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Sandro Dias explica como desenvolveu o projeto da megarrampa no CAFF

Por envolver grande risco, atleta priorizou a segurança e o cuidado com os equipamentos para realizar o feito que ficará marcado no skate e na memória de Porto Alegre

Descida final da Rampa do Caff
Descida final da Rampa do Caff Foto : Camila Cunha

Um momento histórico como o da última quinta-feira vivido na capital gaúcha não se deixa de lado de um dia para o outro. Por isso, a descida de Sandro Dias no prédio do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) ainda irá ecoar na vida dos porto-alegrenses por algum tempo. Na manhã seguinte ao feito, o atleta concedeu entrevista coletiva para explicar um pouco do processo completo do ‘drop’ na megarrampa de um dos prédios mais icônicos de Porto Alegre.

Bem-humorado e satisfeito depois de quebrar dois recordes mundiais em menos de uma hora, Sandro voltou no tempo para relembrar o momento exato que esse sonho surgiu em sua vida quando ainda tinha 13 anos. A partir daí, o projeto de um dia descer a lateral do edifício permaneceu no seu imaginário – assim como no dos gaúchos – durante décadas.

“Quando tive a primeira oportunidade eu desenhei o projeto todo em um papel há 13 anos. Mas eu sabia que era algo longe de ser realizado por conta da grandeza, por conta de tudo que ele compõe, da questão financeira, da questão estrutural, enfim. Mas eu já tinha aquele sonho em cima da mesa”, conta Mineirinho.

O projeto feito pelo skatista tinha cada passo do que foi vivido por ele e pelos gaúchos. Posicionamento de câmeras, iluminação, o amortecimento da descida e a estrutura que foi montada, tudo já havia sido planejado por Sandro. No entanto, apesar do entusiasmo de quem lia, demorou para que o sonho se tornasse realidade, principalmente pelo questão da segurança, ponto mais preocupante para a patrocinadora do evento.

Apesar das negativas, o atleta manteve firme o planejamento. “Toda vez que a Red Bull vinha falar de algum projeto eu de novo apresentava o do prédio, mas sempre diziam ‘calma, ainda não, vamos fazer outro’”, afirmou. Assim, nasceu a ideia de ‘dropar’ a Ponte de Estaiadinha, em São Paulo, estrutura em formato de “U” de cerca de 30 metros desafiada por Sandro em 2019.

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Aceitação da marca e adaptação para descida no CAFF

Após inúmeras tentativas, a ideia então foi abraçada há pouco mais de três anos. E com isso, Sandro percebeu que seu corpo não aguentaria passar pelo impacto da descida sem uma preparação intensa antes. Apesar de carregar no currículo seis títulos mundiais, o skatista nunca havia frequentado a academia, nem mesmo voltado sua atenção para algum tipo de fortalecimento físico.

Assim, começaram os treinamentos e as adaptações para que não houvesse qualquer incidente durante a ação. Ao longo do preparo, Sandro ouviu de diversas pessoas que era maluco, tamanha a ousadia de desafiar um prédio tão alto, com mais de 80 metros. Porém, ele faz questão de se distinguir de um “aventureiro”, um dos termos que foi chamado, principalmente por ele ter tido consciência do risco de vida real envolvido.

“Posso dizer que tudo que eu fiz foi uma coisa muito consciente, muito bem programada e com muita preparação. Os leigos olhavam de fora e falavam que eu era um aventureiro, um louco, mas não sou, porque o aventureiro provavelmente vê a rampa montada sem preparo e acha que é capaz de fazer aquilo, aí vai lá e ‘dropa’ e por isso acontece os acidentes. Então, o que eu fiz ontem tinha um real risco de vida, mas eu sabia de tudo isso e por isso que eu me preparei muito”, destacou Sandro.

Além disso, o atleta também contou que houve diversas adaptação no skate desde o primeiro teste feito no CAFF no dia 7 de setembro. Ali, Sandro se deu conta de que o equipamento não estava em condições de suportar a força do impacto e a alta velocidade da descida. Assim, ele mudou para rodas de asfalto (mais largas) por darem mais estabilidade e desenvolveu amortecedores diferenciados feitos de nylon para travar o eixo, algo inédito no skate, combinando-os com amortecedores de skate mais duros, para alcançar a estabilidade ideal e segura para o ‘drop’.

Manter a cabeça no lugar foi fundamental

A descida tranquila ao quebrar dois recordes mundiais seguidos fez valer os anos de treinos. O projeto o preparou mentalmente, permitindo Sandro enfrentar a situação com coragem e calma, mesmo nos 70 metros de altura. Isso foi fundamental para enfrentar o vento forte no local, que chegou a rasgar a bandeira do Estado colocada no topo do prédio.

Durante a concentração, o skatista repetia um mantra. Inclusive, quem assistiu as descidas dos pés do edifício, se perguntava o que o atleta pensava, e ele fez questão de matar a curiosidade.

“Repeti as mesmas palavras que falei em todas as vezes que desci aquela megarrampa. ‘Eu inventei, eu convenci e eu me preparei. Chegou o dia. Tá tudo pronto, tá tudo muito bonito, chegou a hora. Vai que vai dar tudo certo. Vamos que vamos, vai que você consegue. São somente oito segundos’, todos me viam olhando para o céu em direção ao sol e era isso que eu falava para mim mesmo”, revelou.

Ao final de tudo, o principal aprendizado de Sandro com o evento é de que nunca é tarde para gente fazer as coisas, independente da idade, desde que haja dedicação e preparo. O projeto da descida do prédio mais icônico levou treze anos para sair do papel mas ficará marcado para sempre na história do skate e na memória de Porto Alegre. Os gaúchos que o digam. Inclusive o Gauchinho Mineirinho.