Inter

Fundo da LFF detalha negociações com Inter e defende liga com equilíbrio financeiro entre clubes

CP entrevistou Carlos Gamboa, sócio da Life Capital Partners

Partida tem início às 19h no estádio Beira Rio
Partida tem início às 19h no estádio Beira Rio Foto : Luis Gonçalves / CP Memória

Desde o início do ano, o Inter tem um contrato e negocia a sua filiação a Liga Forte Futebol, que já acertou a venda de 20% dos seus direitos por um período de 50 anos para dois fundos de investimentos, o Life Capital Partners (LCP) e a norte-americana Serengeti Asset Management. Apesar disso, na semana passada, o Conselho Deliberativo decidiu abrir negociações também com a Libra, outro grupo de clubes que está sendo formado com apoio da Mubadala Investment Company, que é um dos fundos soberanos de investimentos dos Emirados Árabes Unidos. Na semana passada, o CP entrevistou Sergio Carneiro, diretor executivo da Mudabala. Agora, conversa com Carlos Gamboa, sócio da LCP, que jamais havia concedido entrevista até o início das negociações com os clubes.

O senhor ainda acredita na formação de uma liga unificada no Brasil?
Carlos Gamboa​: Totalmente. Acho que não só tem espaço, como estamos lutando dia e noite para que isso aconteça. A grande discussão são as bases. Nós entendemos que as bases dessa unificação devem ser justas e sólidas, porque a gente está falando de algo que é transformador para o futebol brasileiro. Não faz sentido carregar práticas equivocadas do passado. Em termos financeiros, por exemplo, acreditamos nos modelos que deram certo, e aqui estamos falando, em particular, dos modelos europeus como a Premier League, a La Liga, a Bundesliga, a Série A, a Ligue 1 na França. Em todos esses modelos, o critério de distribuição de resultados financeiros é equilibrado. A distância entre o topo e a base da pirâmide é pequena. No Brasil, se você for olhar o histórico, o modelo é mais desigual. Alguns clubes recebem, seja pela sua representatividade, torcida ou poder político, um valor desproporcionalmente maior do que deveriam receber. E isso não é uma questão de justiça social, de a gente tirar dos ricos para dar aos pobres. O que queremos é ter uma liga mais equilibrada para, no fundo, gerar uma competitividade maior e melhorar o produto.

Porque a proposta da LFF é melhor para o Inter do que a da Libra?
Carlos Gamboa: Eu acho que o Inter tem que levar três fatores em consideração nessa análise comparativa. O primeiro, que é o mais fácil, é comparar o valor da transação de venda dos direitos porque em ambos os modelos, tanto na Liga Forte quanto na Libra, os clubes vendem uma porção minoritária dos seus direitos por 50 anos. No nosso modelo, os clubes vendem 20%. No modelo da Libra, pode ser 20%, mas também pode ser 12,5%. Nós oferecemos R$ 218 milhões por 20%, enquanto eles pagam R$ 99 milhões por 12,5%. O segundo ponto que eu acho que o Inter tem que considerar é que a expectativa de recebimento dele ao longo dos 50 anos de contrato, pelos 80% que ele vai manter. Na LFF, a expectativa é superior porque ela não acomoda distorções econômicas do passado. Aqui eu estou especificamente me referindo à garantia mínima, que é um ponto muito caro para alguns clubes da Libra e é algo que não beneficia o Inter. Para finalizar, há a questão da governança. Obviamente, eu não conheço os detalhes do que está sendo discutido lá na Libra, mas o Textor (John Textor, dono da SAF do Botafogo) anunciou a saída do Botafogo da Libra e um dos pontos que ele ressaltou foi o desconforto dele com relação ao modelo que estava sendo discutido dentro da Libra. Ele usou, salvo engano, termos como “caixa preta” ou “a coisa já vem pronta e a gente não tem condição de participar, de discutir”. Isso para mim é muito sintomático.

O Inter começou a negociar também com a Libra. Até quando a LFF vai esperar o Inter?
Carlos Gamboa​: Eu não posso responder pela LFF, pois sou o investidor. Não sou um membro da LFF. Mas o que posso dizer é que a gente está muito próximo de assinar um contrato vinculativo com os clubes da LFF. O Inter já assinou o term sheet. Embora não tenha submetido à aprovação interna (do Conselho Deliberativo), o Inter já assinou. O único que não assinou o term sheet foi o ABC (RN). Isso aconteceu em fevereiro e, desde então, todos os clubes levaram aos seus respectivos órgãos de governança para aprovação. Agora, estamos discutindo as últimas cláusulas que vão compor esse nosso contrato, que é um contrato definitivo. Então o que nós esperamos? Que esse contrato seja finalizado e assinado pelos clubes na data que foi combinada.

Essa data seria 7 de julho?
Carlos Gamboa​: Não. Vai acontecer muito antes.

O problema é que em alguns clubes, esse tipo de assunto precisa passar o assunto pelo Conselho Deliberativo. O Inter é um deles. Por isso, demora mais....
Carlos Gamboa​: Eu entendo e acho que o Inter tem uma questão própria dele. De fato, o Inter não ainda aprovou esta transação nos seus órgãos deliberativos, mas o contrato nasce a partir do momento em que uma maioria dos clubes assina. E o Inter, obviamente, pela sua importância, pode demorar um pouco mais. A gente não vê problema em dar o devido tempo para que ele siga todos os trâmites e, com calma, consiga essa aprovação.

Algumas pessoas dizem que os investidores da LFF não têm recursos suficientes para honrar os compromissos que com os clubes. Em contrapartida, a Libra está ao lado da Mubadala, que é um dos fundos mais importantes do mundo. Como o senhor vê essa comparação?
Carlos Gamboa: Me espanta que esse comentário tenha sido feito por alguém da Libra. Em primeiro lugar, o nosso grupo investidor é composto por Life Capital Partners e a norte-americana Serengeti Asset Management, que, por sua vez, são gestores de recursos. Funciona assim: nós administramos o dinheiro de terceiros, que podem ser pessoas físicas ou investidores do Brasil ou do exterior que apostam no nosso projeto e tornam-se cotistas dos nossos fundos e dos nossos veículos. Então, essa base de cotistas que compõe o fundo é heterogênea, mas a gestão deste dinheiro é feita por nós. Essas são as duas partes do negócio.

Se o assunto não precisasse passar pelo CD, o presidente Alessadro Barcellos já teria assinado com a LFF, mas houve um pedido dos conselheiros para que a Libra fizesse uma proposta formal ao clube. O senhor teme o deslocamento do Inter para o lado da Libra?
Carlos Gamboa: O processo comparativo está dado. Eu acho que são esses três critérios (explicados na primeira resposta) que levaram o Inter a seguir conosco até aqui. Como o Inter foi uma liderança desta negociação, é de se esperar que o modelo da LFF tenha refletido aquilo que é o desejo e a ambição do próprio Inter. Então, eu tenho certeza que quando essas duas propostas forem comparadas vai ficar muito claro que nesses três quesitos, que é quanto que eu recebo hoje por aquilo que estou vendendo, quanto eu espero receber ao longo do tempo e a questão da governança, vai ser fácil demonstrar que o modelo da Liga Forte é melhor.

Se o modelo da Liga Forte é superior, por qual motivo clubes que deixaram a Libra, como o Botafogo, não foram para a LFF? 
Carlos Gamboa: Eu tenho dificuldade de especular. Não posso falar nada além do que li nos jornais. E eu li que o Textor sairá da Libra por razões econômicas e de governança. E também li que Cruzeiro e Vasco também não teriam assinado o contrato. Mas repara: esses três clubes que têm dono, são SAF. E parece que esses clubes, por sua nova estrutura administrativa, detectaram do lado de lá (Libra) algo que os deixou em uma posição desconfortável.

Mesmo que não haja uma unificação das ligas agora, elas podem se juntar no futuro?
Carlos Gamboa: Pois é. Às vezes, fica parecendo que há uma grande batalha entre a Libra e a Liga Forte e seus investidores, mas está errado. Não é isso. Enquanto a gente acreditar que vai ter um lado vitorioso e um lado perdedor, não vamos conseguir fazer uma unificação. Todos precisam ser vitoriosos nesse negócio. Os vitoriosos vão ser todos aqueles que são apaixonados pelo futebol brasileiro no momento houver uma unificação dessa liga. E se você for ver bem, não é tão complicado assim a gente conseguir essa unificação. Não sei há quantos meses eu estou aqui negociando e já evoluímos bastante. Frente ao que era na largada, a diferença é razoavelmente pequena. Claro que não vou subestimar isso, mas eu acredito que a gente consiga finalizar esse acordo agora e, daqui a pouco, já como um bloco finalizado, vamos falar abertamente com o outro lado. Tenho certeza que vamos conseguir chegar a um acerto de contas. Afinal, negociação boa é aquela onde todo mundo cede um pouquinho para que a gente chegue num ponto de convergência, num ponto intermediário, que acaba sendo benéfico para todos. Uma liga unificada é a minha aposta, o meu desejo e minha causa.