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South Summit coloca lixo como crise humanitária e alerta para impactos na saúde pública

Especialistas defendem novos modelos para transformar resíduos em energia e reduzir ciclo destrutivo

Hugo Goulart de Oliveira, André Germano dos Santos Leite e André Tchernobilsky debatem o descarte inadequado de resíduos no Brasil
Hugo Goulart de Oliveira, André Germano dos Santos Leite e André Tchernobilsky debatem o descarte inadequado de resíduos no Brasil Foto : Giovanna Reis / Especial / CP

O saneamento básico foi apresentado no South Summit Brazil 2026 como uma das agendas mais urgentes da atualidade para a saúde pública. Em vez de aparecer apenas como tema de infraestrutura urbana, o painel “The Death of Waste: The Last Frontier of Sanitation” mostrou como a falta de água potável, e em especial, a coleta e o tratamento de esgoto continuam produzindo efeitos diretos sobre a vida da população, com impacto em internações evitáveis, mortes e pressão sobre o orçamento da saúde.

A discussão partiu da ideia de que o Brasil ainda não conseguiu implementar em escala uma política de saneamento capaz de funcionar ao mesmo tempo como prevenção, contenção de contaminação e estratégia de resiliência climática. O argumento central foi que o problema não termina na ausência de rede ou de cobertura formal, mas reaparece nos hospitais, onde doenças relacionadas ao saneamento inadequado seguem gerando milhares de internações e custos que poderiam ser direcionados a tratamentos de maior complexidade.

Dados nacionais colaboram para gravidade o cenário. De acordo com o Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, mais de 30 milhões de brasileiros ainda são impactados pela falta de acesso à água potável e cerca de 90 milhões não têm coleta de esgoto. Em 2024, o país registrou mais de 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, enquanto o avanço da infraestrutura segue desigual entre os municípios e distante da universalização, especialmente no tratamento de esgoto.

Participaram da discussão André Tchernobilsky, CEO da ZEG Ambiental, ligado ao desenvolvimento de soluções tecnológicas para o tratamento de resíduos e André Germano dos Santos Leite, presidente da Unimed Serra Gaúcha, que trouxe à mesa a perspectiva da gestão em saúde e da sustentabilidade no setor. A conversa foi mediada pelo professor da Ufrgs e coordenador de inovação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Hugo Goulart de Oliveira.

Lixo como urgência de saúde pública

Logo no início do painel, Hugo Oliveira chamou atenção para o volume diário de resíduos gerados no país e dentro das próprias estruturas hospitalares. Segundo ele, cada pessoa produz cerca de 1 kg de resíduo por dia, enquanto cada paciente em leito hospitalar gera em média 6 kg por dia. No caso do HCPA, isso representa entre 180 e 190 toneladas por mês, com a saída diária de um caminhão de cerca de 6 toneladas. É um ciclo negativo, onde a falta de saneamento gera internações, que geram ainda mais lixo que pressiona o sistema.

Ao ampliar a discussão para o cenário nacional, os palestrantes defenderam que o descarte inadequado de resíduos deixou de ser apenas um problema ambiental e precisa ser compreendido como uma questão humanitária e sanitária. A avaliação apresentada foi de que a má gestão do lixo tem potencial de contaminação ao solo, à água, aos animais e à populações inteiras, além de promover doenças respiratórias, infecções e outros agravos de saúde pública.

A existência de milhares de lixões a céu aberto e a dependência de famílias da coleta informal de resíduos, segundo os painelistas, são sinais de um ciclo que combina vulnerabilidade, contaminação e ausência de solução estrutural.

Segundo o professor Goulart, até mesmo o resíduo que é incinerado, considerado por muitas vezes como solução mais apropriada ao problema, ainda sucede impactos que cabem ao Estado resolver mas e que seguem sem resposta na escala necessária.

“O lixo não é um problema ambiental, é um problema humanitário”, ressaltou André Tchernobilsky.

Entre o problema humanitário e o entrave econômico

Ao analisar a situação, André Tchernobilsky defende que o Brasil convive ao mesmo tempo com um desafio humanitário e um desafio econômico operacional. Em uma avaliação demográfica, o especialista diz que é possível dividir o país ao meio: na parte superior, regiões ainda operam com lixões e descarte precário; na área inferior, muitos municípios não alcançam escala populacional suficiente para viabilizar economicamente soluções tradicionais, como aterros sanitários.

Segundo Hugo Goulart de Oliveira, a dificuldade de implementar alternativas em cidades menores ajuda a explicar a permanência de estruturas inadequadas, mesmo depois da Política Nacional de Resíduos Sólidos, sancionada em 2010.

“A lei foi implementada em 2010 e o objetivo era acabar com os lixões no Brasil. Agora estamos aqui em 2026, 16 anos depois, e ainda existem quase 3000 lixões no país operando de forma irregular”, avalia o especialista.

Em suma, os palestrantes ponderam que a questão não é resultado apenas da falta de tecnologia, mas da baixa aplicação da legislação aliada à complexidade do serviço, que resulta em dificuldade de coordenação entre poder público, escala operacional e investimento.

Tecnologia e transformação do resíduo

A parte final do debate foi dedicada às soluções para a destinação dos resíduos. Os palestrantes defenderam que o caminho passa por deixar de tratar o lixo apenas como passivo e passar a encará-lo como parte de uma nova cadeia de aproveitamento energético e sanitário.

Na formulação apresentada por André Tchernobilsky, o objetivo é transformar o descarte em resíduo processável, com potencial de geração de energia renovável e redução de custos.

Tchernobilsky ainda detalhou o desenvolvimento de reatores modulares capazes de volatilizar matéria orgânica em altas temperaturas e converter o material em gás, posteriormente transformado em energia. A proposta inclui desde equipamentos de menor escala, voltados a hospitais e pequenos municípios, até estruturas maiores para cidades com mais de 100 mil habitantes, dentro de um modelo de eco parque que combina triagem, reciclagem e geração energética.

Ao final, a palestra reforçou a ideia de que enfrentar o problema dos resíduos exige mais do que diagnóstico. A mensagem central foi a de que lixo, saúde pública, sustentabilidade e inovação não podem mais ser tratados como temas separados.