Quando a Argentina saiu perdendo por 2 a 0 para o Egito nas oitavas de final da Copa do Mundo, o placar parecia definitivo. Lionel Messi desperdiçou um pênalti quando a equipe já estava em desvantagem e ainda assim, os argentinos reagiram. Em apenas 13 minutos marcaram três gols, viraram a partida e garantiram vaga nas quartas de final. Com a classificação, a Argentina tornou-se a única representante sul-americana ainda viva na competição e segue em busca do quarto título mundial. Dias antes, o Brasil teve um destino diferente. Depois de levar dois gols da Noruega, não conseguiu reagir e acabou eliminado nas oitavas de final.
Pentacampeão mundial, o Brasil segue como o maior vencedor da história das Copas, enquanto a Argentina vive um dos momentos mais consistentes de sua trajetória recente, embalada pelo título conquistado em 2022. Mas, para além da qualidade técnica dos elencos, até que ponto liderança, confiança e capacidade de reação influenciam o comportamento de uma equipe nos momentos decisivos?
O psicólogo Lucas Elias Rosito explica que confiança não é uma característica permanente de um grupo, tampouco uma qualidade individual de determinados atletas. Ela é construída ao longo do tempo, a partir das experiências vividas pela equipe.
"A confiança é resultado de uma série de fatores que se relacionam. Quando a nossa equipe vence, isso nos dá um pouco mais de confiança. Quando a gente consegue encaixar uma estratégia, consegue desenvolver uma estratégia de jogo, isso nos traz confiança. Quando os nossos maiores talentos estão em condições plenas, isso também nos traz confiança", afirma.
Segundo ele, quanto maior o tempo de convivência entre os atletas, menor tende a ser a oscilação emocional do grupo. "Quanto mais a equipe se conhece, menos oscilação de confiança vai ter." Essa construção coletiva ajuda a explicar por que algumas equipes conseguem responder melhor quando enfrentam situações adversas durante uma partida decisiva.
Especialista em Psicologia do Esporte, tendo atuado como Consultor do Comitê Olímpico Brasileiro nos Jogos de Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016, Rosito diz que o gol sofrido não representa só uma mudança no placar. Ele desencadeia uma resposta emocional que precisa ser administrada rapidamente.
"Quando a gente pensa no que acontece quando uma equipe toma um gol num jogo decisivo, a gente tem uma situação estressora dentro de um contexto específico. Se tu toma um gol no início do jogo, tens muito mais tempo para responder. Mas, quando isso acontece na metade para o final da partida, passa a ser um grande estressor", explica.
A Argentina chega a esta Copa com vantagens justamente nesse aspecto. Não porque exista uma característica inerente ao futebol argentino, mas porque esse grupo foi sendo construído ao longo de diferentes competições, acumulando experiências, derrotas e conquistas. "A seleção argentina tem alguns elementos que vêm de uma ou duas Copas do Mundo, bem mais experimentados, numa geração que se acostumou a enfrentamentos difíceis e a conquistas em condições nem sempre tão favoráveis."
Esse histórico permitiu que a equipe desenvolvesse recursos emocionais para enfrentar momentos críticos, como explica Rosito: "Dentro da seleção da Argentina, dentro desse grupo de trabalho, com esse treinador específico, na liderança do Messi, na presença de um goleiro, que também se tornou uma peça importante ali, reunida, obviamente, com um grupo de jovens e um grupo de atletas talentosos, foi constituindo uma condição onde, embora nem sempre o jogo seja um jogo atraente tecnicamente, do ponto de vista psicológico, é uma equipe muito interessante, porque é uma equipe que claramente tem recursos para lidar com circunstâncias difíceis, tem recursos para lidar com reveses do jogo."
Diferentes lideranças no campo
As comparações entre Messi e Neymar costumam surgir sempre que Brasil e Argentina dividem o protagonismo no futebol sul-americano, mas o antropólogo e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Arlei Sander Damo, observa que toda seleção possui diferentes formas de liderança. Para ele, embora Messi e Neymar sejam símbolos de seus países, hoje exercem lideranças bastante diferentes.
"No caso da Argentina, o Messi é de fato um jogador fora de série. Ele está muito acima dos outros jogadores e, obviamente, é uma liderança técnica. Esse é o tipo de liderança que mais conta no futebol", afirma. Sobre o brasileiro, a avaliação é diferente. "A liderança do Neymar já não é mais uma liderança técnica. Eu acho que ele ainda é uma liderança carismática. Muitos jogadores gostam dele, ele é conhecido pela relação de amizade que tem com os companheiros. É importante ter pessoas assim dentro de um grupo, mas é uma liderança diferente."
Mesmo assim, Damo ressalta que reduzir uma seleção ao seu principal craque também simplifica excessivamente o futebol. "Em um grupo você tem mais de uma liderança. O capitão da Seleção Brasileira era o Marquinhos. O Casemiro também exerce uma liderança importante. O problema é que isso não foi suficiente.”
Em campo, essa combinação entre experiência coletiva e diferentes formas de liderança ficou evidente durante a reação da equipe de Lionel Scaloni nas oitavas de final. Mesmo depois de sofrer dois gols e desperdiçar um pênalti, a equipe manteve sua organização e encontrou forças para reverter um cenário que parecia definitivo. No caso brasileiro, Rosito entende que o problema não esteve na falta de talento individual. Para ele, a Seleção ainda não havia conseguido consolidar uma identidade coletiva suficiente para enfrentar situações extremas.
"O Brasil chega ainda sem uma forma clara e reconhecível de time. É um grupo de grandes jogadores, mas não é rigorosamente um time no sentido da sintonia, no sentido de que estão estrategicamente bem enquadrados", afirma.
O psicólogo observa que a equipe de Carlo Ancelotti evoluiu ao longo da competição, mas encontrou adversários cada vez mais difíceis. Quando sofreu o primeiro gol da Noruega, precisou responder rapidamente a uma situação para a qual ainda não estava suficientemente preparada. “A Seleção Brasileira não conseguiu desenvolver esse entrosamento, não conseguiu desenvolver essa cultura e, certamente, como conjunto, não tinha os recursos necessários para lidar com as circunstâncias estressoras à medida que elas foram aparecendo.”
Se fatores como confiança, liderança e experiência ajudam a explicar o comportamento de uma equipe, isso não significa que os resultados em campo possam ser usados para explicar o caráter de um país. Segundo Damo, existe uma tendência de transformar o desempenho das seleções em interpretações sobre a índole de brasileiros e argentinos, leitura que considera equivocada. "Eu sou muito crítico a essa questão de tentar olhar para a seleção nacional e declinar elementos sobre a índole, o caráter ou a moral de um país. Isso não se justifica", afirma. O pesquisador lembra que os atletas são escolhidos por critérios técnicos e não representam uma síntese da sociedade brasileira ou argentina.
O próprio histórico recente da equipe Albiceleste contradiz a ideia de uma superioridade psicológica permanente. Antes do título conquistado no Catar, a seleção passou décadas convivendo com eliminações precoces e frustrações em Copas do Mundo.
"A Argentina está num momento bastante favorável. Ganhou a última Copa e está fazendo uma boa campanha agora. Mas passou muitos anos sem performar bem em Copas do Mundo. Então, é preciso ter muito cuidado para abstrair conclusões gerais a partir de eventos tão pontuais como um jogo de futebol", diz Damo.
Uma Copa do Mundo costuma evidenciar justamente as equipes que conseguem equilibrar qualidade técnica e estabilidade emocional. "A Copa do Mundo não é só sobre quem joga o melhor futebol. É sobre as equipes que estão prontas para sobreviver nessas condições. E daí vem a experiência, o entrosamento, o histórico recente dessas equipes em circunstâncias semelhantes", resume Rosito.
A eliminação do Brasil e a campanha argentina mostram que, em torneios cada vez mais equilibrados, a técnica continua sendo indispensável. Mas também reforçam que a maneira como uma equipe enfrenta a pressão, organiza suas lideranças e responde aos momentos de adversidade pode definir o destino de uma Copa do Mundo.
*Sob supervisão do jornalista Carlos Corrêa
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