Em um evento voltado à tecnologia, ao empreendedorismo e aos novos caminhos para o futuro, o South Summit Brazil 2026 abriu espaço para uma pergunta fundamental: por que o crescimento do Brasil não decola, mesmo diante de antigas promessas de avanço? Foi a partir dessa provocação que o economista Arminio Fraga, fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, conduziu nesta quinta-feira, 26, a palestra “Brazil 2027: Risks and Opportunities”, dedicada a discutir as perspectivas do país para os próximos anos.
Ao longo do painel, Fraga apresentou um diagnóstico crítico sobre a trajetória brasileira nas últimas décadas. Segundo ele, o país não conseguiu reduzir de forma consistente a distância em relação às economias mundialmente mais avançadas e segue preso a um padrão de crescimento baixo, investimento insuficiente e produtividade limitada. “O Brasil não conseguiu se adaptar”, afirma.
No entanto, o economista avalia que o problema não pode ser explicado por um único fator. A leitura apresentada no palco Arena reuniu entraves relacionados à acumulação de capital, à qualidade das instituições, ao ambiente de negócios, à informalidade e à dificuldade de o país construir uma agenda consistente de longo prazo. Nesse cenário, ele pontua que o Brasil até encara oportunidades de avanço, mas não tem conseguido transformá-las em desenvolvimento mais duradouro.
“Crescimento medíocre e má alocação de capital”
Uma das chaves da análise de Fraga foi a baixa capacidade de investimento da economia brasileira, que hoje está em torno de 17% do PIB, enquanto países asiáticos que cresceram de forma acelerada sustentaram índices acima de 30%.
Mais do que a quantidade de capital, o especialista chamou atenção para a forma como ele é utilizado. Em sua avaliação, o país convive com “produtividade de capital” baixa e com uma má alocação de recursos, influenciada por “burocracia, imprevisibilidade e falta de confiança nas instituições”, o que ele nomeia como “custo Brasil”.
O diagnóstico também incluiu o peso da informalidade sobre a capacidade de crescimento. Segundo ele, cerca de 40% da força de trabalho brasileira está fora da formalidade, o que reduz a arrecadação, enfraquece a previdência e limita a capacidade de empresas e trabalhadores investirem em qualificação e produtividade. “Na informalidade, os empreendedores e as empresas têm pouco lucro para investir nas pessoas”, afirmou.
Além das questões econômicas, Fraga também associa o baixo crescimento a problemas institucionais mais profundos. Em sua fala, ele mencionou uma sucessão de crises que reduz perspectivas de planejamento e reforça constantemente a sensação de instabilidade e incerteza no país.
“O Brasil tem tido ideologicamente crises econômicas, então, não dá para alongar os horizontes, você está sempre correndo de mais uma crise. Hoje existe um certo receio no ar, uma incerteza geral contra o comportamento das instituições que inclui todos os poderes”, pondera.
Já no campo fiscal, Fraga defendeu que o Brasil precisa enfrentar com urgência reformas e rever a composição do gasto público. Segundo ele, o desequilíbrio aparece de forma clara no custo da dívida e no ambiente de juros elevados. “O país precisa urgentemente fazer uma reforma da Previdência”, afirmou. O ex-presidente do BC criticou a perda de espaço do investimento público ao longo dos anos e resumiu o quadro como “uma falta total de prioridades”.
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Mesmo com o tom crítico, a palestra não foi concluída pelo viés pessimista e fatalista. Fraga afirmou ver espaço para melhora em diversas frentes, mas destacou que essas possibilidades têm sido perdidas repetidamente.
“Eu não vejo um país preparado para crescer”, disse enfático. “Eu vejo um país que pode voltar a ter e ver de crises econômicas, que tem muitas oportunidades para crescer, mas que são rotineiramente desperdiçadas”.
A polarização política também entrou na análise. Para Arminio Fraga, o ambiente atual de confronto não é o caminho para destravar o crescimento. A saída, segundo ele, passa por lideranças capazes de construir consenso e sustentar uma agenda de reformas.