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Jogos de tabuleiro: atividade fora das telas ganha força e conquista novos públicos

Clássicos nostálgicos e modernos têm moldado novos negócios; confira dicas de games do tipo

Jogos de tabuleiro ganham força novamente e conquistam novos públicos
Jogos de tabuleiro ganham força novamente e conquistam novos públicos Foto : Mauro Schaefer

A moda dos jogos de tabuleiro está de volta. “Eu não sabia nem que isso tinha terminado” , contesta Paula Sitoni Schröder. “No meu círculo de amigos a gente sempre jogou, levou jogo na casa um do outro, andou com baralho de carta na bolsa. É uma atividade que diverte e bota para pensar”, diz a videomaker de 31 anos.

Para algumas pessoas é um hábito que vem de tempos, para outras é uma nova opção de lazer, de se conectar offline e largar um pouco das telas, e tem também que curta um rolê nostálgico, de relembrar velhos momentos de gente reunida em torno da mesa para jogar, numa tarde de chuva com amigos na praia ou num dia de férias com a família.

O fato é que os jogos de tabuleiro voltaram a despertar grande interesse, ganhando adeptos e fazendo surgir negócios. Esse movimento foi influenciado pela pandemia. No isolamento, muita gente descobriu ou redescobriu as caixas paradas no alto do armário. Há também uma crescente busca pelo analógico, em meio à era das telas. E, mais recentemente, as restrições aos celulares nas escolas também impulsionaram o setor.

É a primeira vez que Paula vai a uma luderia - ou tabuleiria. No espaço, localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, é possível pagar um passe diário (de R$ 10 a R$ 15) ou mensal (de R$ 29,90) para ter acesso a mais de 360 jogos. Ou então, alugá-los para jogar em casa. Do outro lado da mesa está Lilianna Kali de Carvalho, que frequenta o local há cerca de um ano.

“Geralmente venho com amigos. A gente também se reúne para jogar em casa. Tenho alguns jogos de cartas e jogos simples, como Taco Gato Cabra Queijo Pizza, um jogo de reflexo com cartas. É bem dinâmico, dá uma gritaria”, conta a professora de música de 29 anos.

Além dos espaços para a jogatina e das locadoras, o mercado se diversifica, com novos designers e editoras, e o número de lançamentos cresce a cada ano. Em 2025, foram lançados 545 jogos no Brasil, além de 250 expansões, de acordo com o site especializado Ludopedia. Um aumento de 350% em relação a 2016, primeiro ano registrado pelo site, quando foram lançados 121 novos jogos.

Luderias oferecem diversos títulos sem necessidade de compra, tornando os jogos mais acessíveis | Foto: Mauro Schaefer

Amigos, famílias, nerds

O público é diverso, composto principalmente por jovens adultos, com idades entre 23 e 35 anos, e pode ser dividido em alguns perfis principais. Tem os jovens casais ou pequenos grupos de amigos que buscam um lazer diferente do cinema ou do bar.

Tem as famílias que buscam uma diversão capaz de reunir diversas faixas etárias e de tirar a gurizada da frente das telas. E tem os chamados boardgamers - os nerds dos jogos de tabuleiro - que são aqueles jogadores mais envolvidos, que gostam de adquirir e colecionar jogos, acompanham novos lançamentos e estão sempre por dentro das novidades.

Entre os frequentadores das tabuleirias há também aqueles que não têm amigos e familiares com interesse em jogos de tabuleiro, e buscam conhecer pessoas com quem jogar, se conectar em comunidade em torno de um gosto comum.

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Os clássicos e os modernos

Os jogos de tabuleiro podem ser separados em duas fases. Os clássicos, aqueles muito jogados por quem foi criança entre as décadas de 1980 e 1990, como War e Banco Imobiliário, e os jogos de tabuleiros modernos, que têm como marco o lançamento do jogo Catan, lançado na Alemanha em 1995.

Os lançamentos geralmente custam entre R$ 200 e R$ 300, mas um jogo novo pode chegar a custar mais de R$ 1.000. Um dos queridinhos do momento é o Dixit, um party game - que são jogos voltados a grandes grupos, com regras simples e alta interação social -, que é jogado com cartas que trazem figuras abstratas. Um participante atribui uma palavra à imagem e os demais precisam adivinhar.

Os jogos modernos se caracterizam por serem mais leves e com regras mais acessíveis. “O jogador tem uma experiência legal com um jogo mais simples. São regras mais direcionadas, que deixam os jogos mais fáceis de acessar. Porque a coisa mais chata de aprender um jogo é sentar e ficar lendo manual. É algo que trava a entrada da pessoa no jogo”, afirma Arthur Vargas, proprietário da Hex Board Game.

É claro que também há jogos modernos para quem gosta de partidas que duram por várias horas, como o épico Imperium. Os dois principais estilos são os norte-americanos (ameritrash), que privilegiam o design e geralmente têm influência de RPG, jogos com histórias, miniaturas, diversas peças; e o europeu (eurogames), mais focados em estratégia e com tabuleiros mais simples.

Jogos modernos oferecem "uma experiência legal com um jogo mais simples", afirma Arthur Viana, da Hex Board Games | Foto: Mauro Schaefer

A primeira luderia da cidade

Wyllian Hossein é pioneiro no mercado de jogos de tabuleiro. “Quando eu comecei, era tudo mato”, brinca o empreendedor, criador do curso VdJ. Em 2013, ele criou a Lends, a primeira tabuleiria de Porto Alegre, em uma sala de 30 metros quadrados. A inspiração veio de uma visita à Ludus Luderia, em São Paulo. Em Porto Alegre, já havia uma movimentação de cerca de 50 pessoas, que se falavam por um grupo de e-mails e se encontravam para jogar.

A Lends manteve lojas físicas em Porto Alegre até 2024. A última unidade ficava localizada no Espaço Cultural Vila Flores, no bairro Floresta, e foi atingida pela enchente. Da tabuleiria, o negócio se tornou uma rede de franquias e hoje Hossein se dedica a dar cursos e consultoria para quem quer empreender com aluguéis de jogos.

Lends, a primeira tabuleiria de Porto Alegre, em 2017 | Foto: Arquivo pessoal Wyllian Hossein / CP

“Hoje eu trabalho dando suporte e acelerando pessoas que querem entrar no mercado, dando um método e oferecendo um sistema, pelo qual as pessoas podem locar seus jogos e vender ingressos para seus eventos. É tipo um Sebrae do jogo de tabuleiro”, explica. “Já ajudei mais de 2,3 mil marcas no Brasil”. No site da Lends, é possível selecionar a sua cidade e localizar onde alugar jogos.

Mercado busca consolidação no país

No Brasil, o mercado busca se consolidar. Em geral, as editoras nacionais traduzem e lançam jogos estrangeiros. Os tabuleiros representam 13,1% das vendas de brinquedos no país, de acordo com a Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). Em 2017, eram 9,1%.

O mercado nacional conta também com editoras. Criada em 2009, por três estudantes de engenharia da Poli-USP, a Galápagos chegou a faturar cerca de R$ 16 milhões em 2017, sendo vendida no ano seguinte para o grupo francês Asmodee, que colocou no mercado títulos famosos como Ticket to Ride e Dixit. Há também financiamentos coletivos para lançamento de jogos.

O país já teve um desenvolvedor finalista do Kennerspiel des Jahres, considerado o “Oscar” dos jogos de tabuleiro. Jordy Adan foi indicado em 2020 pelo lançamento do jogo Cartógrafos e tem alguns de seus títulos lançados primeiro fora do país.

No Rio Grande do Sul, é possível alugar jogos ou ir até um local para jogar em pelo menos nove cidades - Porto Alegre, Canoas, Gravataí, Novo Hamburgo, Portão, Osório, Ijuí, Santa Maria e Vila Flores. Em Porto Alegre, além da Hex, é possível jogar ou alugar jogos em outros locais como Ludoteca Básica, Cantinho do Jogo, Nerdz e Sapo Balseiro.

O estado sedia também um evento que reúne jogadores para uma imersão de jogatina: Jogaúcha - encontro de jogos de tabuleiro. Na primeira edição, em 2019, o evento reuniu 40 pessoas de diferentes regiões do Brasil em Ivoti. O evento juntou cerca de 200 jogos, dos acervos pessoais dos participantes, e contou com salão de jogos aberto 24 horas. Na edição de 2025, foram cerca de 160 pessoas participantes.

“Tinha cerca de 40 mesas simultâneas. Havia grupos que jogavam jogos expert, nos quais uma partida dura no mínimo três horas. É o caso do jogo SETI, eleito o melhor jogo expert do evento. Muitos também jogaram jogos family, com partidas de até duas horas, o grande destaque dessa categoria foi Harmonies”, afirma Éderson Ayres, um dos organizadores.

Em 2025, o evento Jogaúcha reuniu cerca de 160 jogadores em Nova Petrópolis | Foto: Kewen Vier / Jogaúcha Divulgação / CP

Servidor público da área da Educação, ele cria jogos de tabuleiro desde 2016. Possui jogos premiados nacionalmente em concursos de protótipos e mantém um espaço, chamado Ativamente, que promove oficinas e encontros de jogos, no município de Portão.

Para Wyllian Hossein, da VdJ, os próximos passos do setor são a popularização dos jogos, com mais casas e eventos principalmente nas regiões fora do eixo Sul-Sudeste, e pela produção de jogos 100% nacionais.

“O que estamos tentando fazer é que mais pessoas conheçam e experimentem. Levar para mais gente que, como War e Banco Imobiliário foram para nossa infância, há um universo de outros jogos. Que os jogos não são algo preso no passado, mas algo que está acontecendo”.

Revelando Emoções traz uma abordagem diferente: todos jogam juntos | Foto: Mauro Schaefer

Jogos para quem quer descobrir ou redescobrir os tabuleiros

Dixit - o queridinho do momento traz cartas com figuras abstratas. O jogador precisa dar dicas para que os demais adivinhem qual a carta. A dica não pode ser tão difícil que ninguém descubra, nem tão fácil que todos fiquem sabendo;

Carcassonne - tipo um dominó de construir cidades, utiliza peças de madeira conhecidas como “meeple”;

Trio - jogo de cartas que mistura memória, dedução, blefe e instinto. Partidas rápidas, de cerca de 15 minutos;

É top! - jogo de perguntas e respostas onde vale blefar. Se não souber a resposta, convença os demais jogadores de que sabe;

Flip 7 - jogo de cartas no estilo “force sua sorte”. Indicado ao Kennerspiel des Jahres 2025;

Revelando emoções - jogo 100% cooperativo, com bom uso em escolas e ambiente escolar;

Catan - entre os modernos, um clássico. Lançado em 1995, é considerado um divisor de águas na história dos jogos de tabuleiro;

Passaporte Mundo - jogo de trívia cooperativo, todos contra o jogo, com perguntas e respostas sobre países no estilo Passa ou Repassa;

King Domino - monte seu reino através de peças de dominó.