Copa do Mundo

Como a gaita de fole virou um item obrigatório para a torcida da Escócia na Copa do Mundo

Frequentemente associada aos escoceses, história do instrumento musical remonta a épocas mais antigas e episódios de guerra

O fole, que dá nome à gaita, funciona como um reservatório de ar
O fole, que dá nome à gaita, funciona como um reservatório de ar Foto : Alina Souza / CP

Ao som de “Scotland, the Brave”, melodia que embalou a seleção escocesa nos Mundiais de 1982, 1986 e 1990, a Escócia faz uma parada em Porto Alegre antes de encarar a Seleção Brasileira no último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo 2026, nesta quarta-feira. Em meio a palpites sobre o placar da partida que decide o futuro do Brasil na competição e curiosidades sobre o retrospecto entre as duas equipes, o músico gaúcho Tales Melati explica a relação entre a gaita de fole e a torcida escocesa.

“É um som muito peculiar, que tu escuta e identifica: ‘Eu sei que é uma gaita de fole’”, diz Melati, que integra a mais recente turnê do Rock de Galpão, mesclando as sonoridades da gaita de fole ao rock e ao cancioneiro gaúcho. A melodia característica da gaita de fole, presente em obras audiovisuais como o filme “Coração Valente” e a série “Outlander”, também faz parte da cultura futebolística do país do norte do Reino Unido.

“Scotland, the Brave”, canção interpretada por Melati em visita ao Correio do Povo, acompanhou a seleção escocesa em três mundiais. Originada no século XIX, e com letra acrescentada na década de 50, a música era ouvida antes do início das partidas da Escócia nas Copas de 1982, 1986 e 1990.

O nome da torcida, "Exército Tartan", vem da estampa tartan, que possui padrões em xadrez e figura na saia escocesa, o kilt | Foto: Joseph Prezioso / AFP / CP

A canção é considerada um dos três hinos extraoficiais da Escócia, ao lado de “Scots Wha Hae” e “Flower of Scotland”. Esta última é a música mais reproduzida atualmente pelo “Tartan Army”, ou “exército Tartan”, como a torcida da seleção escocesa é conhecida.

Instrumento escocês?

Frequentemente associado à Escócia, o surgimento da gaita de fole ainda é incerto. Embora historiadores e estudiosos como a Associação Portuguesa para o Estudo e Divulgação da Gaita-de-foles apontem sua origem tenha relação com os arredores do Mar Mediterrâneo – região que compreende os continentes africano, asiático e europeu –, não se sabe ao certo quem inventou o instrumento.

“A gaita de fole está presente em vários países, porque a origem do instrumento é mais antiga”, diz Melati, que estuda a gaita de fole há 20 anos. Pesquisador de instrumentos de sopro, a descobriu a partir de um grupo folclórico de música em Porto Alegre. “Depois eu virei um colecionador de instrumentos exóticos”, brinca, mencionando a smallpipes escocesa, gaita com som acústico.

Segundo Melati, o surgimento da gaita de fole remonta a outros formatos de instrumentos, como as flautas tocadas por gregos e egípcios. “É um instrumento que atravessou o tempo”, observa o músico, que dá aulas e faz palestras sobre a gaita de fole e outros instrumentos pertencentes à música celta.

Ao mesmo tempo que a gaita de fole sucedeu as flautas gregas e egípcias, ela também serviu como antecessor de outros instrumentos. De acordo com Melati, o fagote e oboé, comuns em orquestras, são possíveis adaptações modernas da gaita de fole. Assim como ela, os dois apresentam palheta dupla.

Fole

Nome que batiza a gaita, o fole veio, então, para funcionar como um reservatório de ar. Uma das entradas da gaita de fole, o soprete, serve exclusivamente para inflar o recipiente.

Hoje produzido com material sintético, antigamente o fole era feito com pele dos animais – a mesma utilizada em odres. Foi acoplado ao restante da gaita com o tempo.

Instrumentos de duas flautas, que já eram tocados nos século a.C. na Grécia e no Egito, por exemplo, demandavam muito fôlego. “Como são instrumentos antigos, ninguém sabe como começou, se era realmente assim que se tocava naquela época. Algumas coisas são suposições”, pontua Melati.

Arma de guerra

Ao contrário de outros países, onde a gaita de fole era reconhecida apenas como instrumento musical, a Escócia deu um novo uso à ela: arma de guerra. Da Idade Média ao século XVIII, os escoceses a utilizavam para indicar manobras e motivar seu exército. Além disso, Melati conta que a altura e a intensidade do som criadas pela gaita de fole criavam a impressão de que o exército possuía uma quantidade maior de guerreiros do que aquela correspondente à realidade.

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Nas guerras contra a Inglaterra, como as Revoltas Jacobitas dos séculos XVII e XVIII, os clãs escoceses das Terras Altas utilizavam o instrumento.

“Eles mandavam uns três gaiteiros na frente do exército escocês, e como era um exército muito forte, os ingleses achavam que eram muitos gaiteiros e que o exército era muito grande”, afirma Melati. “Isso já causava um fator psicológico no inimigo.”

Segredos da gaita de fole

Por não ter origem exata, existem vários modelos de gaita de fole. Como explica o músico, os formatos respeitam a configuração do corpo: “O instrumento se assemelha muito ao tipo físico das pessoas. Os escoceses são pessoas altas, então o instrumento é maior, o fole é maior”, analisa. “A gente tem que tocar de um jeito diferente a escocesa, com a falange dos dedos”. Ele explica que a gaita-de-fole escocesa tem o dobro do volume da gaita de fole da Galícia, no norte da Espanha, por exemplo.

“Não tem controle de volume, o volume é esse aqui”, disse o músico ao mencionar que precisava afinar o instrumento antes de tocá-lo. Logo o som ocupou toda a sala e os arredores onde Melati conduzia o instrumento.

Mudanças de temperatura demandam mais afinação do instrumento, parcialmente feito de madeira | Foto: Alina Souza / CP

As mudanças de temperatura também demandam mais afinação, especialmente devido às partes feitas em madeira. “É um instrumento muito artesanal. Ele é fabricado somente com artesãos”, pontua Melati. A gaita de fole que ele tocava, por exemplo, levou um ano para ficar pronta. Devido a isso, é preciso fazer pequenas afinações no instrumento: “Utilizo uma fita. Tapo um pedacinho do furo e corrijo uma microafinação.”

Gaita de fole no Brasil?

A Carta de Pero Vaz de Caminha traz uma menção a uma gaita. “Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita”.

Para Melati, o episódio pode estar relacionado com a gaita de fole, também presente em regiões de Portugal. “Como a gente sabe que esse instrumento estava muito ligado às navegações, possivelmente era uma gaita de fole da região de Miranda do Douro, que é uma região de Portugal”, diz o músico.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que a relação trata-se de uma hipótese. “A palavra gaita, nessa época, pode significar vários outros instrumentos. A etimologia da palavra significa ‘cabra’”, aponta, relembrando que o fole antigamente era feito principalmente com couro de cabra. A própria sanfona, que, no Rio Grande do Sul é chamada de gaita, recebe o nome porque era afinada com gaita de boca.

*Sob supervisão de Carlos Correa