Se aventurar em Porto Alegre em cima de uma bicicleta já não costuma ser uma tarefa fácil. Por conta das ciclovias interditadas e o pouco espaço para se locomover com segurança, estar sobre duas rodas é, muitas vezes, sinônimo de coragem. Para quem está aprendendo essa habilidade depois de adulto, todas essas questões se tornam mais um obstáculo para manter o equilíbrio ao pegar no guidão.
A pesquisa “Ciclismo ao Redor do Mundo”, realizada entre março e abril de 2022 pelo Instituto de Pesquisa de Opinião Pública/Setor (IPSOS), revelou que quase cinco em cada dez brasileiros (42%) não sabem andar de bicicleta. O instituto também perguntou aos entrevistados se tinham bicicletas. A resposta apresentou um dos menores índices do estudo, com apenas 26% respondendo afirmativamente.
Para Stéfani Fontanive, 27 anos, a relação com o pedal sempre foi de pouca intimidade. A jornalista relembra que, aos cinco anos, ganhou uma bicicleta, mas acabou não tirando as rodinhas por não ter ninguém que a ensinasse a se equilibrar. Já durante a adolescência, não tentou andar pois morava entre os altos e baixos de Passo Fundo. “Como lá é uma cidade que tem muitas lombas, era bem perigoso aprender a andar”, explica.
Com o passar dos anos, não saber andar de bicicleta não se tornou um trauma para Stéfani, mas algo que a incomodava. “Eu não tenho medo. Mas é engraçado, porque agora adulta, toda a vez que eu conto que eu não sei andar de bicicleta as pessoas dão risada, desabafa”.
Para quem está no mesmo barco que Stéfani e tem o desejo de aprender a pedalar, a Bike Anjo POA, uma Organização Não-Governamental (ONG) criada em 2010, oferece aulas no último domingo de cada mês, das 9h às 12h. Localizada na Rua Professor Freitas e Castro, no bairro Azenha, as oficinas são coletivas. O projeto fornece bicicletas e conta com 20 professores voluntários. As inscrições são feitas na hora e os atendimentos acontecem por ordem de chegada.
A ativista e jornalista Paula Moizes, 33 anos, começou como voluntária do projeto em 2018. Para a professora, aprender uma atividade nova quando se é adulto é uma atitude que supera barreiras que vão além das limitações físicas.
“Ao passo que vamos ficando adultos, também vamos acumulando mais travas e isso acaba aparecendo na hora em que a gente começa a aprender algo novo, principalmente pelos obstáculos mentais que a vida vai nos colocando. Por isso, antes da aula prática nós tentamos entender qual é a história da pessoa com a bicicleta. É um trabalho bem sensível, já que cada um vai ter o seu próprio processo e o seu tempo de aprender”, explica.
O trabalho, descrito por Paula Moizes como humanizador, ajuda a comunidade da Zona Sul e Norte da capital, e já atraiu os vizinhos de Viamão e de Gravataí. A voluntária explica que a maioria do público que procura a ONG tem mais de 40 anos de idade, mas também aparecem por lá jovens que recém passaram pela maior idade. A dica que deixa para frequentar as aulas é: ir com um tênis e com uma roupa confortável e sempre levar água para se hidratar.
Os empurrões da vida também dão rumo à vontades antigas
No caso de Stéfani, a chave virou no ano passado, quando a jornalista foi diagnosticada com lipidema – uma condição crônica caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura nas pernas e nos braços. O dianóstigo a fez procurar uma atividade física e foi quando conheceu a bike indoor. No início de janeiro, por insistência do namorado, Stéfani deu um passo maior, mesmo com vergonha, e foi para as ruas encarar uma bicicleta em movimento.
A partir daí, passou a alugá-las e treinar no Largo da Epatur e, com a ajuda e companhia do namorado, aprendeu. “Nos primeiros dias eu tentei aprender na bicicleta dele, mas achei muito ruim, não me adaptei, até o banco para mim era horrível, quando comecei a alugar, tudo ficou mais fácil”, conta. Segundo ela, depois que começou a pedalar, a relação com a cidade e a natureza passou a ficar diferente.
“Estou aprendendo a ter mais mobilidade, percebendo mais as lombadas da rua e tendo uma nova noção espaço. Ser uma ciclista em Porto Alegre tem muitos obstáculos, mesmo nas ciclovias, as pessoas passam com crianças e tenho medo de me machucar e também de ferir os outros, é muito difícil”, desabafa.
Stéfani também conta que percebeu uma dicotomia nessa nova prática. O mesmo vento que interfere no equilíbrio, também é uma das suas partes favoritas quando está pedalando.
Depois de dar os primeiros embalos, a jornalista afirma que vale a pena tentar realizar uma vontade, mesmo quando já se é adulta. “Agora estou mais equilibrada em cima da bike e treinando andar em linha reta. Ainda fico nervosa quando alguém se aproxima, mas estou gostando bastante de andar”. A aprendiz também confessa que o medo de cair existe, mas compartilha uma dica. “Eu costumo deixar o banco bem baixo para sempre posicionar os seus pés próximos ao chão. Assim eu me sinto muito mais segura”, compartilha.
Mas e pedalar no trânsito da capital?
Além da ONG que aproxima o público com o universo das bicicletas, também existe em Porto Alegre um movimento formado majoritariamente por mulheres, que busca desenvolver autonomia através da bike e da coletividade. O projeto se chama Pedal das Gurias (PDG) e neste mês completa 10 anos.
A professora universitária agora aposentada Mônica Meira, de 64 anos, começou a frequentar o coletivo em março de 2016, a partir de uma publicação no Facebook. “Marcaram uma oficina de bike fit e eu fui sem conhecer ninguém. Tomei coragem e fui ao encontro das quintas-feiras à noite. Simplesmente apareci”, conta.
Com uma proposta diferente da Bike Anjo que ensina as pessoas a pedalarem do zero, o PDG, ensina as pessoas a pedalarem no trânsito, em grupo, e a adquirirem confiança para também andar de bicicleta sozinha no futuro.
“A ideia do grupo é de acolhimento e pertencimento. Tanto aprender a andar pela Bike Anjo como saber andar pela cidade com o Pedal das Gurias são experiências incríveis, em especial para as mulheres. Isso porque, ainda é comum que sejam renegadas a segundo plano tanto para aprender como para possuir uma bicicleta própria. Os homens conseguem fazer isso bem mais cedo”, explica Mônica.
Durante as saídas, que acontecem sempre às quintas depois das 19h, as ciclistas costumam seguir uma regra: andar sempre em duplas. O motivo é para fazer um bloqueio e evitar que carros e motos entrem e invadam o espaço. Nos passeios, não faltam capacetes, farois de bicicleta e sororidade no grupo.
Já que a bicicleta também é um veículo e não foge dos perigos do trânsito, o grupo tem como costume alertar umas as outras quando há buracos no caminho. Outra regra importante do Pedal é que ninguém pode deixar ninguém para trás. Por isso, a velocidade da pedalada sempre é equilibrada, para que o grupo sempre esteja junto, já que o principal objetivo é ficarem unidas e chegarem no destino numa boa.
*Com supervisão de Carlos Corrêa