-commerce, com modelos de vendas B2C ou D2C.
ESG (Ambiental, Social e Governança):
A crescente importância da sustentabilidade e da responsabilidade social nas indústrias.
- Indústria 5.0:
O desenvolvimento de novas tecnologias e conceitos, como IA Generativa e a integração do ser humano e da tecnologia no chão de fábrica.
A evolução da indústria é um processo contínuo e em constante transformação, impulsionado pela busca por maior eficiência, produtividade e sustentabilidade.