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Ultramaratonista gaúcho supera limites do corpo ao participar de prova de 1.000 km

Em forma de diário, Arthur Moraes Costa conta como foi a rotina desafiadora da corrida

Arthur Moraes completou 655,5 km do percurso
Arthur Moraes completou 655,5 km do percurso Foto : Eduardo de Souza/Corre Sul de Minas/CP

Pode chamar de moda, 'hype', febre, tendência ou costume. Mas não se pode negar que correr tem se tornado uma prática cada vez mais comum entre a população, principalmente com o aumento dos grupos de corrida de rua que incentivam ainda mais o hábito. Quem começa e segue no embalo pode deixar de considerar como apenas um hobby de final de semana e passa a participar de grandes disputas. É o caso do gaúcho Arthur Moraes Costa, corredor há mais de 15 anos, mas que foca em corridas de longas distâncias desde 2019.

Aos 41 anos, Arthur é professor de educação física e já participou de diversas provas de endurance (como são chamadas as longas corridas). Depois de completar distâncias com mais de 200 km, entre diversas outras disputas, Arthur decidiu neste ano encarar seu maior desafio desde que ingressou no mundo da corrida: o desafio dos 1.000 km Brasil em Minas Gerais. A prova nada mais é do que completar 1. 000 km em até dez dias, com uma média de 100 km por dia. Há apenas uma parada obrigatória da meia-noite às 6h para descanso, banho e recuperação para o próximo dia de corrida.

"Um desafio extremo, que exige não só do corpo, mas também do mental. As experiências das provas que já participei foram fundamentais para conhecer os limites do corpo e da mente, além de aprimorar treinos, alimentação e estratégias para cada prova", afirmou Arthur.

Ao longo da prova, o ultramaratonista relatou, em primeira mão, os desafios e as principais dificuldades que enfrentou ao longo da prova, que foi realizada entre os dias 18 e 27 de setembro. A meta de Arthur, que correu ao lado de uma de suas alunas, era de completar o percurso dos 1.000 km, mas ele acabou surpreendido por diversos fatores ao longo da prova que o impediram de continuar até o final.

Arthur correu parte da prova ao lado de uma de suas alunas | Foto: Eduardo de Souza/Corre Sul de Minas/CP

Dia 1

“No primeiro dia, a meta a ser alcançada era de completar 50 km até o almoço. No entanto, as condições encontradas foram extremas, com calor intenso e muito sol. Depois da nossa pausa para o almoço, retomamos com caminhada e corrida alternados, porque a dificuldade de manter ritmo por conta do calor era enorme. Assim, optamos em correr os primeiros 20 km correndo direto, em ritmo constante e, depois disso, alternar com 500 m de corrida e 500 m de caminhada. Conseguimos finalizar o dia às 23h30min com 112,5 km, com a meta mais que superada.”

Dia 2

“As condições extremas na temperatura seguiram as mesmas: muito sol, abafado e com calor intenso, aumentando ainda mais o desgaste. Desafio físico e mental grande, mas conseguimos manter vantagem. A ‘gordura’ acumulada com os 210km em dois dias sem dúvidas será estratégica nos próximos dias.”

Dia 3

“O terceiro dia começou com sinais claros de desgaste acumulado. Logo cedo, a estratégia teve que ser ajustada: nada de correr direto — foi necessário alternar corrida com caminhada desde o início. Clima novamente muito quente. A partir do meio-dia, a prioridade passou a ser buscar sombra para correr. Com isso, a estratégia de ritmo e distância planejada teve que ser deixada de lado: o foco passou a ser correr onde dava, como dava, e guardar energia sempre que o sol estivesse mais forte. Neste dia, iniciaram também as sessões de fisioterapia, já que as dores estavam bem intensas.

A partir daí, também não corria mais ao lado da minha aluna, mas sempre que possível nos encontrávamos na pista, seguimos juntos, mesmo em ritmos separados. Quando as voltas foram concluídas, por volta das 23h50min, cheguei aos 90 km no dia, totalizando 300 km em três dias, e aí faltou luz no local da prova.

Tudo o que eu queria era um banho quente, fisioterapia e descanso. Mas foi necessário tomar banho gelado, aguardar atendimento e dormir apenas três horas. Ainda assim, o objetivo mínimo mantido: três dias, 300 km.”

Dia 4

O quarto dia começou com muita dor, cansaço extremo e a necessidade de múltiplas sessões de fisioterapia ao longo do dia. Os sintomas físicos mais sérios começaram a se manifestar: inchaço acentuado nos pés, canelite (inflamação no tibial anterior), bolhas e feridas, inclusive cortes causados pela fricção da meia, além do tênis que começou a apertar devido ao inchaço. Com isso, a corrida foi praticamente deixada de lado, e a estratégia passou a ser prioritariamente caminhada, mantendo o corpo em movimento, mas com intensidade reduzida, mas o desafio físico se somou ao psicológico. Foi nesse momento que a força externa entrou em cena.

Alunos de Porto Alegre começaram a perceber o silêncio nos grupos e, notando que algo estava errado, passaram a enviar vídeos e áudios de apoio e incentivo. Essa energia de fora foi fundamental para continuar. Mesmo diante de tudo isso, o dia terminou com um marco importante: 100,5 km concluídos às 23h50min, dentro do tempo-limite, mantendo a meta diária.”

Dia 5

“O quinto dia foi o mais tenso emocionalmente até então. Isso porque, era o dia do corte, ou seja, todos os atletas precisavam atingir 500 km acumulados até a meia-noite para permanecerem na prova. Isso transformou o dia em uma batalha física e mental. O desgaste exigiu quatro sessões de fisioterapia ao longo do dia, fundamentais para seguir em movimento. A chuva chegou forte nesse dia. Mas, acostumado a correr na chuvosa Porto Alegre, foi justamente nesse momento que consegui render melhor.

Com muita superação, foco e apoio, completei a meta mais importante do dia: fechei os 500 km em cinco dias, mantendo-me oficialmente na prova. Porém, o físico e mental já estavam no limite.”

Dia 6

“Foi a continuação direta do desgaste extremo vivido no dia do corte, tanto física quanto emocionalmente, meu corpo estava no limite. Assim, precisei tomar uma decisão difícil, mas necessária, pois precisava de um descanso real, fui dormir às 8h e retornei à pista às 10h. As duas horas de sono fizeram diferença, mas o meu corpo ainda sentia, meu tornozelo seguia inchado e muito dolorido, a cada sequência de voltas precisava voltar para a fisioterapia.

Mas o mais marcante do dia não foi físico, mas sim emocional. Recebi a visita de um aluno que treino à distância, de Mogi Guaçu, interior de São Paulo, que dirigiu mais de 300 km para me apoiar e, principalmente, me dar um abraço. Ele dirigiu por horas, mais de 300 km, apenas para estar presente, me entregar algumas coisas, conversar e, principalmente, me dar um abraço. Aquilo foi um choque de energia positiva, uma lembrança viva de por que sigo fazendo o que faço e de que não estou sozinho, este gesto me deu força para completar o dia.”

Arthur superou limites do corpo e mente ao longo da prova | Foto: Eduardo de Souza /Corre Sul de Minas/CP

Dia 7

“Talvez o mais desafiador de todos. Acordei com muita dor, o tornozelo extremamente inchado, e caminhar já era difícil, correr então, praticamente impossível. O corpo não respondia. Após cada ida à fisioterapia, conseguia dar algumas voltas correndo, mas logo depois o corpo travava novamente. A meta de 700 km parecia distante e esse pensamento foi pesando ao longo do dia. Nesse momento, precisei buscar força fora de mim, conversei com meu treinador e ele orientou uma mudança de estratégia: manter uma caminhada firme, sem forçar corrida. Além disso, conversei com o fisioterapeuta-chefe, para entender os riscos e avaliar o que era possível fazer com segurança, mas a realidade era dura. Mesmo com toda a ajuda, fui à fisioterapia inúmeras vezes. Caminhava, doía. Corria, doía mais. A meta do dia não foi alcançada e fechei com 77,5 km.”

Dia 8

“O oitavo dia começou com dor intensa e muito inchaço. Acordei já com a dúvida na cabeça: será que consigo continuar? Ainda assim, fui para a pista com o objetivo de tentar. Mas o corpo deu sinais claros. Levei cerca de 30 minutos para completar apenas 1,5 km, arrastando o pé, com dor absurda e assim ficou evidente que não dava mais. Voltei para a fisioterapia e, junto com o organizador da prova, conversamos com seriedade e a melhor escolha seria preservar a saúde para não agravar ainda mais uma lesão que já existia. Assim, a decisão de parar foi tomada.

Foi uma escolha dolorosa, porque viajei até Minas Gerais com o sonho de concluir os 1.000 km, havia me preparado por quase dois anos para isso e saí de lá com 655,5 km concluído, mas sem o objetivo completo. Não saí satisfeito, fiquei triste, chateado, emocionalmente abalado, mas também consciente de que às vezes, parar é seguir em frente com respeito ao corpo e à jornada.”

Superação foi o principal aprendizado

Apesar de não ter completado a distância de 1000 km, Arthur levou consigo algo muito maior o percurso em si. Segundo ele, o principal aprendizado foi entender o seu corpo como nunca antes e descobrir limites que nem sabia que existiam, além de até onde conseguia levar com coragem e determinação.

Arthur também pôde vivenciar a união que se cria entre os corredores, justamente o principal mote da prática, que formaram uma rede de apoio ao longo da prova dando suporte para todos os atletas. O carinho e a conexão entre os participantes, staff e fisioterapeutas o emocionaram.

"Isso vale ouro. Isso é o que realmente fica. E é o que vou levar comigo para o resto da vida", concluiu Arthur.

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