Esportes

Como foi a estreia da categoria infantil na Copa dos Campeões de Fisiculturismo

Participação das crianças não levou em conta aspectos como avaliação dos corpos

Campeonato Gaúcho de fisiculturismo com categoria para crianças
Campeonato Gaúcho de fisiculturismo com categoria para crianças Foto : Pedro Piegas

O movimento na PUCRS ainda era pequeno perto do que viria a seguir. A partir das 13h, milhares de estudantes testariam os seus conhecimentos ao responder as questões do Enem. Mas por volta das 9h, o perfil de quem se dirigia ao prédio do Salão de Atos era bem diferente. Homens e mulheres fortes, muito fortes, chegavam aos pouco com um objetivo definido: conquistar o título em alguma categoria da Copa dos Campeões, o evento mais tradicional de fisiculturismo no Estado. Em meio a uma variedade de corpos tão musculosos que testariam a capacidade de Michelangelo, no entanto, havia uma novidade difícil de ser notada à primeira vista. Era a primeira vez que a competição teria uma disputa na categoria infantil.

De acordo com todos os responsáveis e apoiadores da competição, o objetivo é simples e direto: incentivar uma vida saudável e ativa fisicamente desde a infância. Dado o tamanho dos atletas profissionais, não chega a ser surpresa que a novidade tenha vindo acompanhada de uma série de dúvidas e questionamentos: afinal de contas, fisiculturismo pode ser coisa de criança?

Quem acompanha o esporte sabe que, cada vez mais no Brasil, as crianças estão entrando no universo que coloca em foco o desenvolvimento corporal. Esse interesse normalmente acontece pelo contato próximo aos pais que já são atletas bodybuilding ou por já apresentar habilidades desde cedo dentro de casa – uma aproximação com o esporte que ocorre de forma espontânea e natural.

A dinâmica porém é totalmente diferente dos adultos. Enquanto que homens e mulheres fisiculturistas prezam pelo corpo perfeito, proporção, simetria, condicionamento e beleza, os integrantes da categoria infantil – ou Children Fitness, como também é conhecida – focam apenas na performance acrobática e no controle do próprio corpo.

A apresentação na categoria infantil se aproxima muito mais dos exercícios da ginástica artística do que propriamente das poses do fisiculturismo. Durante a disputa, costumam aparecer acrobacias e pontes circenses, além de números semelhantes à ginástica rítmica, sendo solos ou em duplas – levando em consideração a batida da música elencada para movimento. Do mesmo jeito que os adultos, são as crianças que escolhem as canções e contam com a ajuda e observação de pais treinador e da diretora de arbitragem para construir cada espetáculo.

Nos bastidores da estreia

No Salão de Atos da PUCRS, são dois os corredores possíveis para quem vai ao palco. Pelo lado esquerdo, as salas estão quase todas ocupadas. Uma delas virou o centro de transmissão do evento via streaming e palco para entrevistas. As demais servem ou como camarim ou como espaço para a pintura corporal que todos os atletas profissionais fazem para realçar todo e cada músculo.

À medida que o tempo passa, o cheiro, uma mistura de odor de vestiário com tinta e protetor solar, vai ficando cada vez mais enjoativo. Acostumados, os atletas, homens e mulheres com trajes mínimos, parecem nem ligar. A coloração que dá tom alaranjado aos concorrentes é tamanha que a organização cobriu todas as paredes do corredor com plástico preto para evitar manchas.

No corredor do outro lado, o cenário é completamente distinto. Uma das salas é transformada em QG e cozinha ao mesmo tempo. O movimento ali perto é bem menor por um motivo simples: não há circulação de atletas por ali. Entre os motivos, está a proteção às crianças. Todos os sete competidores – cinco meninas e dois meninos – ficam alojados em uma sala própria o tempo todo. “Em momento algum elas têm contato com os outros atletas”, ressalta Luciano Gonçalves, presidente da Federação de Bodybuilding e Fitness do Rio Grande do Sul (IFBB RS).

Após a primeira etapa na sala de ensaios, as atletas mirins vão para os últimos ajustes da performance: fazer a maquiagem e o cabelo. Neste momento, é quando as crianças que desejam, passam um blush, fazem micro desenhos no rosto com delineador ou passam um glitter para brilhar ainda mais no palco e chamar a atenção dos jurados.

Gonçalves destaca que a dinâmica da nova categoria é realizada de forma particular, pois a prioridade é a diversão e a saúde desse público.

"O processo é sempre no tempo da criança e não no nosso tempo. A gente tem todo um trabalho com psicólogos, com pessoas especializadas em crianças junto com nós”.

Gonçalves também explica que o intuito do júri da categoria infantil é apontar o quanto a criança está saudável. “Se avalia o conjunto geral: a criança é ativa? Ela é saudável? Ela mostra que ela está feliz? Toda essa questão lúdica faz parte da avaliação”, completa. A vestimenta, que chegou a suscitar muitas dúvidas, também é diferente. Nada de sunga ou biquínis, por óbvio. Os meninos sobem ao palco de bermudas; as meninas, de short e top.

Organizadores fizeram questão de repetir seguidas vezes que os corpos das crianças não seriam avaliados | Foto: Pedro Piegas

Hora da performance lúdica: o que avaliar?

A diretora de arbitragem da IFBB-RS, Júlia Bittencourt, explica que por se tratar de crianças, o peso da avaliação do físico é menor: “O principal critério para avaliar é a apresentação individual delas, que ocorre dentro de um tempo de 90 segundos. Elas vão apresentar força, acrobacias e resistência”.

Durante a sua apresentação solo, Martina, de sete anos, utilizou todas as técnicas que aprendeu para estrear na categoria. A menina, filha de um atleta fisiculturista, vem de uma escola de ginástica e pratica “estrelinha” com duas mãos – ou até uma mão só – desde os três anos de idade. Para a pedagoga e mãe da futura atleta, Paola Costa Guimarães, não há nenhum problema em colocar a filha nesse universo.

“Ela é bem disposta a participar de atividades como essa. Então, hoje a gente veio conhecer e ela gostou. Para mim é bem tranquilo. Eu trabalho com criança e acho bem saudável essa categoria infantil pois não é nada forçado”, declara ela, também fazendo questão de ressaltar a confiança no trabalho do treinador Gabriel Freire.

Por enquanto, em termos de apresentação da categoria, não estão previstas competições. Contudo, com a evolução da equipe há chances de haver premiações por desempenho no futuro. Para o presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS), José Paulo Vasconcellos Ferreira, colocar crianças para competir entre si é preocupante.

“A criança vai ver um amiguinho que ou é maior ou é mais forte ou é mais habilidoso e então já começa uma comparação de quem que é o melhor e isso interfere na autoestima”, explica. O pediatra ainda enfatiza que a SPRS não tem simpatia por esse tipo de grau de exposição e nem pelo grau de competição quando elege-se que o corpo será o instrumento principal da competição.

Os meninos também se interessam pelo fisiculturismo, mas de um jeito diferente. Paulo Roberto Gnoatto, 38 anos, atleta da Elite Pro da IFBB-RS na categoria Mens Physique, inseriu o filho Lucas Uriel Gnoatto, oito anos, no esporte porque percebeu o garoto imitando suas poses em casa.

“Desde os quatro anos de idade, o Lucas tem vontade de disputar. Ele começou a querer fazer todo o processo de pintura, ter uma bermuda, subir no palco, fazer as poses e de ganhar o troféu dele”, explica. Mesmo sendo atleta, Paulo enfatiza que ele nunca colocou restrições alimentares e nem exigiu que ele fizesse atividade física.

“A medicina diz que as crianças não podem fazer atividades físicas que atrapalhem o crescimento motor dele. Eu entendo isso porque eu faço parte da área da educação física, da área da saúde, então eu também, como pai, tenho esse cuidado. Quero que ele brinque, que ele seja criança. Não estou expondo o meu filho. Ou eu, quando levar ele para a piscina, vou ter que manter ele de camiseta? Não pode ir de sunga para a praia porque estou expondo ele?”, explica.

Crianças ficam em uma sala afastada dos demais atletas adultos durante a competição | Foto: Pedro Piegas

Ansiosas, por volta das 13h, as crianças finalmente são levadas ao backstage para a sua participação. Da coxia, observam adultos serem premiados e saírem de lá felizes tanto pelo título conquistado quanto pela possibiliadade de, nos próximos dias, finalmente dar uma folga na rígida dieta que praticamente corta do cardápio qualquer coisa gostosa e, consequentemente, calórica.

Um rápido ensaio sobre posições no palco é feito ali mesmo, atrás das cortinas. Por fim, a categoria é anunciada com pompa pelo presidente Luciano Gonçalves, que fez questão de exibir um vídeo com competições infantis de outros países. Sob aplausos, entram primeiro as meninas. Antes da apresentação, nova fala, desta vez da diretora de arbitragem Priscila Nunes, que destaca o intuito mais educacional do que competitivo. Frisa mais de uma vez que os corpos não serão avaliados.

As apresentações em si são rápidas e recebidas com entusiasmo pela plateia. Talvez para inibir qualquer crítica a um ambiente de competitividade entre crianças, tanto na categoria feminina como na masculina, não há primeiro ou segundo lugares. Todos são premiados. Os pais são chamados ao palco e a família é exaltada.

Assim se encerra a categoria infantil na Copa dos Campeões. Ou, dependendo do ponto de vista, assim começa uma nova caminhada para futuros fisiculturistas.

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