Imagine um jogador de tênis. A maior parte das pessoas pensaria em alguém relativamente jovem, entre 20 e 30 anos, com os músculos definidos e bronzeado pelas horas passadas em quadra sob o sol. Talvez alguns se lembrem de um jogador específico, como Federer, Nadal, Serena Williams, Guga, Luiza Stefani ou João Fonseca. Mas o tênis vai muito além do que se vê nos grandes torneios espalhados pelo mundo. Ele está nos clubes e nos condomínios, sendo praticado por pessoas das mais variadas idades. Os torneios Masters são o maior exemplo disso, reunindo pessoas dos 30 aos 90 anos apaixonadas por um esporte em comum.
Há 40 anos, Porto Alegre sedia a Copa Yone Borba Dias, um dos mais tradicionais torneios do circuito da World Tennis no Brasil. A competição não oferece prêmio em dinheiro, mas garante 700 pontos no ranking mundial ao campeão, sendo um dos três torneios mais importantes do País no circuito (junto a São Paulo e Brasília), e atrai jogadores de todo o Brasil e também de outros países. Em 2026, o torneio reuniu 220 jogadores.
“Nesta edição temos atletas de praticamente todos os estados do País e de 11 países. A primeira categoria é para jogadores dos 30 aos 90 anos. A última é para jogadores de 85 ou mais. Então nós temos atletas de 90, 91, 89 anos, masculino e feminino, participando”, conta o organizador do torneio, Ennio Moreira.
Ele, que por muitos anos também foi o responsável pela organização da Copa Gerdau, destaca que o circuito Masters se diferencia pela convivência. “É claro que tem competição, mas o espírito aqui é completamente diferente do profissional. Ninguém entra na quadra e fica três horas de brincadeira, mas o congraçamento de antes e depois do jogo é completamente diferente. É muito legal ver as pessoas ali disputando na quadra para depois saírem juntas para jantar ou beber uma cerveja. Tem o casal que vem jogar duplas mistas, ou famílias, pai e filhos jogando cada um na sua categoria”, observa.
Nesse espírito de congregação, formam-se relações que dificilmente aconteceriam de outra forma. Aos 82 anos (quase 83), Ilza Rocha coleciona amizades que fez em torneios por todo o Brasil. Ela disputou todas as 40 edições da Copa Yone Borba Dias, além de torneios em outros estados. “Tenho amigas hoje em vários lugares do País que conheci jogando. Às vezes elas vêm jogar um torneio aqui e ficam na minha casa. Ou eu vou para a casa delas. No Brasil, não pago hotel”, conta Ilza.
O calendário Masters da World Tennis é quase tão extenso quanto o do circuito profissional. Para quem está disposto a viajar um pouco, é possível encontrar quase um torneio por semana. E, embora a competição seja mais contida do que no nível profissional, ela ainda é muito presente para alguns jogadores, principalmente para aqueles que foram atletas durante toda a vida.
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“Eu sou muito competitivo, então os torneios, para mim, não têm nada de lazer”, relata o ídolo colorado Paulo Roberto Falcão. “Eu comecei a jogar em Roma, quando tinha uns 30 anos. Tem gente que começa com cinco, seis anos, então é muito diferente. Eu me divirto, mas entre brincar e me divertir existe uma diferença enorme. Jogo para ganhar, para dar o meu máximo. Se eu perder sabendo que eu dei meu máximo, tudo bem. O problema é quando eu perco sabendo que não joguei o meu melhor. Fico arrasado”, admite.
Sucesso das duplas
Se nos torneios profissionais as disputas de simples carregam maior prestígio, nas competições de Masters, as duplas são um grande sucesso. Não apenas pelo espírito de parceria, mas pelas limitações físicas de muitos jogadores das categorias de maior idade.
“O futebol te deixa com algumas dores. Eu tenho artrose de quadril. A grande maioria dos ex-jogadores tem algum problema no quadril. Prefiro uma duplinha legal, quando é simples fica mais difícil”, explica Falcão.
Ilza comenta que também acaba jogando mais em duplas, mas por outro motivo: faltam jogadoras para montar a chave se simples da sua categoria. “Só consigo jogar simples em São Paulo ou em Brasília, aqui nunca dá. E para jogar numa categoria abaixo muda muito o físico, aí não sai jogo. Nas duplas é mais tranquilo. Esse ano descemos duas categorias, vamos jogar na categoria acima de 70, mas eu vou muito bem escorada”, brinca.
Isso porque a parceira de Ilza para esta edição da Copa Yone Borba foi Althea Abiko, quarta colocada do ranking mundial na categoria acima de 75 anos e quinta do ranking de duplas da sua faixa etária. Apesar de ser familiarizada com o tênis desde criança, a atleta começou a disputar torneios apenas depois dos 40 anos. “Eu jogava quando criança, mas tinha largado completamente. Me convidaram uma vez para um torneio por equipes na colônia japonesa. Eu não tinha nem raquete, tive que pegar emprestada. Aí comecei a treinar e não parei mais”, relembra ela.
Na época, Althea dava aula de desenho técnico pelo estado de São Paulo. Porém, quando voltou a jogar tênis e a vencer torneios, um amigo sugeriu que ela passasse a ensinar o esporte. “Nunca tinha passado pela minha cabeça, mas quando coloquei no papel, eu ia ganhar três vezes mais dando aula de tênis. Larguei cinco anos de magistério e estou até hoje fazendo o que eu gosto”, explica.