Especial

Um tiro ecoa na madrugada em Buenos Aires

O destino do capitão Hans Lansdorff é o tema da sexta e última reportagem da série sobre os 85 anos da Batalha do Rio da Prata

Uma das âncoras do encouraçado de bolso Admiral Graf Spee, no porto de Montevidéu
Uma das âncoras do encouraçado de bolso Admiral Graf Spee, no porto de Montevidéu Foto : Mauro Mattos / CP Memória

Na noite do dia 19 de dezembro de 1939, os destroços do encouraçado de bolso alemão Admiral Graf Spee ainda ardiam, parcialmente afundados na foz do Rio da Prata, nas proximidades de Montevidéu. Enquanto isso, no Arsenal de Marinha de Buenos Aires, o capitão Hans Langsdorff estava reunido com os oficiais do navio, avaliando a situação dos 1.039 homens da tripulação que haviam sido conduzidos para a capital portenha e, a partir de então, refugiados na Argentina na condição de internados.

O encontro dos oficiais teve início às 21h30 e se estendeu até os primeiros minutos do dia 20, quando Langsdorff se dirigiu ao aposento que lhe havia sido destinado pela Marinha do país, no mesmo prédio. Os marujos estavam acomodados num imóvel próximo, o Hotel dos Imigrantes, utilizado, até o início da Segunda Guerra, para receber estrangeiros que se transferiam para a Argentina.

Acesse o especial do Correio do Povo que relembra o único confronto da Segunda Guerra Mundial ocorrido na América do Sul.

No quarto, Langsdorff escreve duas cartas. Uma ao embaixador alemão e outra para sua mulher, Ruth Hager. Depois, em algum momento naquela madrugada, em horário mais próximo ao alvorecer, o capitão, ainda fardado, estendeu sobre o piso do dormitório a bandeira naval alemã, sob a qual combatera na Primeira Guerra Mundial, e deitou-se sobre o pavilhão.

O corpo foi encontrado por um oficial no final da manhã. A cabeça repousava inclinada para oeste, em torno da qual se estendia uma grande poça de sangue. A mão direita, a uns 20 centímetros de distância da orelha, de acordo com o relatório emitido pela Marinha Argentina, ainda segurava a pistola Mauser calibre 7.65, com um tiro disparado. Aos 45 anos, Langsdorff estava morto.

“Tem de ser óbvio para um comandante com forte sentido de honra que, em circunstâncias como estas, o destino dele é inseparável do destino de seu navio. Adiei a tomada de decisão enquanto ainda era responsável pelo bem-estar e segurança de minha tripulação”, escreveu Langsdorff para Ruth.

Naquele mesmo dia 20, lia-se no topo da capa da Folha da Tarde: “SUICIDOU-SE”, com o texto do correspondente Arlindo Pasqualini descrevendo a reação diante da morte do capitão. A notícia, que se espalhou rapidamente por Buenos Aires, gerou profunda comoção na cidade.

No dia seguinte, acompanhando por extenso cortejo, com as calçadas do trajeto tomadas pelas multidões, os restos do comandante foram conduzidos à seção alemã do Cemitério de La Chacarita. Oito carros carregados com coroas fúnebres seguiam o veículo que carregava o caixão. Antes de baixar à tumba, a maioria das centenas de presentes prestou a saudação nazista, com o braço direito estendido para o alto. Langsdorff, certamente, teria preferido a continência.

Há 85 anos, no dia 20 de dezembro, o túmulo, que também abriga outros quatro integrantes da tripulação do Spee, é visitado por familiares de Langsdorff, principalmente a filha, Ingeborg, por descendentes dos mais de mil homens a quem salvou a vida, ao negar-se a cumprir as ordens de Adolf Hitler de levar o Spee ao combate até a destruição total, e mesmo de representantes da Royal Navy, em reconhecimento ao legado do capitão. Nenhum marujo da marinha mercante britânica morreu durante o cruzeiro de guerra do Spee que, antes da Batalha do Rio da Prata, afundara nove navios. Langsdorff criara um padrão para as incursões da Kriegsmarine contra embarcações mercantes. Muitos o superaram em tonelagem posta a pique, mas nenhum com maior honra.