A recuperação judicial como ponto de partida para reorganizar as finanças e a transformação do Inter em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) como etapa final de um processo de reestruturação. Essas são as principais conclusões de um estudo elaborado pela consultoria global Alvarez & Marsal (A&M), ao qual o Correio do Povo teve acesso com exclusividade. O material, reunido em dois arquivos em PDF e produzido ao longo de cerca de quatro meses, apresenta um diagnóstico da situação financeira do clube, traça um panorama do futebol brasileiro e propõe um plano dividido em três etapas, com metas até 2035.
Especializada em reestruturação empresarial e governança, a Alvarez & Marsal foi contratada no fim de 2025 por iniciativa de uma comissão especial criada pelo Conselho Deliberativo. O trabalho foi submetido à análise de um grupo de colorados especialistas em diferentes áreas, além de dirigentes e ex-dirigentes, e deverá ser apresentado aos conselheiros nas próximas semanas. A expectativa é que a reunião ocorra ainda neste mês, quando será distribuída uma versão resumida do relatório.
O estudo traça um caminho para recuperar a saúde financeira do clube e, como consequência, restabelecer sua competitividade esportiva até 2035.
A primeira etapa, denominada "Reestruturação e Austeridade", vai até o fim de 2027. A principal recomendação é que o Inter ingresse com um pedido de recuperação judicial (RJ), mecanismo previsto na legislação que permite a renegociação de dívidas e a reorganização financeira, preservando as atividades da instituição e os direitos dos credores.
Como alternativa, a consultoria cita a adesão ao Regime Centralizado de Execuções (RCE), mas considera essa opção menos abrangente e mais arriscada. O relatório ressalta que o instrumento é destinado apenas às SAFs e oferece menos segurança jurídica do que a RJ.
Além da reestruturação financeira, a primeira fase prevê mudanças na governança. A consultoria recomenda uma reforma estatutária para ampliar a profissionalização da gestão, reduzindo o poder de decisão dos dirigentes eleitos e fortalecendo a atuação dos executivos contratados. Também sugere a ampliação do Conselho de Gestão com a inclusão de dois membros independentes (não políticos) e a adoção de novas práticas de governança corporativa.
Segundo os cálculos da A&M, o Inter precisará captar aproximadamente R$ 200 milhões adicionais até o fim de 2027 para conseguir honrar minimamente seus compromissos financeiros, mesmo considerando as receitas projetadas para o período.
A segunda fase, denominada "Solução do Endividamento", está prevista para os anos de 2028 e 2029. O objetivo passa a ser reduzir o passivo e ampliar as fontes de receita. Entre as alternativas sugeridas estão operações envolvendo terrenos do clube em parceria com a Prefeitura de Porto Alegre — iniciativa classificada como de alta complexidade por depender de negociações com o poder público —, além da rentabilização dos canais de comunicação, do relacionamento com os sócios e da bilheteria.
Embora considere que o clube já possa iniciar os estudos para uma eventual transformação em SAF nessa etapa, a consultoria recomenda que a operação seja efetivamente realizada apenas na terceira fase do projeto.
Batizada de "Crescimento e Potencial", a última etapa se estende de 2030 a 2035. A avaliação da Alvarez & Marsal é que, até esse momento, o Inter terá reorganizado sua situação financeira e estará em condições significativamente melhores para negociar uma eventual transformação em SAF, preservando maior poder de barganha na busca por investidores e, consequentemente, obtendo melhores condições para o negócio.
De acordo com o relatório, a transformação em SAF criaria as condições para uma "aceleração do crescimento", proporcionando uma "injeção de capital para investimento em infraestrutura e no futebol". Nesse cenário, o clube voltaria a ter capacidade para ampliar os investimentos no elenco e executar projetos estruturais, como a construção do futuro centro de treinamentos em Guaíba.
O relatório será apresentado e debatido no Conselho Deliberativo para avaliar se o clube adotará as recomendações. Embora o Inter tenha eleições no fim do ano, que definirão o sucessor de Alessandro Barcellos na presidência, as primeiras iniciativas ainda deverão ocorrer durante sua gestão. Entre elas está a decisão sobre qual caminho seguirá para enfrentar a crise financeira: recorrer à recuperação judicial ou aderir ao Regime Centralizado de Execuções. Ou seja, a discussão está em seu início.