Náutico reconhece racismo do passado e entra na luta contra o preconceito

Náutico reconhece racismo do passado e entra na luta contra o preconceito

Clube lançou campanha contra o racismo na semana passada, lembrando que foi o último do Estado de Pernambuco a aceitar jogador negro

AE

Náutico abriu canal direto para denúncias em seu site e aplicativo

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Em 2002, então goleiro do Santa Cruz, Nilson ouviu sons de macaco vindos de torcedores do Náutico durante clássico disputado no estádio dos Aflitos, no Recife. Naquela época, ele nem poderia imaginar que depois de 18 anos se tornaria personagem central da campanha do time para combater o racismo. Hoje aos 44 anos e um dos ídolos da torcida do Náutico, por causa da passagem pelo time entre 2004 e 2005, Nilson comemora a nova postura do clube.

A campanha lançada pelo Náutico na semana passada ganhou enorme repercussão. O clube reconheceu seu passado racista, lembrando que foi o último do Estado de Pernambuco a aceitar jogador negro, já em 1960, e agora quer intensificar ações de conscientização. Além do escudo e da camisa pretos, algo antes inimaginável por ser cor dos principais rivais (Sport e Santa Cruz), o Náutico abriu canal direto para denúncias em seu site e aplicativo. Se algum sócio-torcedor praticar qualquer ato discriminatório, será expulso do clube e a denúncia será encaminhada para as autoridades competentes.

A pauta começou a ser discutida durante reunião do departamento de marketing em abril. Na visão dos dirigentes, já havia passado da hora de o Náutico tentar corrigir o passado racista. A ideia era criar uma campanha consistente que causasse uma reflexão nos torcedores, não apenas algo pontual. Após diversas reuniões, ficou definido que o clube lançaria o escudo e a camisa pretos e criaria o canal de denúncia. O próximo passo é elaborar cartilha de conduta antirracista para as categorias de base, realizar ações no estádio quando o público puder voltar a frequentar as arquibancadas e fazer parcerias com instituições que combatem o preconceito.

Para lançar a camisa preta, o Conselho Deliberativo do clube realizou sessão extraordinária. O Náutico nunca tinha usado a cor em seu uniforme porque o time é branco e vermelho. O preto remete a Sport e Santa Cruz, os rivais do Estado. Uma vez, inclusive, o fornecedor de material esportivo do clube criou uma camisa com a numeração preta e teve de refazer o modelo após as críticas da torcida. Mas, em razão da causa nobre, o Conselho Deliberativo aprovou a alteração do escudo e o uniforme completamente preto para simbolizar a luta contra o racismo.

"É natural que exista resistência, mas foi minoria. Algumas pessoas falavam 'é causa nobre, mas não acho que precise'. Mas quem fala que não precisa é quem nunca olhou a questão do racismo se vendo pelo outro lado. Nas próprias redes sociais a aceitação da torcida foi quase de 100%", disse o vice-presidente de marketing e comunicação do Náutico, Luiz Filipe Figueirêdo, ao <b>Estadão</b>. "Esgotamos as camisas no primeiro dia. Do ponto de vista comercial, foi uma ação muito grande, mas o mais importante são as ações de efetivação dessa política de tolerância zero contra o racismo", acrescentou o dirigente de 32 anos, que assumiu o departamento em março.

Em poucos dias, o vídeo da campanha no Twitter chegou a quase 2 milhões de visualizações. O alcance foi maior do que o imaginado e o clube colocou legenda em inglês no vídeo postado em seu canal oficial no YouTube. O sucesso é comemorado por Nilson, o convidado pelo Náutico para ser o personagem da campanha.

"A repercussão foi muito grande, não ficou nem no Estado e no Nordeste, foi para o Brasil inteiro e mundo afora. Estamos vendo esportistas levantando essa bandeira, como o (piloto da Fórmula 1 Lewis) Hamilton. Quem tem voz precisa gritar. Sabemos que a sociedade manda calar. Nós que temos esse acesso com a imprensa e nas redes sociais, que levam nossa voz para fora, não podemos nos calar", disse o ex-goleiro, que aposentou-se há três anos e atualmente é treinador.

Nilson cobra, agora, ações constantes para ajudar no combate ao preconceito. Ele sabe que manifestação pontual de pouco adianta, e leva como exemplo o racismo sofrido em 2002. Na ocasião, após a torcida do Náutico imitar sons de macaco, o então goleiro deu diversas entrevistas e foi contatado por ONGs. "Mas depois ficou por isso mesmo", relembrou.

"Quando uma instituição se posiciona da forma como o Náutico está se posicionando, é diferente do que quando uma pessoa, como eu, reverbera a luta contra o racismo. Quando falamos da instituição, trazendo para o futebol, o Náutico representa sua nação alvirrubra. O Estado de Pernambuco e a região Nordeste também são impactadas, não fica restrito ao Náutico, vai tocar o torcedor do Santa, do Sport... Tive até amigos de fora do Brasil que viram a ação e falaram comigo. É uma mensagem muito positiva, é um posicionamento de cortar toda a relação com o passado racista. O que fez no passado não dá para apagar, mas daqui para frente podemos fazer diferente. É uma luta constante. Com posicionamentos contra o racismo, vamos criando gerações mais conscientes e menos preconceituosas. É preciso continuar esse trabalho", afirmou Nilson.

Náutico quer estender campanha para outras causas 

Depois do sucesso da campanha antirracista, além de continuar as ações, o Náutico tem outro objetivo: estender a luta para outras causas, como a homofobia e a violência contra a mulher. "Precisamos entrar em todas as pautas para abraçar todo tipo de torcedor. Vamos entrar em todos os assuntos com impacto social. Queremos que torçam pelo Náutico pessoas de qualquer cor, raça e sexo. Com clube de futebol, temos esse papel social de ajudar a construir uma sociedade melhor", prometeu Luiz Filipe Figueirêdo.


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