A tarde do dia 11 de setembro havia começado com uma chuva fina, mas insistente, em Porto Alegre. Por volta das 14h30min, pouco menos de uma hora depois do início da capacitação do Projeto Sinais, do Ministério Público do RS, o promotor de Justiça Leonardo Rossi avisou a plateia no Auditório Mondercil Paulo de Moraes, na sede do MPRS na Capital: “Afivelem os cintos de segurança”. Ante o alerta, vieram algumas risadinhas das dezenas de representantes dos Conselhos Tutelares e de áreas como saúde, educação e assistência social. Antes que o sol se pusesse, as expressões já haviam mudado: “Minha nossa”, “Deus do céu”, “Que horror.”
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O Projeto Sinais (ou Sin@is) é a menina dos olhos do MPRS. No ano passado, a iniciativa rendeu ao Ministério o Prêmio Innovare, o mais importante do país no âmbito jurídico, com direito a premiação com a presença de ministros do STF, em Brasília. Coordenado pelo Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve), o projeto tem como objetivo capacitar profissionais para reconhecer sinais em jovens que possam evoluir para episódios de violência extrema.
Há uma série de indicativos de que um adolescente pode enveredar pelo caminho desses grupos. Entre os principais estão um isolamento repentino e persistente; perda de interesse por hobbies ou atividades que antes eram prazerosas; alterações severas no padrão de sono; queda abrupta e inexplicável no rendimento escolar; irritabilidade, hostilidade ou agressividade fora do padrão; abandono de amigos e do convívio presencial; e comportamento excessivamente secreto com o uso do celular e do computador. A psicóloga clínica e psicanalista Rosane Pereira alerta, contudo, que o fato de o jovem apresentar um ou mais desses tópicos não configura uma conclusão imediata.
“Esses sinais não são diagnósticos deterministas, mas indicam uma necessidade urgente de atenção”, pondera.
A apresentação do MPRS, por sua vez, vai mais fundo, mostrando uma série de casos, muitos deles ocorridos no Rio Grande do Sul, confirmando que não se trata de uma questão distante da nossa realidade. Os mecanismos utilizados pelos grupos para driblar o monitoramento nas redes vão desde a utilização de emojis e o uso de números e símbolos para mascarar um termo até o aliciamento de jovens em jogos de videogame, mesmo aqueles que parecem mais inofensivos. Como auxílio, o Núcleo desenvolveu um aplicativo – Decodificando Sin@is – que de certa forma traduz os emojis: a pessoa informa uma sequência das figurinhas e a ferramenta indica se há algum tipo de conteúdo sensível envolvido.
Nesse ambiente, também é comum a idolatria a outros jovens que já cometeram crimes de violência extrema, como ataques a escolas. Por isso, a atenção é redobrada quando vestimentas notoriamente ligadas aos criminosos são percebidas em localidades como o interior do RS. Por se tratar de uma palestra em que os vídeos e fotos mostram um conteúdo de violência extrema, a indicação é de que ninguém grave o material, até mesmo porque publicidade é exatamente o que muitos dos integrantes dos grupos virtuais querem, em busca de notoriedade. Ao rol de características já enumeradas, os promotores indicam outras, como rigidez de opiniões e interesse expresso por armas e temas militares.
Nas escolas, o tema já deixou de ser tabu e os colégios têm cada vez mais instruído os professores a ficarem atentos a alunos que se isolam dos demais, assim como a outros elementos, tais como mangas compridas mesmo em dias quentes — para esconder eventuais marcas de automutilação. “O estudante mais quieto é aquele que precisamos observar mais. Contamos com a formação dos professores para identificar essas situações no dia a dia da sala de aula. Capacitamos a equipe para ter esse olhar atento ao aspecto socioemocional, acionando a rede de proteção quando necessário”, afirma Andrea Backes, orientadora educacional dos anos iniciais no Colégio Marista Rosário.
A partir da noção de que o bullying pode ter consequências graves no futuro, a busca pela conscientização tem aparecido cada vez mais cedo. O Colégio Farroupilha, por exemplo, incorporou ao currículo das turmas do 6º ao 9º ano aulas sobre “Ética, cidadania e relações interpessoais”. “É um componente como qualquer outro, com a diferença de que não possui nota, funcionando como um espaço garantido para debater esses temas. Pautas como bullying e cyberbullying entram como conteúdo para caracterizar essas práticas e gerar reflexões profundas, ajudando os alunos a distinguir o que é um conflito cotidiano, que faz parte das relações interpessoais, do que é bullying de fato”, explica Caroline Garziera, coordenadora pedagógica dos anos finais na escola.