Especial

O fim da privacidade no futebol: tudo é notícia

Foto : Leandro Maciel

Corriam os últimos dias de 2019 e o então vice de futebol do Inter, Roberto Melo trabalhava ansiosamente para contratar o técnico argentino Eduardo Coudet. Quando enfim houve um sinal verde, lá se foi o dirigente para Buenos Aires para negociações mais formais. Mal desembarcou na capital argentina, foi informado das últimas manchetes: “Melo está em Buenos Aires para acertar com Coudet”.

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Intrigado como a informação havia vazado, ligou para o presidente Marcelo Medeiros. E ouviu: “Roberto, tua foto foi tirada no aeroporto, estamos sem treinador, o que tu acha que pensaram que tu foi fazer aí?”. O registro havia sido feito por um dos funcionários do Salgado Filho e a imagem logo estava nas redes sociais. Se antes da internet era mais fácil manter segredo, depois virou tarefa de gincana.

“Ficou mais difícil. Naquela época tinha poucos intermediários, que sabiam que às vezes fazer a notícia vir à tona prejudicava. Hoje tem muita gente sabendo: no colégio do filho do jogador, a namorada, a pista pela cor da camisa numa foto nas redes. Não tem como ter controle e por isso que tantas negociações embrionárias não se confirmam”, avalia o ex-presidente do Inter, Fernando Carvalho.

Para o jornalista Marcelo Barreto, apresentador do canal SporTV, com o advento da internet 2.0 e a explosão das redes sociais, os personagens do futebol passaram a viver sob uma vigília constante. “O que antes era um momento do jornalista e do jogador, o treino, agora está em tudo que é lugar. Hoje em dia a conta dos parentes dos atletas nas redes pode ter informação”, aponta.

Além disso, para quem quer ser ouvido, não há mais o empecilho do acesso às mídias tradicionais, pois as redes vão tratar de fazer a informação correr. “Hoje, como tudo é hiperconectado, não precisa escolher o programa de maior audiência para fazer um anúncio. Em qualquer lugar com visibilidade, isso vai escalonar”, completa Barreto.

A armadilha da falta de contexto

Em alguns casos, o problema é menos o segredo em si e mais o contexto equivocado. Há poucos anos, o ex-presidente colorado Fernando Carvalho encontrou o técnico Roger Machado em uma academia de Porto Alegre. Estendeu a mão, se cumprimentaram e conversaram por breves minutos. Na moita, alguém fez o registro. Pronto, na mesma tarde já circulava pela Capital a informação de que o dirigente - que sequer fazia parte da direção naquele momento - negociava a contratação do técnico. Contudo, há episódios bem mais complicados.

Tiago Volpi, goleiro do Grêmio, recorda que quando defendia outro clube já testemunhou colegas serem vítimas de uma prática bem comum no meio do futebol: determinado jogador vai a uma festa e é fotografado. O autor da foto, porém, não publica naquele dia. Espera uma derrota ou um momento de instabilidade da equipe para jogar o material nas redes e induzir a revolta dos torcedores. “E aí você tem que sair e dar explicação. Hoje é quase como se você tivesse que se defender de antemão: ‘Olha, estou saindo de casa com essa roupa aqui, nesse dia aqui’. Porque se acontecer algo, já estou me defendendo", diz.