Copa do Mundo

Torcedor de São Leopoldo preserva a memória do futebol brasileiro

Aos 52 anos, Salomão Furer Junior tem mais de 700 camisas da Seleção

Salomão ainda tem um sonho especial: uma camisa utilizada pelo atacante Garrincha
Salomão ainda tem um sonho especial: uma camisa utilizada pelo atacante Garrincha Foto : Fernanda Bassôa / Especial CP

Enquanto os torcedores aguardam ansiosos pela entrada da seleção verde-amarela em campo, com data de estreia para 13 de junho, marcando mais uma Copa do Mundo, Salomão Furer Junior, 52 anos, consegue narrar parte das maiores disputas mundiais protagonizadas pelos atletas brasileiros através das 700 camisas que mantém em seu apartamento em São Leopoldo.

Ao abrir portas e gavetas, conta seu amor e apego a centenas e repetidas peças de uniformes, algumas amarelas, outras, em tons de azul e branco, de diferentes épocas, usadas por vários jogadores, em inúmeras disputas.

Quatro das peças, que tem destaque no acervo de Furer Junior, ganharão lugar especial durante os dias de Copa do Mundo: a camisa 9 de Ronaldo, o Fenômeno, da Copa de 98; a camisa número 6, usada pelo jogador Branco, na Campanha do Tetra, in 1994; a de Valdir Pérez, número 1, usada em 82; e a 18 de Sócrates, de 1986. Todas farão parte de exposição no Museu do Futebol, em São Paulo, com encerramento no mês de setembro.

Fã de Sócrates

Elas foram levadas pessoalmente até os organizadores e entregues em mãos pelo dono da coleção. “Fico lisonjeado em ter minhas peças expostas no Museu do Futebol. Tenho certeza de que a camisa do Ronaldo vai ser a mais fotografada. Além disso, ter uma placa com meu nome, o nome da minha cidade e do Rio Grande do Sul, é um orgulho.”

Fã de Sócrates, o leopoldense diz que não lembra da sua vida antes da paixão pelo futebol. Torcedor do Aimoré, time leopoldense, afirma colecionar itens futebolísticos desde criança. Entre medalhas, bonés, calções, agasalhos, copos, canecas, talheres, autógrafos, chuteiras e mais de 6 mil camisas, a preferência do administrador de imóveis é por camisas da Seleção Brasileira, que somam mais de 700, e da Seleção Gaúcha, além do time Capilé.

Paixão cresceu aos oito anos

“Nunca achei graça em brincar com carrinhos. Gostava mesmo era de correr no gramado, com os amigos, atrás da bola e fazer gols, além de jogar futebol de botão.” Ele recorda que a paixão pelo futebol foi reforçada vendo a Copa de 1982. “Eu tinha oito anos. Naquela época, os jogadores eram mais representativos. Falcão, Sócrates e Zico. Toda vez que se fala naquela Copa, até hoje, me bate uma tristeza de pensar como é que não ganhamos.”

O colecionador não lembra dos primeiros itens que ajudaram a compor o acervo, mas hoje o que atrai o interesse de Junior são as camisas de atletas usadas antes da Copa de 1998. “Gosto das peças mais antigas, entre os anos 1950, 1970 e 1990.” Questionado se possui alguma peça usada por Pelé, ele responde que tem uma camisa autografa por ele, mas uma que Edson Arantes do Nascimento tenha usado, “infelizmente não.”

"Quero ter a certeza de que a peça correu o campo”

Apesar da derrota para a França, que levou a taça na Copa de 98, o gaúcho guarda com carinho a camisa número 17, de Doriva, autografada por todos os jogadores da Seleção Brasileira na época. Meio apagada, por conta do tempo, ainda se vê, bastante legíveis, os nomes de Cafu, Bebeto e de Zico, este último que fazia parte da comissão técnica.

Entre camisas, calções e casacos, existem peças manchadas, algumas furadas, umas estilo vintage e pouquíssimas “modernas”. “Valorizo peças que tenham aparência de uso, com manchas, meio amareladas, porque é aí que está a identidade da camisa ou do calção. Gosto de saber que realmente foram usados. Quero ter a certeza de que a peça correu o campo, suou, que fez gol. É um pedaço da história do futebol.”

Valor sentimental

A camisa que mais tem valor para o colecionador é a número 9, do Ronaldo, o Fenômeno. “Porque ele é uma estrela mundial, como o ex-jogador de basquete Michael Jordan, tipo um Pelé, porque está na prateleira dos ídolos mundiais. É uma peça muito especial e vale muito, financeiramente e afetivamente.”

Ele diz que todos os dias recebe propostas de pessoas que se interessam por comprar camisas de sua coleção, especialmente do exterior. “Mas não vendo. Não lembro a última vez que troquei uma camisa. Tenho inúmeras repetidas. Acabo criando um apego. Isso é coisa de colecionador.”

De todas as camisas, a mais especial para o colecionador é a de Ronaldo Fenômeno | Foto: Fernanda Bassôa / Especial CP

Do nada, o calção do Fenômeno

Hoje, muitos dos itens que compõem o acervo de Junior são fruto de doações, quase que inesperadas, para não dizer, inusitadas. Recentemente, esteve em Santa Catarina e foi presenteado por um pesquisador de um time carioca com um calção. “Agradeci, botei o calção na mochila e vim embora. Quando cheguei em casa, me dei conta de que era o calção do Ronaldo, usado na Copa de 2002. Liguei, feliz da vida, para agradecer. Ele disse ainda que era bem provável de o calção ter sido usado pelo jogador na final, quando fez os dois gols.”

Outra história interessante, segundo o colecionador, é de uma camisa usada por Bebeto, encontrada por um amigo de Furer com um morador de rua no Rio de Janeiro. Após uma negociação, a camisa veio parar no guarda-roupa do gaúcho. “Esta precisou ser restaurada.”

Ex-mulher de atleta vendeu várias camisas

Há episódios engraçados. “A ex-mulher de um atleta, que recém tinha se separado, me chamou e me vendeu todas as camisas do ex-marido. O pessoal começou a marcar o jogador nas redes. Pensei, isso vai dar ruim. Era jogador da Seleção. Dias depois, ele me chamou e queria comprar as coisas de volta. Eu disse que não. Ela vendeu tudo do cara: camisas, medalha e até as credenciais”, conta, dando risada.

A ressaca de 24 anos sem título é lembrada por um pedaço da grama vindo do Japão, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato. O presente foi dado por um amigo e é o xodó na casa de Furer. O último item do acervo chegou pelas mãos da cunhada: a camisa número 17, dos anos 1970, usada por Carpegiani. “O que falta para completar minha coleção? Uma camisa usada pelo Garrincha na Seleção Brasileira. Seria um sonho”.

Veja Também