Antes de João Fonseca, de Luísa Stefani, de Bia Haddad e até mesmo de Guga Kuerten, quem representava a elite do tênis brasileiro era uma gaúcha. Niege Dias chegou ao posto de 31ª melhor tenista do mundo com 22 anos, em uma ascensão meteórica graças a uma sequência de bons resultados em torneios asiáticos, que a colocaram na lista direta das competições mais importantes do circuito. Naquela época, porém, ela não fazia ideia de que seu nome seria eternizado na história do tênis brasileiro, ao lado da pioneira Maria Esther Bueno.
“Nunca pensei nisso. Sou muito reservada e nem sou de falar muito. Meus pais nos ensinaram a tentar fazer o melhor na nossa profissão, e foi o que eu fiz. Como parei muito cedo e comecei logo a ser treinadora e viajar, nunca tinha parado para pensar dessa forma”, contou a tenista em entrevista exclusiva ao Correio do Povo.
A tenista foi a homenageada da segunda edição do São Paulo Open, em setembro. A ação faz parte da missão do torneio de reconhecer e celebrar os grandes nomes que ajudaram a construir a história do tênis feminino brasileiro. Na primeira edição, em 2025, a homenageada foi Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos.
“No ano passado, fizeram homenagem para todas as mulheres tenistas mais históricas, mas destacaram e homenagearam a Maria Esther. Neste ano eu recebi o convite umas três semanas antes para ir novamente. Quando descobri que ia ser homenageada, eu fiquei realmente surpresa. Foi uma emoção enorme, fiquei impressionada. Me senti muito valorizada, foi uma semana fantástica”, relatou.
O primeiro contato com o tênis ocorreu aos 7 anos, depois que a família se mudou para Santa Cruz, mas só começou a disputar torneios entre os 12 e 13 anos. Apesar de ter permanecido no circuito juvenil até completar 18 anos, seu primeiro título como adulta veio nesses primeiros anos. Em 1980, aos 13 anos, se tornou a campeã mais jovem do campeonato brasileiro de tênis na categoria adulta, título que ela conquistou outras três vezes.
“Vi meu irmão jogando um torneio de clube e todo mundo aplaudindo, então pensei: Eu também quero que me assistam e me aplaudam! Em 1978, disputei o circuito nacional e fui para o Mundial Júnior (Orange Bowl) em Miami. Na época a minha mãe costurava minhas saias de jogo, todas coloridas, eram lindas. Guardei uma saia especial para a final, mas nas quartas contra uma mexicana, a Claudia Hernández. Achei que iria perder e resolvi usar a saia. Ganhei o jogo, cheguei à final e acabei perdendo. Foi o único jogo que perdi no ano todo! Mas acho que nunca mais usei aquela saia”, lembra.
A decisão de encerrar a carreira de atleta aos 22 anos, justamente na idade em que muitos atletas de alto rendimento estão no seu auge físico, pode parecer chocante. Niege, no entanto, acredita que foi o momento certo. “Não foi uma decisão tomada de uma noite para o dia, foi um processo. No momento em que perdi a vontade e a garra de jogar e treinar — porque eu adorava treinar e viajar —, decidi que iria parar. Foi em 1989, dois dias antes de começar o torneio em Miami, que falei para o meu marido que queria parar. Veio de dentro, foi repentino, mas foi natural.”
Outros tempos
Nos mais de 30 anos desde que Niege se aposentou da carreira de atleta, muita coisa mudou no mundo e no tênis, do surgimento dos telefones celulares à luta dos atletas profissionais por mais direitos.
“Na minha época era duro. Eu viajava em média nove meses por ano e só tinha o treinador comigo no máximo dois meses. Passávamos muito tempo sozinhos. Os torneios também não davam os incentivos de hoje, como hotel e transporte pagos, mas isso fazia a gente criar casca. Hoje as melhores jogadoras têm uma equipe inteira com médico, fisioterapeuta, treinador e até animais de estimação”, observa.
Apesar da rotina solitária, a tenista relata que era difícil fazer amizades dentro do circuito, uma vez que todas eram concorrentes. Algumas atletas tinham mais afinidade, outras acabavam convivendo mais porque se tornavam parceiras de treino ou jogavam juntas em torneios no exterior. No entanto, mesmo quando não havia amizade ou um contato maior, as atletas nutriam um laço de respeito muito forte umas pelas outras.
“Era difícil manter uma amizade assim, porque eram todas concorrentes diretas, mas a gente se respeitava muito”, conta. “Tínhamos trocas profundas de informação com jogadoras da Cortina de Ferro, por exemplo, principalmente as russas e as búlgaras.”
O que se espera de um atleta de alto rendimento também mudou. “Hoje eu não conseguiria ser tenista profissional. Sou muito reservada. Agora não é só jogar tênis, tem que cuidar das redes sociais, fazer vídeo disso e daquilo, eu não conseguiria.”
A ex-tenista também destacou uma mudança que passa despercebida para quem não vive o dia a dia de competição: as lavanderias. “Hoje é obrigatório ter lavanderia no complexo dos torneios, o que é uma maravilha. Na nossa época tínhamos que andar horas com sacolas procurando lavanderia para lavar as roupas de jogo”, lembra.
Cara a cara com uma lenda
Quando tenta lembrar dos momentos mais emblemáticos da sua carreira, um dos primeiros que vem à tona é o confronto com Chris Evert, na segunda rodada do US Open, em 1987. A estadunidense conquistou 18 títulos de Grand Slam e foi líder do ranking por 260 semanas entre 1975 e 1985, sendo que apenas Steffi Graf, Martina Navratilova e Serena Williams ocuparam o topo do ranking por mais tempo que ela. Quando enfrentou a brasileira, Evert era a terceira melhor do mundo.
“Perdi por 6/0 e 6/1, foi uma lavada. Mas o mais engraçado foi na saída do vestiário, porque ela já era um fenômeno, então para todo lugar que ela ia tinha um monte de seguranças. Quando ela saiu para ir para a quadra eu tive que ir correndo e gritando atrás, ou corria perigo dos seguranças me confundirem com fã e não me deixarem entrar na quadra pra jogar com ela”, conta rindo. “Foi ali que percebi que precisava evoluir muito ainda. Acho que se eu tivesse continuado jogando, acho que tinha potencial pra ir até um top 15, mas acho que não chegaria a disputar o topo.”
Niege também lembrou com muito carinho de uma sequência de torneios no Japão, logo que fez sua transição da categoria juvenil para a profissional, que foi justamente sua porta de entrada para enfrentar Evert no US Open. Foram quase dois meses viajando pelo país, período em que foi campeã de torneios em Matsuyama e Kyoto.
“Naquela época precisávamos pontuar em seis torneios para ter ranking no profissional. Fomos disputar um circuito no Japão com cinco etapas e mais um torneio separado. Fui muito bem. Ganhei dois e consegui ranking para entrar no qualifying do US Open e depois direto na chave principal de Roland Garros”, relata.
Nova forma de viver o tênis
Apesar da aposentadoria precoce, Niege nunca abandonou de fato o tênis, apenas passou a viver o esporte de outra forma. Inicialmente, fez a transição para treinadora. Foi capitã de equipes brasileiras em cinco campeonatos sul-americanos, ajudando o Brasil a se classificar para cinco campeonatos mundiais e alcançando o quarto lugar com a equipe feminina de 14 anos.
No entanto, nos últimos 25 anos, voltou ao Rio Grande do Sul, onde hoje ocupa cargo de pro head de tênis no Belém Novo Golf Club, na Zona Sul de Porto Alegre. O projeto começou com a construção de quadras para moradores do condomínio e acabou ultrapassando as expectativas.
“Quando nós construímos as quadras aqui eram muito poucos moradores. O projeto começou no social e hoje cresceu e está mais competitivo. É uma comunidade pequena, mas muito unida e bonita. De vez em quando recebo alguns convites para coisas maiores, mas estou feliz aqui, seria muito difícil ir embora”, admite.