Ser eternizada na história de um clube não é para qualquer um. Mas conseguir esse feito e de quebra ainda ser a primeira mulher da história a atingi-lo é algo que não se presencia todo o dia. Em setembro, o Grêmio marcará para sempre no seu estádio uma das personagens mais importantes da sua história. Marianita Nascimento, diretora do departamento de futebol feminino e uma das precursoras da modalidade no Rio Grande do Sul, foi escolhida para integrar a Calçada da Fama da Arena.
Ao lado dela, o Conselho Deliberativo do Grêmio também escolheu outros dois nomes, Arce e Carlos Miguel, ambos campeões pela Libertadores pelo clube. Estar ao lado de tantos outros grandes nomes da história gremista fez com que Marianita chegasse a se questionar se seria uma das indicadas. Ao todo, eram sete candidatos para apenas três vagas. A atual diretora foi o primeiro nome a ser escolhido para estar na esplanada.
"Isso é baseado em todo um compilado de currículo sobre as trajetórias de cada um, com comprovações do Museu do Grêmio, do Museu do Futebol em São Paulo e do Museu do Rio de Janeiro. Por isso, em algum momento eu pensei que seria difícil por conta de todos os títulos de campeões dos outros candidatos, então quando eu soube me tocou profundamente", conta.
A homenagem, segundo ela, não é apenas para o Grêmio mas para toda a luta que o futebol feminino enfrentou há 40 anos atrás e que persiste até hoje. Atleta pioneira da modalidade no Tricolor em 1980, Marianita atuou fortemente para a regulamentação da prática no Brasil. Em 1983, fundou o primeiro departamento para a prática de futebol para mulheres no Grêmio e, mesmo assim, era necessário usar o nome Sport por ser proibido o vínculo com o clube.
Legado construído ao lado de tantas outras
É impossível falar sobre futebol feminino sem entender o passado da modalidade. Se hoje o caminho para uma igualdade entre homens e mulheres é maior, é porque diversas mulheres insistiram em continuar. "Na minha época a gente não tinha nada, só tinha muita vontade. Não tinha preparador físico adequado, os uniformes de jogo eram os mesmos de treino, as bolas eram de couro costuradas, e a gente tinha que passar sebo de carne para não desfiarem. Ou seja, eu tinha duas opções: ou parava ou lutava, e eu optei por lutar", recorda ela.
Por isso, quando soube da homenagem na Calçada da Fama, um filme passou na cabeça de Marianita, de todos os empecilhos enfrentados tanto por ela quanto pelas companheiras lá atrás. Além disso, a dedicatória também é importante para que não haja um apagamento da história do futebol feminino gaúcho e de todo o legado das atletas mais antigas.
"É o meu pé que vai estar lá marcado, mas não sou só eu. É a força de uma geração, é esse resgate para que todos saibam que houve lá atrás as pioneiras que lutaram para a liberação, tanto quanto as outras que a gente nem sabe que existe., mas que também lutaram para este objetivo. Então é uma dedicação para que essas mulheres também sintam que tudo que elas enfrentaram naquele momento não foi em vão", destaca.
Importância para o clube
O simbolismo da homenagem do Grêmio para Marianita vai ainda mais além pelo recorte racial. Além de ser a primeira mulher da história, Marianita é uma mulher negra. Historicamente, o lado azul do Estado tem uma fama não muito positiva com questões raciais, no entanto, ela conta que nunca enxergou nem mesmo presenciou isso dentro do clube, justamente por sempre ter recebido muito espaço em todos os âmbitos.
Ainda, Marianita recorda como eram comuns alguns comentários na década de 1980 que hoje seriam impensáveis. Apesar de reconhecer esse aspecto, nunca se sentiu ofendida e, ao lado do pai que era conselheiro, construiu um legado no Grêmio que, a partir de setembro ficará eternizado na esplanada da Arena.
"É grandioso demais para um clube como o Grêmio. Não cabe no meu peito o tamanho disso. Para mim, é como se fosse um campeonato do mundo, porque estamos falando de eternidade, que é muito maior que um campeonato, por exemplo, a eternidade não é mensurável. Me sinto feliz pelo meu time, que sempre foi considerado conservador, por essa atitude de evolução. Essa valorização mostra que a gente pode muito mais”, conclui Marianita.