Entre as ruas Joaquim Nabuco e Lopo Gonçalves, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, um conjunto de 17 casas coloridas em uma via de paralelepípedo chama a atenção de quem passa. À noite, o local é tomado pelo público que aproveita os bares e o clima agradável para confraternizar com os amigos. Talvez muitos dos frequentadores não saibam, mas a Travessa dos Venezianos preserva uma parte da história da cidade. Em 2026, o calçamento do local, patrimônio tombado da Capital, completa 100 anos.
A construção do conjunto de casas data do início do século XX, segundo a Prefeitura de Porto Alegre. “A arquitetura simples, desprovida de elementos arquitetônicos significativos, revela sua forma de ocupação original, popular, destinada a servir de fonte de renda na forma de aluguéis”, afirma um documento enviado pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC).
“São casas em fita, estreitas, como era no final do século XIX, de porta e janela, com um pátio nos fundos. Eram habitações populares. Então, provavelmente, ali havia alguns locatários. Era uma área relativamente próxima do Centro da cidade”, conta o coordenador do curso de História da PUCRS, Charles Monteiro.
Naquela época, o local era uma rua comum, com grande movimento de pessoas e animais. O documento da SMC descreve assim a travessa: “Trata-se de um espaço urbano típico de muitas de nossas cidades antigas, de estreitas ruas para onde se abrem portas e janelas de casas de pé-direito alto e platibandas. Até a metade do século XIX e o fim da Guerra dos Farrapos, esta região da Cidade Baixa era um subúrbio com aspectos de zona rural, à mercê de constantes enchentes provocadas pelo arroio Dilúvio. Conhecida também como zona de refúgio de escravos, sua evolução se fez a partir da instalação de uma olaria nas imediações”.
Moradores ilustres
Monteiro explica que a travessa ficava ao lado da chamada Ilhota, área inundável da cidade. Tradicionalmente ocupado pela população negra, o local teve como moradores Lupicínio Rodrigues, autor do hino do Grêmio, e Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha, um dos maiores ídolos da história do Internacional, além de sociedades carnavalescas da época.
“Era uma rua onde moravam pessoas de classe popular, alguns operários, carvoeiros, trabalhadores urbanos que faziam comércio de bens pela rua, vendedores ambulantes, esse tipo de coisa. Ao longo do tempo, ela vai trocando as pessoas, algumas delas adquiriram as casas. Então, ali, a gente tinha também uma sociedade religiosa afro-brasileira. Depois, como era mais barato, alguns artistas passaram a ocupar o espaço. Ali, vai ser a Fundação Chico Lisboa, depois vai ter ateliês. Então, ela vai mudando ao longo do tempo”, conta.
Outro personagem icônico da travessa foi Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio. Líder religioso e cultural da comunidade negra que habitava a região, ele também realizava atendimentos junto à elite política da época. “Existem fotografias, crônicas sobre ele, uma personalidade desse início do século XIX em Porto Alegre, que teria morado em vários lugares até chegar à Capital. Teve uma vida longa, deixou seus descendentes, seus sucessores, e sempre muito ligados à religião de matriz africana, a sua cultura e ancestralidade. Então, o Príncipe Custódio é uma referência muito importante para a cultura negra em Porto Alegre, está ligado com a história dessa região da cidade, próximo da Ilhota, próximo da região do Carnaval”, descreve o professor Monteiro.
Origem do nome
O nome Travessa dos Venezianos surgiu por ser a passagem entre as ruas Venezianos – atual Joaquim Nabuco – e Lopo Gonçalves. Conforme o documento da SMC, a travessa era considerada a parte mais pobre da rua. “Antigos moradores entrevistados afirmam que o acesso entre a rua Venezianos e Lopo Gonçalves era feito através da travessa, pois existia ali um trapiche facilitando o percurso de quem se destinava à Rua da Margem, atual rua João Alfredo”, explica.
O calçamento da travessa foi feito apenas em 1926, segundo a SMC. O professor Monteiro explica que Porto Alegre começou a receber pavimentação no início do século XX no Centro da cidade, para depois expandi-la para áreas próximas, quando a Travessa dos Venezianos foi contemplada. “Era uma rua por onde entravam carros, mas era uma rua de bairro, onde normalmente as pessoas andavam a pé”, afirma. Ele acrescenta que um bonde passava pela rua José do Patrocínio à época.
Ligação com a cultura e a boemia
Desde 1983, o conjunto de casas, bem como o pavimento da Travessa dos Venezianos, é tombado para preservação de suas características originais. Monteiro explica que isso ocorreu em um momento de grandes transformações urbanas em Porto Alegre. “Ela vai passar a ser um bem tombado, ligado à história da cidade, justamente por essa questão de ser uma habitação de classe popular, ligada a esses territórios negros, próxima à Ilhota, que são características que distinguem a Travessa dos Venezianos em termos urbanos e históricos ao longo do tempo”, explica.
O Carnaval também faz parte da história da via. Cronistas do início do século XX citam como aspecto pitoresco as festas que movimentavam as ruas do bairro. Entre os blocos mais conhecidos, destacava-se o Bloco dos Venezianos. No entanto, não há ligações historicamente comprovadas entre o bloco e a travessa.
Atualmente, a Cidade Baixa é conhecida como um bairro boêmio, mas nem sempre foi assim. Essa transformação ocorreu a partir da década de 1990, quando o bairro ganhou novos ares devido à proximidade com o Centro Histórico e o Bom Fim, outro berço da boemia porto-alegrense. A travessa faz parte desse contexto, carregando características próprias.
“Por estar nesse território que tem toda essa memória do território negro e dos operários, ela guarda essa memória social da cidade. A gente poderia dizer que é um espaço de resistência, tanto da memória urbana e arquitetônica quanto da memória social”, diz.
Noite agitada
Atualmente, a travessa é reduto de jovens adultos que se reúnem especialmente nas noites de sexta-feira e sábado para confraternizar em frente aos bares. Um deles é o Guernica. O nome, em referência a uma das obras mais famosas do pintor Pablo Picasso, indica a pegada clássica do local. Os shows musicais incluem ritmos como blues, jazz e rock.
O proprietário, Leonardo Serrat, conta que o bar é um dos mais antigos no formato atual e está no local desde 2019, sendo administrado por ele desde 2021. O estabelecimento funciona de quinta a domingo, sempre à noite, com contribuição espontânea do público.
Ele também é dono do bar ao lado, o A Palo Seco – como a canção de Belchior –, que funciona de quarta a domingo, também à noite, com cobrança de ingresso. Os dois estabelecimentos fazem parte do conjunto de 17 casas da travessa. Entre estes, há outros seis bares com música, além de um bistrô, um ateliê, um centro de religiões africanas, uma hamburgueria e um escritório de advocacia.
A pequena rua de paralelepípedo é fechada do lado da Lopo Gonçalves, o que restringe o trânsito de veículos, limitado a carros de proprietários e abastecimento dos bares. “Nós temos uma pauta junto à prefeitura para talvez possibilitar o fechamento total da rua aos sábados, permitindo colocar mais mesas e cadeiras, algo que hoje não podemos fazer. Mesmo sem essas possibilidades, as pessoas acabam ocupando a rua, porque é uma região de muita efervescência”, afirma Serrat, que revela que a maior parte do público tem entre 25 e 35 anos.
O horário de funcionamento é até 2h30min nas quintas, sextas e sábados, mas, em dias de grande movimento, a aglomeração de pessoas persiste mesmo após o fechamento. O prolongamento informal da noite na travessa já gerou atritos com a vizinhança da Cidade Baixa.
“Já tivemos mais problemas, tanto com a prefeitura quanto com moradores. Atualmente, está uma situação de razoável constância e respeito. Faz pelo menos sete ou oito meses que não há nenhuma reclamação mais contundente”, relata. Apesar da aparente calmaria entre comerciantes e frequentadores, ele acredita que o espaço poderia ser melhor aproveitado.
“Eu vejo esse espaço como subutilizado. Poderia ser muito mais do que é. Às vezes recebemos estrangeiros, de França, Espanha, Colômbia, e todo mundo olha isso aqui e diz que parece um pedaço de Ouro Preto ou até de uma Europa medieval. Poderia haver mais investimento em iluminação, lixeiras e ações da prefeitura para fechar a rua aos domingos com bandas tocando. Atualmente, temos uma política de não intervenção da prefeitura, que muitas vezes já nos serve, mas que poderia ser mais”, afirma.
Para o empresário, além de preservar parte da história de Porto Alegre, a Travessa dos Venezianos celebra a diversidade cultural e a boemia do bairro. “Às vezes existe um estereótipo negativo sobre a Cidade Baixa, como um lugar de caos e violência, mas ela é muito mais do que isso. O que predomina aqui é um ambiente cultural. Mesmo sendo um evento de rua, nunca há briga ou arrastão. As pessoas que querem conhecer um ambiente bonito, culturalmente diverso e onde possam ficar na rua conhecendo gente nova encontram aqui um excelente lugar para isso”, avalia.
Melhorias na iluminação
A diretora de Patrimônio e Memória da SMC, Juliana Wagner, explica que o tombamento da Travessa dos Venezianos impede modificações visuais no conjunto. Apesar disso, como os imóveis são privados, a responsabilidade pela manutenção é dos proprietários. Qualquer intervenção deve ser autorizada pela pasta. “No momento em que aquilo é um conjunto, ele precisa funcionar como um conjunto. Tem que manter a originalidade daquelas residências”, explica.
O pavimento, que completa 100 anos em 2026, também faz parte do tombamento e não pode ser modificado. A manutenção da via segue sob responsabilidade da prefeitura. Juliana revela que uma parceria entre o governo federal e o município prevê melhorias na iluminação pública da via. Um estudo sobre o tema está em andamento. A ideia é implantar estruturas adequadas ao caráter patrimonial do local.
“A proposta é trazer lampiões contemporâneos, mais discretos, que combinem com a ambiência do local, favorecendo os bares e as atividades turísticas. Isso cria uma melhora visual e uma atmosfera mais adequada ao espaço”, conta.
Ela afirma que o local é tratado como ponto turístico e reconhece a necessidade de preservação.
“Esses registros do passado e essas memórias garantem que a gente não esqueça a história da cidade e nossa ancestralidade. Então é muito importante preservar esses espaços”, conclui.