A cena no intervalo da derrota para o São Paulo, na noite de quarta-feira, na Vila Belmiro, foi apenas a face mais recente de um problema que se arrasta há meses no Beira-Rio. Quando o placar já apontava 2 a 0 para o time paulista, Juninho virou alvo de cobranças contundentes dos próprios companheiros. Houve discussão dura enquanto a equipe atravessava o caminho até o vestiário, um retrato simbólico da nova queda técnica e emocional do time, que se aproxima de forma acelerada da segunda divisão.
O episódio, isolado, poderia ser tratado como fruto da tensão de um confronto decisivo, no qual o Inter acabou sendo derrotado por 3 a 0. Mas não é. Ele se soma a uma sequência de conflitos internos que escancaram a profunda desagregação do grupo colorado, um dos elementos centrais para explicar a campanha desastrosa no Brasileirão.
Na verdade, os conflitos viraram uma rotina. No primeiro turno, após a goleada sofrida por 4 a 1 para o Palmeiras no Allianz Parque, o vestiário viveu outro momento tenso. Ainda sob o comando de Roger Machado, Mercado e Carbonero protagonizaram uma briga que evoluiu para as vias de fato. A separação dos dois exigiu esforço dos presentes, e o clima explosivo aumentou a distância entre setores do elenco.
Outro ruído grave ocorreu em Salvador, depois da partida contra o Bahia, quando D’Alessandro e Bernabei se desentenderam de maneira áspera. Não houve agressão física, mas o teor da discussão revelou um ambiente fraturado, com relações pessoais deterioradas. O lateral, inclusive, foi envolvido em denúncias de infidelidade matrimonial, que acabaram atingindo por tabela outros jogadores, aumentando a tensão.
Somados, esses episódios formam um diagnóstico claro: não se trata apenas de um elenco desconectado. Trata-se, isto sim, de um grupo que não possui afinidade, não coopera e não consegue se reconstruir emocionalmente diante da pressão da tabela.
A direção até tentou estancar a fissura. Em setembro, promoveu uma atividade em um hotel em Viamão, divulgada oficialmente como um encontro de integração entre todas as áreas do departamento de futebol, com participação de psicólogo e membros da comissão técnica. O objetivo declarado era “romper a rotina”. O real, porém, era outro: tentar reaproximar jogadores, funcionários e dirigentes, reatando laços que já estavam puídos.
Nada funcionou. A falta de sintonia entre os atletas se manteve, assim como a ausência de liderança interna sólida. A resposta em campo seguiu fraca, e a crise emocional aumentou à medida que a zona de rebaixamento deixava de ser risco e se tornava destino.
Na apresentação como técnico, no último domingo, Abel Braga tentou minimizar a gravidade da situação:
“Não escutei de ninguém que o vestiário está rachado. Se estiver rachado, a dificuldade vai ser maior. Mas eu senti o contrário. Os jogadores sorrindo, com um ou outro mais sério. Mas a coisa correu bem”. Cinco dias depois, convivendo com o elenco, é improvável que mantenha a mesma percepção. O racha não era boato e segue sendo a principal explicação para um Inter que, enquanto coleciona tropeços dentro de campo, implode fora dele.