Andreia Gentilini


Brasil mostra ousadia nas harmonizações do Michelin 2025

Da cozinha de Luiz Filipe Souza às escolhas ousadas de sommeliers, a alta gastronomia brasileira afirma identidade com taças e garfadas memoráveis

O vinho em cena: elegância e criatividade nas combinações apresentadas no Guia Michelin
O vinho em cena: elegância e criatividade nas combinações apresentadas no Guia Michelin

A gastronomia brasileira atravessa um momento de maturidade e reconhecimento. O Guia Michelin Brasil 2025 manteve cinco casas com duas estrelas — Evvai, D.O.M. e Tuju, em São Paulo, além de Lasai e Oro, no Rio de Janeiro. Ainda não há um restaurante com três estrelas no país, mas o cenário revela ousadia, identidade e sofisticação técnica.

Entre os destaques, o Evvai, comandado pelo chef Luiz Filipe Souza, impressiona pela cozinha Oriundi, que mescla raízes italianas e ingredientes brasileiros em menus degustação que funcionam como narrativas. Cada prato é concebido como uma história, em que tradição e inovação se entrelaçam para revelar sabores locais em composições elegantes.

Harmonizações ousadas

O diferencial da experiência, porém, está nas harmonizações conduzidas de forma brilhante pelo sommelier Marcelo da Fonseca Lopes. Mais do que acompanhamentos, os vinhos são escolhidos como extensão dos pratos, criando contrastes ousados ou reforçando continuidades sensoriais. O Rigatoni de pupunha, amêndoas e bottarga de tainha, por exemplo, foi elevado pelo Oremus Tokaji Aszú 3 Puttonyos 2015, uma combinação inesperada.

A doçura equilibrada e a acidez vibrante do Tokaji trouxeram frescor e suavidade ao salgado intenso da bottarga, transformando o prato em uma experiência de impacto e delicadeza ao mesmo tempo. Uma ousadia que não apenas surpreendeu, mas mostrou como a alta cozinha brasileira é capaz de dialogar com os clássicos do Velho Mundo.

Escolha reveladora

Outro momento de destaque veio do Font du Vent Cuvée Édition Châteauneuf-du-Pape 2023 branco, que rompeu convenções ao ser servido com peixe acompanhado de gremolata de jambu. Pouco usual em harmonizações com frutos do mar, o Châteauneuf-du-Pape mostrou vigor e densidade, sem perder frescor, enfrentando com coragem a potência aromática do jambu.

Foi uma escolha ousada e reveladora, que demonstrou como a complexidade de um branco do Rhône pode encontrar ressonância em ingredientes brasileiros intensos e aromáticos, abrindo espaço para novas leituras entre cozinha regional e vinhos consagrados.

O Audace Alvarinho 2024, produzido no Brasil, trouxe o brilho da viticultura nacional à mesa. Servido com a bomba al nero e o lardo da Serra da Bocaina, o vinho mostrou mineralidade e vivacidade que equilibraram a untuosidade do prato. O frescor cortante e as notas cítricas dialogaram com a profundidade do preparo, confirmando a força e a versatilidade do terroir brasileiro.

Esse momento reforçou que os rótulos nacionais já competem em igualdade de condições com clássicos internacionais, e que a ousadia de trazê-los para a alta gastronomia amplia ainda mais a identidade de nossa cozinha.

Combinações inesquecíveis

Para fechar, duas combinações inesquecíveis: o Barolo Corino 2017, servido com a galinha xinxim, e o Muffato della Sala 2019, da Antinori, em diálogo com a sobremesa de milho verde, baunilha do cerrado e caviar oscietra.

O Barolo, estruturado e profundo, encontrou na riqueza da galinha xinxim um contraponto surpreendente, em que especiarias e taninos se entrelaçaram com densidade e sofisticação. Já o Muffato della Sala, com sua doçura elegante e textura envolvente, elevou a sobremesa a um patamar memorável, criando uma fusão entre brasilidade e sofisticação italiana.

Essas harmonizações ousadas — de um Barolo com um prato típico da Bahia e de um vinho doce com ingredientes do cerrado — sintetizam a maturidade da alta gastronomia brasileira: coragem, técnica e emoção em cada taça e em cada garfada.

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🍷🍇Provei e amei: diversidades

Cinco vinhos de origens distintas — da Hungria à Itália, passando pelo Brasil e pela França — compuseram um percurso enogastronômico ousado, em que cada taça encontrou no prato um diálogo de contraste, equilíbrio e sofisticação.

1️⃣Oremus Tokaji Aszú 3 Puttonyos 2015 – Hungria: Produzido pela histórica vinícola Oremus, pertencente ao grupo Vega Sicilia, este Tokaji é um vinho doce clássico, elaborado com uvas afetadas pela Botrytis cinerea. Mostra aromas de damascos secos, mel e casca de laranja, sustentados por uma acidez vibrante que equilibra a doçura. Um vinho de textura envolvente, capaz de surpreender em harmonizações ousadas, como com o rigatoni de pupunha, amêndoas e bottarga de tainha.

2️⃣Font du Vent Cuvée Édition Châteauneuf-du-Pape Blanc 2023 – França: Um rótulo do Rhône, elaborado pela Domaine Font du Vent, que expressa a força dos brancos da denominação. Com base em Grenache Blanc, Clairette e Roussanne, oferece corpo generoso, notas florais, ervas secas e um frescor que equilibra sua densidade. É um vinho raro de se ver com peixes, mas mostrou vigor e elegância diante do prato com gremolata de jambu.

3️⃣Máximo Boschi Biografia Cabernet Sauvignon 2007 – Brasil: Ícone da vinícola gaúcha Máximo Boschi, é um vinho de guarda elaborado 100% com Cabernet Sauvignon da Serra Gaúcha. Mostra notas complexas de frutas negras em compota, especiarias, couro e toques balsâmicos, com taninos aveludados e longa persistência. Sua estrutura se encaixou com perfeição à fregola com cordeiro de leite, ressaltando potência e refinamento.

4️⃣Barolo Corino 2017 – Itália: Produzido pela tradicional Paolo Corino, em La Morra, este Barolo 2017 é elaborado com Nebbiolo e traz o equilíbrio típico entre potência e elegância. No nariz, exibe aromas de rosas secas, alcaçuz e cerejas maduras, enquanto em boca apresenta taninos firmes, acidez alta e final persistente. Uma escolha ousada que encontrou na galinha xinxim uma harmonização intensa e memorável.

5️⃣Muffato della Sala 2019 – Itália: Um dos ícones doces da Antinori, elaborado na Umbria a partir de uvas como Sauvignon Blanc, Grechetto e Traminer afetadas pela Botrytis. É um vinho de textura sedosa, com aromas de mel, frutas tropicais maduras e flores secas, equilibrados por frescor marcante. Na sobremesa de milho verde, baunilha do cerrado e caviar oscietra, mostrou-se um fecho perfeito, unindo sofisticação italiana à brasilidade dos ingredientes.